 SARA  SHEPARD
                        TRADUO 
                                        FAL AZEVEDO
ROCCO
JOVENS LEITORES
Para Lanie, Les, Josh e Sara
Ttulo original
UNBELIEVABLE
A PRETTY LITTLE LIARS NOVEL
Copyright (c) 2008 by Alloy Entertainment and Sara Shepard
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, 
ou transmitida por qualquer forma ou meio eletrnico ou mecnico, 
inclusive fotocpia, gravao ou sistema de armazenagem e 
recuperao de informao, sem a permisso do editor.
Direitos para a lngua portuguesa reservados
com exclusividade para o Brasil 
EDITORA ROCCO LTDA.
Av. Presidente Wilson 231 - 8 andar
20030-021 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 3525-2000 - Fax: (21) 3525-2001
rocco@rocco.com.br
www.rocco.com.br
Printed in Brazil/Impresso no Brasil
preparao de originais
KARINA DE PINO
CIP-Brasil Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
S553i     Shepard, Sara,  1977-
Inacreditveis / Sara Shepard; - traduo de Fal Azevedo. - Rio de Janeiro:
Rocco Jovens Leitores, 2011. (Pretty Little Liars; v.4)
Traduo de: Unbelievable: a pretty little liars novel
ISBN 978-85-7980-074-0
1. Amizade - Literatura infantojuvenil. 2. Fico policial americana.
3. Literatura infantojuvenil americana. I. Azevedo, Fal, 1971-, II. Ttulo. III. Srie
11-2049                CDD: 028.5        CDU: 087.5
O texto deste livro obedece s normas do
Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
Ningum pode usar uma mscara por muito tempo.
        - LUCIUS ANNAEUS SENECA
COMO SALVAR UMA VIDA
Voc j desejou poder voltar no tempo e desfazer seus erros? Se voc no tivesse desenhado aquela cara de palhao na bonequinha Bratz que a sua melhor amiga ganhou
no aniversrio de oito anos, ela no teria trocado voc pela garota nova de Boston. E no nono ano, voc jamais teria matado a aula de futebol para ir  praia se
soubesse que o treinador iria coloc-la no banco de reservas pelo resto da temporada. Se voc no tivesse feito algumas pssimas escolhas, talvez a sua ex-melhor-amiga-para-sempre
tivesse lhe dado aquele ingresso extra para a primeira fileira do desfile de Marc Jacobs. Ou talvez voc fosse goleira da seleo nacional feminina de futebol, com
um contrato para trabalhar como modelo para a Nike e uma casa de praia em Nice.Voc poderia estar circulando em um jatinho pelo Mediterrneo, em vez de estar sentada
assistindo  aula de Geografia, tentando encontr-lo no mapa.
        Em Rosewood, fantasias sobre voltar no tempo e mudar o destino so to comuns quanto garotas que ganham pingentes de corao da Tiffany no aniversrio de 
treze anos.E quatro ex-melhores amigas fariam qualquer coisa para voltar no tempo e consertar as coisas. Mas e se elas realmente pudessem voltar? Ser que elas seriam 
capazes de manter a quinta melhor amiga viva... ou a tragdia dela  parte do destino das outras?
        s vezes, o passado guarda mais perguntas que respostas. E em Rosewood, nada jamais  o que parece ser.
- Ela vai ficar besta quando eu contar! - disse Spencer Hastings para suas melhores amigas, Hanna Marin, Emily Fields e Aria Montgomery. Ela endireitou sua camiseta 
verde-musgo de ilhs e apertou a campainha da casa de Alison DiLaurentis.
        -  Por que  voc quem vai contar para ela? - perguntou Hanna, saltando do degrau de entrada para a calada, e de volta para o degrau. Desde que Alison, 
a quinta melhor amiga, dissera a Hanna que apenas garotas agitadas permanecem magras, Hanna vivia se movimentando.
        - Talvez todas ns devssemos contar juntas ao mesmo tempo - sugeriu Aria, coando a liblula de Hanna que havia feito no pescoo.
        - Isso seria divertido. - Emily colocou o cabelo louro-avermelhado e muito curto atrs das orelhas. -A gente podia fazer uma coreografiazinha e dizer "tan-tan-tan-taaaaan" 
no final.
        - De jeito nenhum - disse Spencer, endireitando os ombros. -  o meu celeiro, eu conto pra ela. - E apertou a campainha da casa dos DiLaurentis de novo.
        Enquanto esperavam, as meninas ouviram o barulho dos cortadores de grama aparando as cercas vivas da casa de Spencer, ao lado, e o tchoc-tchoc das gmeas 
Fairfield jogando tnis na quadra do quintal, a duas casas de distncia. O ar cheirava a lilases, grama cortada, e bloqueador solar da Neutrogena. Era um tpico 
e idlico momento Rosewood - tudo na cidade era bonito, e isto inclua sons, cheiros e habitantes. As meninas haviam vivido em Rosewood por quase toda a vida, e 
se sentiam sortudas por fazer parte de um lugar to especial.
        Elas amavam os veres de Rosewood acima de tudo. Na manh seguinte, depois de acabarem a ltima prova do stimo ano de Rosewood Day, a escola na qual todas 
estudavam, elas iriam participar da cerimnia anual de formatura. O Diretor Appleton chamaria cada aluno pelo nome, desde o jardim de infncia at o ltimo ano do 
ensino mdio, e cada um receberia um broche de ouro de vinte e quatro quilates - o das meninas era uma gardnia, e o dos meninos, uma ferradura. Depois disso, todos 
estariam liberados para dez gloriosas semanas de bronzeado, piqueniques, passeios de barco e viagens para Filadlfia e Nova York onde poderiam comprar o que quisessem. 
Elas mal podiam esperar.
        Mas a cerimnia de formatura no seria o verdadeiro ritual de passagem para Ali, Aria, Spencer, Emily e Hanna. O vero no comearia de verdade para elas 
antes da noite seguinte, na festa do pijama em que comemorariam o final do stimo ano. E as meninas tinham uma surpresa para Ali, que faria aquele incio de vero 
extraespecial.
        Quando a porta da casa dos DiLaurentis finalmente se abriu, a sra. DiLaurentis apareceu na frente delas, usando um vestido rosa plido curto, que deixava 
 mostra suas pernas longas, musculosas e bronzeadas.
        - Ol, meninas - disse ela, friamente.
        - A Ali est? - perguntou Spencer.
        -  Eu acho que ela est l em cima. - A sra. DiLaurentis abriu a passagem para elas. - Podem subir.
        Spencer liderou o grupo pelo hall de entrada, sua saia branca plissada do uniforme de hquei balanando, a trana loura escura batendo contra suas costas. 
As meninas adoravam a casa de Ali - ela cheirava a baunilha e amaciante de roupas, igualzinho  Ali. Fotografias glamorosas de viagens dos DiLaurentis a Lisboa, 
Praga e Lago Como enchiam as paredes. Havia muitas fotos de Ali e de seu irmo, Jason, desde que haviam entrado na escola. As meninas gostavam especialmente da foto 
de Ali no segundo ano. O suter rosa-schocking de Ali fazia seu rosto inteiro brilhar. Naquela poca, a famlia dela morava em Connecticut e a antiga escola particular 
de Ali no exigia que ela vestisse palets azuis abafados para as fotos do livro do ano, como em Rosewood Day. Mesmo aos oito anos de idade, Ali era irresistivelmente 
linda - tinha olhos azuis muito claros, o rosto em formato de corao, covinhas adorveis e uma expresso maliciosa, mas charmosa, que tornava impossvel ficar com 
raiva dela.
        Spencer tocou no canto inferior direito de sua foto preferida, a que mostrava as cinco meninas acampando em Poconos no ltimo ms de julho. Elas estavam 
de p ao lado de uma canoa enorme, ensopadas da gua lamacenta do lago, sorrindo de orelha a orelha, felizes como s cinco melhores amigas de doze anos de idade 
podem ser. Aria colocou a mo sobre a de Spencer, Emily colocou a sua sobre a de Aria, e a mo de Hanna ficou por ltimo. Elas fecharam os olhos por uma frao de 
segundo, cantarolaram, e se separaram. As meninas haviam criado o hbito de tocar na foto logo que ela foi colocada na parede, uma lembrana de seu primeiro vero 
como melhores amigas. Elas mal podiam acreditar que Ali, a garota de Rosewood Day, tivesse escolhido as quatro para compor seu crculo particular de amigas. Era 
algo parecido com estar inseparavelmente ligadas a uma supercelebridade.
        Mas admitir isso seria... bem, ridculo. Especialmente agora.
        Quando elas passaram pela sala de estar, perceberam duas becas de formatura penduradas na maaneta de uma das portas francesas. A branca era de Ali, e a 
azul-marinho, mais formal, era de Jason, que iria para Yale no outono. As meninas apertaram as mos, animadas com a ideia de vestirem suas prprias becas e capelos, 
que os formandos do Rosewood Day usavam desde que a escola havia sido fundada, em 1897. S ento elas perceberam um movimento na sala de estar. Jason estava sentado 
no sofazinho de couro, o olhar fixo na CNN.
        -  Eeeeeeeei, Jason - chamou Spencer, acenando -, voc est animado pra amanh?
        Jason olhou rapidamente para elas. Ele era a verso masculina-irresistvel de Ali, com cabelos loiros dourados, e olhos azuis impressionantes. Ele deu um 
sorrisinho e voltou a olhar para a TV, sem dizer uma palavra.
        - Tuuuudo bem - as meninas todas murmuraram em coro. Jason tinha um lado hilariante. Ele e os amigos haviam inventado o jogo do "isso no". As meninas tinham 
tomado emprestado e reinventado a brincadeira para uso prprio, o que na maior parte do tempo significava zombar das garotas mais estudiosas na frente delas. Mas 
Jason definitivamente tambm tinha seus momentos de depresso. Ali chamava essas ocasies de momentos Elliott Smith, por causa do cantor e compositor depressivo 
do qual Jason gostava. S que Jason certamente no tinha nenhum motivo para estar chateado agora - no dia seguinte, a essa hora, ele estaria em um avio para a Costa 
Rica, para dar aulas de caiaque durante o vero. Bu.
        -  Que seja - disse Aria, dando de ombros. As quatro meninas se viraram e subiram as escadas aos pulos at o quarto de Ali. Quando chegaram no corredor, 
perceberam que a porta do quarto estava fechada. Spencer franziu a testa. Emily inclinou a cabea. Dentro do quarto, Ali deu uma risadinha.
        Hanna abriu a porta suavemente. Ali estava de costas para elas. O cabelo dela estava preso em um rabo de cavalo alto, e ela havia amarrado o top de seda 
listrado com um lao perfeito no pescoo. Ela estava olhando para um caderno aberto em seu colo, completamente concentrada.
        Spencer pigarreou, e Ali se virou, assustada.
        - Oi meninas! - gritou ela. - O que  que est rolando?
        - Nada de mais. - Hanna apontou para o caderno no colo de Ali. - O que  isso?
        Ali fechou o caderno rapidamente.
        - Ah, no  nada.
        As meninas sentiram uma presena atrs delas. A sra. DiLaurentis passou por elas, entrando no quarto de Ali.
        - Ns precisamos conversar - disse ela a Ali, sua voz cortante e tensa.
        - Mas me... - protestou Ali.
        - Agora.
        As meninas se entreolharam. Aquele era o tom "voc-est-encrencada" da sra. DiLaurentis. Elas no o ouviam com muita frequncia.
        A me de Ali se virou para as garotas.
        - Por que vocs no esperam l no deque, meninas?
        - S vai levar um segundo - disse Ali rapidamente, dando a elas um sorriso de desculpas. - Eu j vou descer.
        Hanna parou, confusa. Spencer apertou os olhos, tentando ver qual era o caderno que Ali estava segurando. A sra. DiLaurentis levantou uma sobrancelha.
        -Vamos, meninas. Andem.
        As quatro engoliram em seco e desceram os degraus em fila. Quando chegaram ao deque, elas se acomodaram em suas posies habituais em volta da enorme mesa 
da famlia - Spencer em uma ponta, e Aria, Emily e Hanna nas laterais. Ali se sentava  cabeceira, junto da banheira de pedra para pssaros que pertencia a seu pai. 
Por um momento, as quatro garotas observaram um casal de cardeais brincando na gua fria e clara da banheira. Quando um corvo azul tentou se juntar a eles, os cardeais 
piaram e rapidamente o espantaram. Pssaros, ao que parecia, gostavam de exclusividade tanto quanto garotas.
        -  Foi estranho o que aconteceu l em cima - cochichou Aria.
        - Vocs acham que a Ali est encrencada? - cochichou Hanna de volta. - E se ela ficar de castigo e no puder ir  festa do pijama?
        - Por que ela estaria encrencada? Ela no fez nada de errado - sussurrou Emily, que sempre defendia Ali. As meninas a chamavam de Delegada, como se ela fosse 
o pitbull pessoal de Ali.
        -  No que a gente saiba - resmungou Spencer entre os dentes.
        Naquele momento, a sra. DiLaurentis saiu correndo pelas portas francesas do deque e foi at o gramado.
        - Eu quero ter certeza de que vocs esto trabalhando com o tamanho certo - gritou ela para os trabalhadores que estavam encostados preguiosamente em uma 
escavadeira enorme, no quintal da propriedade. Os DiLaurentis estavam construindo um gazebo para vinte pessoas para as frias de vero, e Ali tinha mencionado que 
sua me estava sendo bastante exigente com o processo todo, embora eles ainda estivessem na etapa de escavao. A sra. DiLaurentis marchou at onde estavam os trabalhadores 
e comeou a reclamar deles. Seu anel de casamento, feito de diamantes, brilhava ao sol, enquanto ela agitava os braos no ar freneticamente. As meninas trocaram 
olhares; parecia que a bronca que Ali tinha levado no fora muito longa.
        - Meninas?
        Ali estava parada na beirada do deque. Ela havia trocado o top listrado por uma camiseta azul desbotada da Abercrombie. Havia uma expresso confusa em seu 
rosto.
        - Hum... oi? 
        Spencer se levantou.
        - Por que foi que ela brigou com voc?
        Ali piscou. Seus olhos se moviam para um lado e para o outro.
        -Voc estava se metendo em encrenca sem a gente? - gritou Aria, tentando fazer parecer que estava brincando. - E por que voc trocou de roupa? Aquele top 
que voc estava usando era to bonito.
        Ali ainda parecia perturbada... e meio chateada. Emily fez um movimento para se levantar.
        - Voc quer que a gente... v embora? - a voz dela estava cheia de incerteza. Todas as outras olharam para Ali, nervosas: era isso que ela queria?
        Ali girou a pulseira de cordo azul em seu brao trs vezes. Ela desceu para o deque e se sentou em seu lugar de direito.
        - Claro que eu no quero que vocs vo embora. Minha me estava zangada comigo porque eu... eu joguei meu uniforme de hquei na mquina de lavar junto com 
a lingerie dela, de novo. - Ela deu de ombros de um jeito envergonhado, e revirou os olhos. 
        Emily fez beicinho e deu um muxoxo.
        - Ela ficou zangada com voc por causa disso? 
        Ali ergueu as sobrancelhas.
        -Voc conhece a minha me, Em. Ela  mais fresca que a Spencer! - Ela deu uma risadinha.
        Spencer lanou um falso olhar raivoso para Ali, enquanto Emily passava o polegar por um dos sulcos na mesa de teca do deque.
        - Mas no se preocupem, meninas. Eu no estou de castigo nem nada. - Ali bateu palmas. - Nossa festa do pijama .pode seguir como planejada!
        As outras quatro suspiraram de alvio, e o clima estranho e tenso comeou a evaporar. S que cada uma delas tinha a sensao esquisita de que Ali no estava 
lhes contando tudo - e certamente no seria a primeira vez. Num minuto, Ali era a melhor amiga delas; no outro, ela se afastava, dando telefonemas escondida e enviando 
mensagens secretas. Elas no deveriam dividir tudo? As outras meninas certamente haviam compartilhado mais do que o suficiente sobre si prprias - elas tinham contado 
para Ali segredos que ningum, absolutamente ningum mais, sabia. E, obviamente, havia o grande segredo que todas elas dividiam sobre Jenna Cavanaugh - aquele que 
elas haviam jurado levar para a sepultura.
        - Por falar na nossa festa do pijama, eu tenho grandes notcias - disse Spencer, despertando-as de seus pensamentos. - Adivinhe onde ela ser?
        - Onde? - Ali se inclinou para a frente, apoiada nos cotovelos, lentamente voltando a ser a velha Ali.
        -  No celeiro da Melissa! - gritou Spencer. Melissa era a irm mais velha de Spencer, e o sr. e a sra. Hastings haviam reformado o celeiro nos fundos da 
propriedade e deixado Melissa us-lo como seu apartamento particular durante o segundo e o terceiro ano do ensino mdio. Spencer teria o mesmo privilgio quando 
tivesse idade suficiente.
        - Beleza! - comemorou Ali. - Mas como?
        - Ela vai viajar para Praga amanh  noite, depois da formatura - respondeu Spencer. - Meus pais disseram que ns podemos us-lo, desde que a gente limpe 
tudo antes dela voltar.
        - Muito bom - Ali se recostou e entrelaou os dedos das mos. De repente, seus olhos focaram em alguma coisa  esquerda dos trabalhadores. A prpria Melissa 
estava atravessando o quintal vizinho dos Hastings, sua postura rgida e composta. A beca de formatura branca balanava no cabide em sua mo, e ela usava o manto 
azul royal de oradora sobre os ombros.
        Spencer deixou escapar um grunhido.
        - Ela est to metida por causa dessa histria de oradora - sussurrou. - Ela chegou a dizer que eu deveria me sentir agradecida porque Andrew Campbell provavelmente 
ser o orador, e no eu, quando estivermos no ltimo ano, j que "a honra  uma responsabilidade to grande".- Spencer e a irm se detestavam, e quase todos os dias 
Spencer tinha uma histria nova para contar sobre como Melissa era insuportvel.
        Ali se levantou.
        - Ei! Melissa! - Ela comeou a acenar. 
        Melissa parou e se virou.
        - Oh. Oi, meninas. - Ela sorriu cautelosamente.
        - Animada para ir a Praga? - cantarolou Ali, dando a Melissa seu sorriso mais brilhante.
        Melissa inclinou levemente a cabea.
        - Claro.
        -  O Ian vai? - Ian era o namorado lindo de Melissa. As meninas quase desmaiavam s de pensar nele.
        Spencer cravou as unhas no brao de Ali.
        - Ali! - Mas a outra se desvencilhou dela.
        Melissa cobriu os olhos para proteg-los da luz forte do sol. O manto azul royal farfalhava com o vento.
        - No. Ele no vai.
        - Oh! - Ali deu um sorrisinho afetado. -Voc tem certeza de que  uma boa ideia deix-lo sozinho por duas semanas? Ele pode arrumar outra namorada!
        - Alison! - disse Spencer entre os dentes. - Pare com isso. Agora.
        - Spencer? - sussurrou Emily. - O que est acontecendo?
        - Nada - disse Spencer rapidamente. Aria, Emily e Hanna se entreolharam novamente. Aquilo andava acontecendo muito ultimamente: Ali dizia alguma coisa, uma 
delas dava um ataque, e as outras no faziam ideia do que estava acontecendo.
        Mas aquilo, claramente, no era "nada". Melissa ajeitou o manto ao redor do pescoo, endireitou os ombros e se virou. Ela olhou por muito tempo para o buraco 
enorme no quintal dos DiLaurentis e saiu andando em direo ao celeiro, batendo a porta s suas costas com tanta fora que a guirlanda que a enfeitava quicou contra 
a madeira.
        - Alguma coisa. a est incomodando, obviamente - disse Ali. - Afinal de contas, eu s estava brincando. - Spencer gemeu e Ali comeou a rir. Ela tinha um 
sorrisinho amarelo no rosto. Era o mesmo sorriso que Ali dava a elas todas as vezes em que provocava as amigas com um segredo, dizendo que contaria para as outras 
se quisesse.
        - Quem se importa, afinal? - Ali olhou para cada uma delas, seus olhos brilhando. - Sabem de uma coisa, meninas? - ela tamborilou os dedos na mesa de forma 
animada.   - Eu acho que esse vai ser o Vero da Ali. O Vero de Todas Ns. Posso sentir isso. Vocs no sentem?
        Um momento de espanto se passou. Parecia que uma nuvem negra pairava sobre elas, sombreando seus pensamentos. Mas, lentamente, as nuvens se desvaneceram 
e uma ideia se formou na mente de cada uma delas. Talvez Ali estivesse certa. Aquele poderia ser o melhor vero de suas vidas. Elas ainda podiam mudar a amizade 
que as unia, tornando-a to forte quanto havia sido no vero anterior. Elas podiam esquecer todas as coisas assustadoras e escandalosas que haviam acontecido e comear 
de novo.
        - Eu posso sentir isso, tambm - Hanna falou alto.
        - Definitivamente - disseram Aria e Emily ao mesmo tempo.
        - Claro - disse Spencer, suavemente.
        Todas deram as mos e as apertaram com fora.
Choveu naquela noite, uma chuva forte e barulhenta, que fez poas nas ruas, inundou os jardins e criou minipiscinas sobre a cobertura da piscina dos Hastings. Quando 
a chuva parou, no meio da noite, Aria, Emily, Spencer e Hanna acordaram e sentaram-se em suas camas quase no mesmo instante. Um mau pressentimento tomou conta de 
cada uma delas. Elas no sabiam se vinha de algo que haviam sonhado ou se era por causa da animao pelo dia seguinte. Ou talvez fosse por causa de algo totalmente 
diferente... algo muito mais profundo.
        Cada uma delas olhou pela prpria janela, para as ruas tranquilas e vazias de Rosewood. As nuvens tinham desaparecido e as estrelas haviam surgido no cu. 
A calada brilhava com a chuva. Hanna olhou para a garagem em frente a sua casa - apenas o carro de sua me estava ali agora. Seu pai havia se mudado. Emily olhou 
para seu quintal e a floresta alm dele. Ela jamais tinha se aventurado naquelas matas - ela tinha ouvido falar que havia fantasmas ali. Aria escutou os sons que 
vinham do quarto de seus pais, imaginando se eles tambm haviam acordado - ou talvez eles estivessem brigando de novo, e ainda no tivessem ido dormir. Spencer olhou 
para a varanda dos DiLaurentis, e depois para o enorme buraco que os trabalhadores haviam cavado para os alicerces do gazebo. A chuva havia transformado parte da 
terra escavada em lama. Spencer pensou em todas as coisas que a deixavam com raiva em sua vida. Ento, pensou em todas as coisas que queria ter - e em todas as coisas 
que queria mudar.
        Spencer esticou a mo para debaixo da cama, encontrou sua lanterna vermelha e a acendeu, fazendo-a brilhar na janela de Ali. Um flash, dois flashes, trs 
flashes. Aquele era o cdigo secreto entre ela e Ali, para quando ela queria escapar de casa e conversar pessoalmente. Ela pensou ter visto a cabea loira de Ali 
se levantar da cama, tambm, mas Ali no enviou um flash de volta.
        Todas as quatro voltaram para seus travesseiros, dizendo a si mesmas que o mau pressentimento no era nada, e que precisavam dormir. Em vinte e quatro horas, 
elas estariam chegando ao fim de sua festa do pijama do stimo ano, a primeira noite do vero. O vero que mudaria tudo.
        Como elas estavam certas.
1
SER ZEN  MELHOR 
QUE SER FORTE
Aria Montgomery acordou no meio de um ronco. Era domingo de manh, e ela estava encolhida em uma cadeira de vinil azul, na sala de espera do Rosewood Memorial Hospital. 
Todo mundo - os pais de Hanna Marin, o Oficial Wilden, a melhor amiga de Hanna, Mona Vanderwaal, e Lucas Beattie, um garoto da sala dela em Rosewood Day, que parecia 
ter acabado de chegar - estava olhando para ela.
        - Perdi alguma coisa? - grunhiu Aria. Parecia que sua cabea estava cheia de marshmallows Peeps. Quando ela checou o relgio com a logomarca do remdio antidepressivo 
Zoloft na parede sobre a porta da sala de espera, viu que eram apenas oito e meia. Ela tinha cochilado por cerca de quinze minutos.
        Lucas sentou-se ao lado dela e apanhou uma cpia da revista Suprimentos Mdicos Hoje. De acordo com a capa, a edio destacava todos os modelos recentes 
de bolsas de colostomia. Quem coloca uma revista de suprimentos mdicos em uma sala de espera de hospital?
        - Eu acabei de chegar - respondeu ele.- Soube do acidente pelo noticirio da manh.Voc j viu a Hanna?
        Aria sacudiu a cabea.
        - Eles no deixaram ningum entrar ainda.
        Os dois caram em um silncio profundo. Aria observou os outros. A sra. Marin estava vestindo um suter de cashmere amarrotado e uma cala jeans de caimento 
perfeito. Ela estava berrando no seu pequeno Motorola, embora as enfermeiras tivessem avisado que era proibido usar celulares ali. Wilden, o policial, sentou-se 
junto dela, sua jaqueta do departamento de polcia de Rosewood desabotoada at a metade do peito, deixando uma camiseta branca gasta  mostra. O pai de Hanna estava 
jogado na cadeira mais prxima das enormes portas duplas que levavam  unidade de terapia intensiva, balanando o p esquerdo. Vestindo um conjunto de moletom rosa 
claro da Juicy e chinelos, Mona Vanderwaal parecia estranhamente desleixada, o rosto inchado de tanto chorar. Quando Mona viu Lucas, lanou um olhar irritado para 
ele, como se quisesse dizer Este lugar  s para os amigos mais prximos e para a famlia. O que  que voc est fazendo aqui? Aria no podia culpar ningum pela 
irritao de Mona. Ela estava ali desde as trs horas da manh, logo depois que a ambulncia saiu do estacionamento da Escola Primria Rosewood Day levando Hanna 
para o hospital. Mona e os outros tinham chegado em diferentes momentos ao longo da manh, quando a notcia comeara a circular. A ltima coisa que os mdicos tinham 
dito fora que Hanna havia sido transferida para a unidade de terapia intensiva. Mas isso tinha sido trs horas antes.
        Aria relembrou os detalhes horrorosos da noite anterior. Hanna havia telefonado para dizer que sabia a identidade de A, o mensageiro diablico que andava 
chantageando Hanna, Aria, Emily e Spencer durante o ltimo ms. Hanna no quis revelar nenhum detalhe por telefone, e pediu a Aria e Emily que a encontrassem nos 
balanos do Rosewood Day, o antigo lugar especial delas. Emily e Aria tinham chegado justamente a tempo de ver uma van preta surgir do nada, atirar Hanna longe e 
desaparecer. Enquanto os paramdicos corriam para o local do acidente, colocavam um colar cervical no pescoo dela e a deitavam cuidadosamente na maca da ambulncia, 
Aria tinha ficado entorpecida. Quando ela se beliscou com fora, nem doeu.
        Hanna ainda estava viva... mas por um triz.
        Ela tinha ferimentos internos, um brao quebrado, e hematomas por todo o corpo. O acidente havia causado um trauma na cabea, e agora ela estava em coma.
        Aria fechou os olhos com fora, pronta para se desmanchar em lgrimas de novo. A coisa mais inacreditvel de tudo aquilo era o texto que Aria e Emily haviam 
recebido depois do acidente de Hanna. Ela sabia demais. Era de A. O que significava que... A sabia o que Hanna sabia. Assim como A sabia de todo o resto - todos 
os segredos delas, inclusive que a culpa por Jenna Cavanaugh ter ficado cega era de Ali, Aria, Spencer, Emily e Hanna, e no de seu irmo, Toby.
        Provavelmente A sabia quem havia matado Ali.
        Lucas deu um tapinha no brao de Aria.
        - Voc estava l quando aquele carro atropelou a Hanna, no estava? Voc conseguiu ver quem fez isso?
        Aria no conhecia Lucas muito bem. Ele era um daqueles garotos que adoravam as atividades e clubes da escola, enquanto Aria era do tipo que ficava muito, 
muito longe de qualquer coisa que envolvesse seus colegas de Rosewood Day. Ela no sabia qual era a ligao que ele tinha com Hanna, mas parecia delicado da parte 
dele estar ali.
        - Estava muito escuro - murmurou ela.
        - E voc no tem nenhuma ideia de quem possa ter sido? 
        Aria mordeu o lbio inferior com fora. Wilden e outros dois policiais de Rosewood tinham aparecido na noite anterior pouco depois de as meninas terem recebido 
a mensagem de A. Quando Wilden perguntara a elas o que havia acontecido, todas insistiram que no tinham visto o rosto do motorista e nem se lembravam direito do 
carro. E elas juraram vrias vezes que parecia ter sido apenas um acidente - que no imaginavam por que algum iria querer fazer aquilo de propsito. Talvez fosse 
um erro esconder aquela informao da polcia, mas elas estavam todas aterrorizadas com o que A poderia fazer com o restante delas, se falassem a verdade.
        A havia ameaado as garotas antes, caso elas abrissem a boca, e tanto Aria como Emily j tinham sido punidas uma vez por ignorar as ameaas. A havia enviado 
uma carta para Ella, me de Aria, dizendo que seu marido estava tendo um caso com uma das alunas da universidade e revelando que Aria sabia sobre o segredo do pai. 
Depois, A contou para a escola inteira que Emily estava saindo com Maya, a garota que havia se mudado para a antiga casa de Ali. Aria olhou para Lucas e sacudiu 
a cabea silenciosamente.
        A porta da unidade de terapia intensiva foi aberta bruscamente, e o dr. Geist entrou na sala de espera. Com seus penetrantes olhos cinzentos, nariz adunco 
e cabelos grisalhos, ele se parecia um pouco com Helmut, o senhorio alemo da velha casa que a famlia de Aria tinha alugado em Reykjavk, na Islndia. O dr. Geist 
dirigia a todos o mesmo olhar reprovador que Helmut havia lanado ao irmo de Aria, Mike, quando descobrira que o garoto estava escondendo Diddy, sua aranha de estimao, 
em um vaso de terracota vazio, que Helmut costumava usar para plantar tulipas.
        Os pais de Hanna levantaram-se, nervosos, e se aproximaram do mdico.
        - Sua filha ainda est inconsciente - disse o Dr. Geist em voz baixa. - No houve muita mudana. Ns colocamos o brao dela no lugar e estamos verificando 
a extenso dos ferimentos internos.
        - Quando vamos poder v-la? - perguntou o sr. Marin.
        -  Logo - disse o dr. Geist -, mas o estado dela ainda  muito grave.
        Ele se virou para sair, mas o sr. Marin segurou-lhe o brao.
        - Quando ela vai acordar?
        O dr. Geist mexeu com nervosismo na prancheta.
        - Ela ainda tem alguns edemas no crebro, e  difcil prever a extenso dos danos a esta altura. Ela pode acordar perfeitamente bem, ou pode haver complicaes.
        - Complicaes? - O sr. Marin ficou plido. - Ouvi falar que as pessoas que ficam em coma tm menos chances de se recuperar depois de um certo tempo - disse 
o sr. Marin, nervoso. - Isso  verdade?
        O dr. Geist esfregou as mos no jaleco azul.
        - Sim,  verdade, mas no vamos tirar concluses precipitadas, certo?
        Um murmrio percorreu a sala. Mona desabou em prantos de novo.
        Aria queria poder ligar para Emily, mas Emily estava em um avio para Des Moines, Iowa, por motivos que ela no tinha explicado. Ela apenas dissera que A 
havia feito alguma coisa para mand-la para l. E tambm havia Spencer. Antes de Hanna telefonar para contar a novidade, Aria deduzira algo aterrador sobre Spencer... 
e quando Aria a viu escondida no mato, tremendo como um animal selvagem pouco depois de a van atropelar Hanna, ela confirmou suas piores suspeitas.
        A sra. Marin apanhou sua enorme bolsa de couro marrom do cho, tirando Aria de seus pensamentos.
        - Eu vou buscar um caf - disse a me de Hanna suavemente para o ex-marido, Depois deu um beijo no rosto do Oficial Wilden. At aquela noite, Aria no suspeitava 
que houvesse algo entre eles. E ento, desapareceu na direo dos elevadores.
        O Oficial Wilden se recostou de volta na cadeira. Na semana anterior, Wilden havia visitado Aria, Hanna e as outras para fazer perguntas sobre os detalhes 
que envolviam o desaparecimento e a morte de Ali. No meio da entrevista, A enviara uma mensagem a cada uma delas, dizendo que se elas ousassem falar sobre os recados 
que estavam recebendo, iriam se arrepender. Mas s porque Aria no podia contar a Wilden o que A provavelmente tinha feito com Hanna, no significava que ela no 
pudesse falar sobre a coisa horrvel que ela havia percebido a respeito de Spencer.
        Posso falar com voc? - sinalizou ela para Wilden, do outro lado da sala. Wilden assentiu e levantou-se.
        Eles saram da sala de espera e entraram em um pequeno cubculo com uma indicao: LANCHES. L dentro, havia seis mquinas de venda automtica, que ofereciam 
uma variedade de produtos, de refrigerantes a refeies completas, sanduches impossveis de identificar e tortas salgadas, que lembravam a Aria a gororoba que seu 
pai, Byron, costumava fazer para o jantar quando sua me, Ella, trabalhava at tarde.
        - Escute aqui, se isso  sobre o seu amigo professor, ns j o liberamos. -Wilden sentou-se no banco perto do micro-ondas e deu a Aria um sorrisinho dissimulado. 
- Ns no pudemos ret-lo. E s para voc saber, fomos discretos. No vamos puni-lo, a no ser que voc preste queixa. O certo seria eu contar aos seus pais.
        O sangue desapareceu do rosto de Aria. Obviamente Wilden sabia o que havia acontecido na noite anterior entre ela e Ezra Fitz, seu professor de ingls e 
amor da sua vida. Provavelmente, o fato de que um professor de ingls de vinte e dois anos andava de casinho com uma aluna menor de idade, e que tinha sido o namorado 
dessa aluna quem os delatara, era a fofoca do dia no Departamento de Polcia de Rosewood. Os policiais provavelmente andavam comentando sobre o caso no restaurante 
Hooters que ficava ao lado da delegacia, entre asinhas de frango, batatas fritas com queijo e garotas peitudas.
        - Eu no quero prestar queixa - balbuciou Aria. - E, por favor, por favor, no conte para os meus pais. -A ltima coisa de que ela precisava era algum tipo 
de discusso familiar grande e sem propsito.
        Aria inclinou-se para a frente.
        - Mas na verdade, no foi por isso que eu pedi pra falar com voc. Eu... eu acho que talvez eu saiba quem matou Alison.
        Wilden ergueu uma sobrancelha.
        - Estou escutando. 
        Aria respirou fundo.
        - Em primeiro lugar, Ali estava saindo com Ian Thomas.
        - Ian Thomas - repetiu Wilden, com os olhos arregalados. - O namorado de Melissa Hastings?
        Aria assentiu.
        - Eu percebi uma coisa no filme que vazou para a imprensa na semana passada. Se voc assistir com ateno, pode ver Ian e Ali de mos dadas... - Ela limpou 
a garganta. - Spencer Hastings tambm estava a fim do Ian. Ali e Spencer eram competitivas, e elas tiveram uma briga horrorosa na noite em que Ali desapareceu. Spencer 
saiu correndo do celeiro atrs de Ali, e demorou uns dez minutos para voltar.
        Wilden parecia incrdulo.
        Aria respirou fundo de novo. A havia enviado diversas pistas para Aria sobre o assassino de Ali: que era algum prximo dela, algum que desejava algo que 
pertencia a Ali e algum que conhecia cada centmetro de seu quintal. Com aquelas pistas no devido lugar, e depois que Aria tinha percebido que Ian e Ali estavam 
juntos, Spencer era a suspeita lgica.
        - Depois de algum tempo, fui procurar por elas - disse ela.
- E elas no estavam em lugar nenhum... e eu tive essa sensao terrvel, de que Spencer...
        Wilden sentou-se novamente.
        - Spencer e Alison tinham mais ou menos o mesmo peso, certo?
        Aria assentiu.
        - , eu acho que sim.
        -  Voc seria capaz de arrastar uma pessoa do seu tamanho at um buraco, e empurr-la para dentro dele?
        - Eu... eu no sei - gaguejou Aria. - Talvez? Se eu estivesse com muita raiva?
        Wilden sacudiu a cabea. Os olhos de Aria se encheram de lgrimas. Ela se lembrou de como aquela noite tinha sido estranhamente silenciosa. Ali havia estado 
a apenas poucas centenas de metros delas, e elas no tinham ouvido um barulho sequer.
        - Spencer tambm teria que ter se acalmado o suficiente para no parecer suspeita quando voltasse para perto de vocs - completou Wilden. -  preciso ser 
uma atriz muito boa para fazer isso, no  coisa para uma garota do stimo ano. Eu acho que quem quer que tenha feito isso obviamente estava por perto, mas a coisa 
toda levou mais tempo. - Ele ergueu as sobrancelhas. -  isso que vocs, meninas do Rosewood Day, andam fazendo hoje em dia? Culpando as amigas por assassinato?
        O queixo de Aria caiu de surpresa com o tom de censura de Wilden.
        -  que...
        - Spencer Hastings  uma menina competitiva e que vive no limite, mas ela no me parece uma assassina - interrompeu Wilden, e sorriu tristemente para Aria. 
- Eu entendo. Isso deve ser difcil para voc. Tudo o que voc quer  entender o que aconteceu com sua amiga. Entretanto, eu no sabia que Alison andava saindo escondida 
com o namorado de Melissa Hastings. Isso  interessante.
        Wilden olhou para Aria, dando o assunto por encerrado, levantou-se e voltou para o corredor.
        Aria continuou perto das mquinas de venda automtica, os olhos fixos no assoalho de linleo verde. Ela se sentia sufocada e desorientada, como se tivesse 
passado tempo demais numa sauna. Talvez devesse sentir vergonha de si mesma, colocando a culpa em uma velha amiga. E os furos que Wilden tinha visto em sua teoria 
faziam muito sentido. Talvez ela tivesse sido tola em acreditar nas pistas de A.
        Um arrepio percorreu sua espinha. Talvez A tivesse mandado aquelas pistas deliberadamente, para que ela tirasse concluses erradas e desviasse sua ateno 
do verdadeiro assassino. E talvez, s talvez... o verdadeiro assassino fosse A.
        Aria estava perdida em pensamentos quando de repente sentiu uma mo em seu ombro. Ela se assustou e se virou, o corao acelerado. De p atrs dela, vestindo 
um moletom velho da faculdade Hollis e calas jeans com um buraco no bolso esquerdo da frente, estava seu pai, Byron. Ela cruzou os braos sobre o peito, sentindo-se 
estranha. Ela no falava direito com o pai havia vrias semanas.
        - Jesus, Aria. Voc est bem? - perguntou Byron. - Eu vi voc no noticirio.
        - Eu estou bem - respondeu ela secamente. - Foi a Hanna quem se machucou, no eu.
        Quando seu pai a puxou contra si para abra-la, Aria no sabia se o apertava com fora ou se relaxava os braos. Ela vinha sentindo saudades dele, desde 
que ele sara de casa havia um ms. Mas Aria tambm estava furiosa porque tinha sido preciso um acidente grave e uma apario na TV para fazer Byron sair de perto 
de Meredith e procurar sua nica filha.
        - Eu telefonei para a sua me de manh, para perguntar como voc estava, mas ela disse que voc no estava mais morando com ela - a voz de Byron tremia com 
a preocupao. Ele passou a mo pela cabea, arrepiando o cabelo ainda mais. - Onde voc est morando?
        Aria lanou um olhar vazio para o pster demonstrando uma manobra Heimlich, atrs da mquina de Coca-cola. Algum tinha desenhado um par de seios no peito 
da vtima sufocada, e parecia que a pessoa que a estava socorrendo estava se aproveitando dela. Aria estivera morando na casa do namorado, Sean Ackard, mas Sean 
tinha deixado claro que ela no era mais bem-vinda quando levara os policiais at o apartamento de Ezra e atirara as coisas de Aria no corredor dele. Quem havia 
contado para Sean sobre o caso de Aria com Ezra?
        Ding ding ding! A.
        Ela no tinha pensado muito sobre a questo da nova moradia.
        - Na hospedaria Antiga Hollis? - sugeriu ela.
        - A hospedaria Antiga Hollis tem ratos. Por que voc no vem morar comigo?
        Aria sacudiu a cabea vigorosamente. 
        -Voc est morando com...
        -  Meredith - disse Byron firmemente. - Eu quero que voc a conhea melhor.
        - Mas... - Aria comeou a protestar. Seu pai, entretanto, estava olhando para ela com sua clssica expresso de monge budista. Aria conhecia bem aquele olhar: 
ela j o tinha visto quando ele se recusou a deix-la ir para um acampamento de vero em Berkshires, em vez do acampamento de frias Hollis Feliz, para o qual ela 
j tinha ido quatro anos seguidos. Isso significava dez longas semanas fazendo fantoches com sacos de papel e competindo em corridas do ovo-na-colher. Byron tambm 
havia usado essa expresso quando Aria lhe perguntara se podia terminar a escola na Academia Americana em Reykjavk, em vez de voltar para Rosewood com o restante 
da famlia. Aquele olhar era frequentemente seguido de um ditado que Byron havia aprendido com um monge que conhecera durante seu mestrado no Japo. O obstculo 
 o caminho. O que significava que o que no matasse Aria apenas a tornaria mais forte.
        Mas quando ela se imaginou morando com Meredith, um ditado mais apropriado lhe ocorreu: Alguns remdios so piores que a doena.
2
ABRACADABRA, E AGORA NS
NOS AMAMOS DE NOVO
Ali ps a mo na cintura e olhou feio para Spencer Hastings, que estava em p na frente dela na trilha que levava do celeiro dos Hastings at a floresta.
        -Voc est sempre tentando roubar tudo de mim - sibilou ela. - Mas voc no pode ter isso.
        Spencer tremia no ar frio da noite.
        - No posso ter o qu?
        -  Voc sabe - disse Ali. -Voc leu no meu dirio - ela jogou o cabelo louro escuro para trs dos ombros. -Voc se acha to especial, mas voc est sendo 
ridcula, agindo como se no soubesse que o Ian est ficando comigo. Claro que voc sabia, Spence. Foi por isso que voc ficou a fim dele, em primeiro lugar, no 
foi? Porque eu estou com ele? Porque a sua irm est com ele?
        Os olhos de Spencer se arregalaram. O ar da noite ficou spero de repente, com um cheiro quase acre. Ali fez beicinho.
        - Oh, Spence.Voc realmente acreditou que ele gostava de voc?
        Subitamente, Spencer sentiu um rompante de raiva, e seus braos se esticaram  frente, empurrando Ali pelo peito. Ali escorregou para trs, tropeando nas 
pedras muito lisas. S que no era mais Ali - era Hanna Marin. O corpo de Hanna voou pelo ar e atingiu o solo com um rudo seco. Em vez de a maquiagem e o BlackBerry 
carem de sua bolsa como de uma pifiata arrebentada, os rgos internos de Hanna se esvaam de seu corpo, caindo no concreto como granizo.
        Spencer se levantou assustada, seu cabelo louro molhado de suor. Era domingo de manh, e ela estava deitada em sua cama, ainda usando o vestido preto de 
cetim e a tanguinha desconfortvel que planejara vestir para a festa de aniversrio de Mona Vanderwaal, na noite anterior. Uma suave luz dourada iluminava sua escrivaninha, 
e passarinhos cantavam inocentemente no enorme carvalho ao lado de sua janela. Ela tinha ficado acordada quase a noite inteira, esperando que o telefone tocasse 
com notcias de Hanna. Mas ningum havia telefonado. Spencer no tinha como saber se aquele silncio era uma coisa boa... ou terrvel.
        Hanna.
        Ela havia telefonado para Spencer na noite anterior, pouco depois de Spencer reviver a lembrana, reprimida por tanto tempo, de ter empurrado Ali na floresta 
na noite em que ela desapareceu. Hanna havia dito a Spencer que tinha descoberto algo importante, e que elas precisavam se encontrar nos balanos de Rosewood Day. 
Spencer havia chegado ao estacionamento no exato instante em que o corpo de Hanna foi atirado para o alto. Ela havia manobrado o carro para o acostamento e corrido 
a p at as rvores, chocada com o que vira.
        - Chame uma ambulncia! - Aria estava gritando. Emily estava soluando de medo. Hanna permanecia imvel. Spencer nunca tinha testemunhado algo to aterrador 
em toda a sua vida.
        Segundos depois, o Sidekick de Spencer tocou, havia uma nova mensagem de texto de A. Ainda escondida entre as rvores, Spencer vira Emily e Aria pegarem 
seus telefones tambm, e seu estmago se revirou quando ela percebeu que todas elas provavelmente haviam recebido a mesma mensagem assustadora:
        Ela sabia demais.
        Ser que A percebera o que quer que Hanna tinha descoberto - algo que A devia estar tentando esconder - e atropelara Hanna para silenci-la? Era a nica 
explicao, mas era difcil para Spencer acreditar que realmente tinha acontecido. Era simplesmente diablico demais.
        Mas talvez Spencer fosse ainda mais diablica. Poucas horas antes do acidente de Hanna, ela havia empurrado sua irm, Melissa, escada abaixo. E ela havia 
finalmente se lembrado do que tinha acontecido na noite em que Ali desapareceu; havia recuperado aqueles dez minutos perdidos, que reprimira por tanto tempo. Ela 
havia empurrado Ali no cho - talvez com fora suficiente para mat-la. Spencer no sabia o que tinha acontecido depois, mas parecia que A sabia. A enviara para 
Spencer uma mensagem de texto havia apenas poucos dias, dando a entender que o assassino de Ali estava bem na frente dela. Spencer recebera a mensagem quando estava 
olhando no espelho... para si mesma.
        Spencer no havia corrido para o estacionamento para se juntar s amigas. Em vez disso, correra para casa, precisando desesperadamente colocar os pensamentos 
em ordem. Poderia ter sido ela quem matara Ali? Ela era capaz disso? Mas depois de uma noite inteira sem dormir, ela simplesmente no podia comparar o que havia 
feito com Melissa e Ali com aquilo que A havia feito a Hanna. Sim, Spencer perdera a cabea. Sim, ela podia ser levada ao limite, mas bem no fundo, ela simplesmente 
no acreditava que fosse capaz de matar.
        Por que, ento, A estava to convencido de que Spencer era a culpada? Seria possvel que A estivesse errado... ou mentindo? Mas A sabia sobre o beijo que 
Spencer havia dado em Ian Thomas no stimo ano, e do seu caso ilcito com Wren, o namorado que Melissa arrumara durante a faculdade, e que as cinco meninas haviam 
deixado Jenna Cavanaugh cega - todas aquelas coisas eram verdade. A tinha tanta munio contra elas que era desnecessrio comear a inventar coisas.
        De repente, enquanto Spencer enxugava o suor do rosto, algo lhe ocorreu, fazendo com que seu corao acelerasse. Ela podia pensar em um motivo muito bom 
para A ter mentido e sugerido que Spencer matara Ali. Talvez A tivesse seus segredos, tambm. Talvez A precisasse de um bode expiatrio.
        - Spencer? - chamou a voz de sua me do andar de baixo. -Voc pode descer?
        Spencer pulou da cama e olhou rapidamente para seu reflexo no espelho da penteadeira. Seus olhos estavam inchados e injetados de sangue; seus lbios, rachados 
e seu cabelo, cheio de folhas, que haviam se prendido nele enquanto ela se escondia entre as rvores na noite anterior. Ela no podia enfrentar uma reunio de famlia 
naquele momento.
        O primeiro andar da casa cheirava a caf nicaraguense Segovia recm-passado, rosquinhas Fresh Fields, e lrios recm-colhidos que a governanta, Candace, 
comprava todas as manhs. O pai de Spencer estava de p ao lado da mesa de granito da cozinha, vestindo suas bermudas de ciclista de spandex preto e moletom do Servio 
Postal dos Estados Unidos. Talvez aquele fosse um bom sinal - eles no podiam estar to zangados se seu pai tinha sado para sua pedalada habitual das cinco da manh.
        Na mesa da cozinha, estava uma cpia da edio de domingo do Philadelphia Sentinel. Primeiro, Spencer pensou que o jornal estava ali apenas porque tinha 
notcias sobre o acidente de Hanna. Mas depois ela viu seu prprio rosto encarando-a da primeira pgina do jornal. Ela vestia um terno preto chique e olhava para 
a cmera de forma confiante.
        "Abram caminho!", dizia a manchete. "A indicada para o concurso de redao Orqudea Dourada, Spencer Hastings, vai passar!"
        O estmago de Spencer se revirou. Ela tinha esquecido. O jornal devia estar na porta de todas as casas naquele momento.
        Uma figura emergiu da despensa. Spencer recuou, com medo. L estava Melissa, olhando feio para ela, apertando nas mos uma caixa de cereal Raisin Bran com 
tanta fora que Spencer pensou que iria arrebentar. Havia um pequeno arranho na face esquerda da irm e uma pulseira amarela de hospital em seu pulso direito, um 
claro souvenir da briga da noite anterior com Spencer.
        Spencer abaixou os olhos, com sentimento de culpa. Na noite anterior, A havia enviado para Melissa as primeiras frases de seu antigo artigo sobre economia, 
o mesmo que Spencer tinha copiado do computador da irm e usado como se ela mesma o tivesse escrito. A mesma redao que o professor de economia de Spencer, sr. 
McAdam, havia indicado para o prmio Orqudea Dourada, o mais importante do pas para o ensino secundrio. Melissa havia percebido o que Spencer fizera, e embora 
Spencer tivesse implorado por perdo, Melissa dissera coisas horrveis para ela - coisas muito piores do que Spencer achava que merecia ouvir. A briga terminou quando 
Spencer, irada com as palavras de Melissa, acidentalmente empurrou a irm escada abaixo.
        - Ento, meninas. - A sra. Hastings colocou a xcara de caf na mesa e fez um gesto para que Melissa se sentasse. - Seu pai e eu tomamos algumas decises 
importantes.
        Spencer se preparou para o que estava por vir. Eles iriam denunci-la por plgio. Ela jamais iria para a faculdade. Ela teria que ir para uma escola tcnica. 
Ela acabaria trabalhando como atendente de telemarketing, processando pedidos de aparelhos de ginstica e diamantes falsos, e Melissa sairia impune, como sempre 
acontecia. De algum modo, sua irm sempre descobria um jeito de sair ganhando.
        -  Em primeiro lugar, ns no queremos que vocs duas continuem se consultando com a dra. Evans. - A sra. Hastings entrelaou os dedos das mos. - Ela fez 
mais mal do que bem. Entendido?
        Melissa assentiu silenciosamente, mas Spencer torceu o nariz, confusa. A dra. Evans, psiquiatra de Melissa e Spencer, era uma das poucas pessoas que no 
puxava o saco de Melissa. Spencer comeou a protestar, mas percebeu os olhares de repreenso nos rostos dos pais.
        - Tudo bem - resmungou ela, sentindo-se meio impotente.
        -  Em segundo lugar - o sr. Hastings apontou para o Philadelphia Sentinel, apertando o polegar contra o rosto de Spencer -, plagiar o artigo da Melissa foi 
uma coisa muito errada, Spencer.
        -  Eu sei - disse Spencer rapidamente, aterrorizada com a ideia de olhar para a irm.
        - Mas depois de pensar, ns decidimos que no queremos levar isso a pblico. Esta famlia j passou por muita coisa. Ento, Spencer, voc vai continuar na 
competio pelo Orqudea Dourada. Ns no vamos contar a ningum sobre isso.
        -  O qu? - Melissa bateu a xcara de caf na mesa com fora.
        -  Foi isso que ns decidimos - disse a sra. Hastings secamente, enxugando o canto da boca com um guardanapo. - E ns tambm esperamos que Spencer vena.
        - Que eu vena? - repetiu Spencer, chocada. 
        -Vocs a esto recompensando? - gritou Melissa.
        - Agora chega - o sr. Hastings usou o tom de voz que geralmente reservava para os estagirios de seu escritrio de advocacia, quando eles ousavam telefonar 
para ele em casa.
        - Em terceiro lugar - disse a sra. Hastings -, vocs duas vo ser amigas.
        A me das meninas tirou duas fotografias do bolso do casaco. A primeira era de Spencer e Melissa com quatro e nove anos de idade, respectivamente, deitadas 
em uma rede na casa de praia da av, em Stone Harbor, Nova Jersey. A segunda foto era delas no quarto de brinquedos da mesma casa de praia, alguns anos depois. Melissa 
usava um chapu e uma capa de mgico, e Spencer vestia seu biquni estampado com listras e estrelas da Tommy Hilfiger. Nos seus ps estavam as botas pretas de motociclista 
que ela usara at ficarem to apertadas que prendiam toda a circulao de seus dedos. As duas estavam encenando um show de mgica para os pais: Melissa era o mgico 
e Spencer, a linda assistente.
        - Eu achei essas fotos hoje de manh - disse a sra. Hastings, entregando as fotos para Melissa, que olhou para elas rapidamente e as devolveu. - Lembram-se 
de como vocs duas costumavam ser grandes amigas? Vocs estavam sempre tagarelando no banco de trs do carro. Uma nunca queria ir a lugar nenhum sem a outra.
        -  Isso foi h dez anos, mame - disse Melissa, em tom cansado.
        A sra. Hastings observou a foto de Melissa e Spencer juntas na rede.
        -Vocs costumavam adorar a casa de praia da vov. Vocs costumavam ser amigas na casa de praia da vov. Ento, ns decidimos fazer uma viagem para Stone 
Harbor hoje. A vov no est l, mas ns temos as chaves. Arrumem suas coisas.
        Os pais de Spencer estavam assentindo enfaticamente com as cabeas, ambos esperanosos.
        -  Que ideia idiota - disseram Melissa e Spencer juntas. Spencer olhou para a irm, espantada porque as duas tinham pensado exatamente a mesma coisa.
        A sra. Hastings colocou a foto na bancada da cozinha e levou a xcara de caf para a pia.
        - Ns vamos viajar, e no tem discusso.
        Melissa levantou-se da mesa, segurando o pulso em um ngulo esquisito. Ela olhou para Spencer e, por um instante, sua expresso se suavizou. Spencer deu 
um sorrisinho tmido para ela. Talvez elas tivessem encontrado uma conexo naquele momento, encontrando algo em comum ao detestarem o plano ingnuo dos pais. Talvez 
Melissa pudesse perdoar Spencer por t-la empurrado escada abaixo e roubado seu artigo. Se ela a perdoasse, Spencer desculparia Melissa por dizer que seus pais no 
a amavam.
        Spencer olhou para a fotografia e pensou nos shows de mgica que ela e Melissa costumavam encenar. Depois que a amizade delas se desintegrara, Spencer havia 
imaginado que se pronunciasse algumas das velhas palavras mgicas que as duas usavam, elas seriam amigas novamente. Se fosse fcil assim...
        Quando ela olhou para Melissa novamente, a expresso da irm havia mudado. Ela estreitou os olhos e se virou.
        - Cadela - disse ela por sobre os ombros, empertigando-se pelo corredor.
        Spencer cerrou os punhos, toda a raiva anterior retornando com fora. Seria preciso muito mais do que mgica para que elas se entendessem. Seria preciso 
um milagre.
3
O GTICO AMERICANO DE EMILY
No final da tarde de domingo, Emily Fields seguiu uma velha senhora com um andador at a esteira rolante do Aeroporto Internacional de Des Moines, arrastando sua 
velha sacola de natao. A sacola continha seus bens mais preciosos - suas roupas, seus sapatos, suas duas morsas de pelcia, seu dirio, seu iPod, e vrias cartas 
de Alison DiLaurentis, cuidadosamente dobradas, das quais ela no conseguira se separar. Quando o avio estava sobrevoando Chicago, ela percebeu que tinha esquecido 
as roupas de baixo. Mas era o que merecia por ter arrumado a bagagem com tanta pressa naquela manh. Ela s conseguiu dormir durante trs horas, traumatizada depois 
de ver o corpo de Hanna ser atirado para o ar quando aquela van a atropelou. 
        Emily chegou ao terminal principal e se enfiou no primeiro banheiro que conseguiu encontrar, espremendo-se para passar por uma senhora muito gorda vestindo 
jeans muito apertados. Ela olhou fixamente para seu reflexo no espelho sobre a pia e viu as olheiras profundas em seu rosto. Seus pais tinham mesmo feito aquilo. 
Eles tinham realmente mandado Emily para Addams, Iowa, para morar com sua tia Helene e seu tio Allen. E tudo porque A havia denunciado Emily para a escola inteira, 
fazendo com que a me de Emily a flagrasse abraando Maya St. Germain, a garota por quem ela estava apaixonada, na festa de Mona Vanderwaal na noite anterior. Emily 
estava consciente do acordo - ela havia prometido participar do programa de "cura para os gays" da Tree Tops, para se livrar de seus sentimentos por Maya, ou ento 
era adeus Rosewood. Mas quando ela descobrira que at mesmo a sua conselheira na Tree Tops, Becka, era incapaz de resistir a seus impulsos, ela desistira.
        O aeroporto de Des Moines era pequeno e tinha apenas dois restaurantes, uma livraria e uma loja que vendia bolsas Vera Bradley coloridas. Quando Emily chegou 
 esteira de bagagem, ela olhou em volta, insegura. Tudo de que se lembrava a respeito de seu tio e de sua tia era a super-rigidez deles. Eles evitavam tudo o que 
pudesse estimular impulsos sexuais - at mesmo comida. Enquanto observava a multido, Emily quase esperava ver o fazendeiro de rosto srio e alongado, junto a sua 
amarga esposa, daquele quadro famoso, o American Gothic, ao lado da esteira de bagagem.
        - Emily.
        Ela se virou. Helene e Allen Weaver estavam encostados em uma mquina de alugar carrinhos, as mos nas cinturas. A camisa de golfe cor de mostarda de Allen, 
enfiada para dentro da cala, deixava sua barriga proeminente ainda mais bvia. O cabelo curto e grisalho de Helene parecia engordurado. Nenhum dos dois estava sorrindo.
        - Voc despachou alguma bagagem? - perguntou Allen, mal-humorado.
        - Uh, no - disse Emily, educadamente, perguntando-se se deveria abra-lo. Tios e tias normalmente no ficavam felizes em ver os sobrinhos? Allen e Helene 
pareciam simplesmente irritados.
        - Bem, vamos, ento - disse Helene. - So duas horas de viagem at Addams.
        O carro deles era uma perua antiga, com console de madeira. O interior cheirava a purificador de ar com aroma de pinho, um cheiro que sempre fazia Emily 
se lembrar das longas viagens de carro ao longo do pas, com os avs rabugentos. Allen dirigia a pelo menos vinte e cinco quilmetros por hora abaixo da velocidade 
mxima permitida - at mesmo uma velhinha frgil que se esforava para enxergar por sobre o volante os ultrapassara. Nem seu tio, nem sua tia disseram uma palavra 
durante a viagem inteira - nem para Emily, nem entre si. Estava tudo to quieto que Emily podia ouvir o barulho de seu corao se partindo em milhes de pedacinhos.
        - Iowa  mesmo um lugar bonito - comentou Emily em voz alta, fazendo um gesto em direo  extenso infinita de terra a seu redor. Ela jamais havia visto 
um lugar to desolado, no havia nem mesmo onde parar para descansar. Allen deu um grunhido. Helene apertou os lbios ainda mais. Se ela continuasse com isso, terminaria 
por engoli-los.
        O celular de Emily, um objeto frio no bolso de sua jaqueta, parecia ser um de seus ltimos laos com a civilizao. Ela o tirou do bolso e olhou fixamente 
para a pequena tela. Nenhuma mensagem nova, nem mesmo de Maya. Ela havia enviado uma mensagem de texto para Aria antes de embarcar, perguntando como Hanna estava, 
mas Aria no respondera. O ltimo texto na caixa de mensagens dela era o que A havia mandado na noite anterior:
        Ela sabia demais.
        Teria A realmente atropelado Hanna? E quanto s coisas que Aria havia lhe contado antes do acidente de Hanna - poderia mesmo ser Spencer a assassina de Ali? 
Lgrimas encheram os olhos de Emily. Aquele era definitivamente o momento errado para se afastar de Rosewood.
        De repente, Allen fez uma curva fechada para a direita e saiu da estrada, entrando em uma trilha de terra acidentada. O carro balanava sobre o terreno irregular, 
cruzando vrias porteiras e passando por algumas casas de aparncia frgil. Cachorros corriam para cima e para baixo durante todo o trajeto,' latindo ferozmente 
para o carro. Finalmente, eles entraram em outra trilha de terra e chegaram a um porto. Helene desceu para destranc-lo, e Allen conduziu o carro atravs dele. 
Dava para ver uma casinha branca de dois andares a distncia. Era pequena e modesta, e parecia com as casas Amish em Lancaster, na Pensilvnia, onde Emily e os pais 
costumavam parar para comprar a autntica torta holandesa.
        - Aqui estamos - anunciou Helene secamente.
        -  bonito - disse Emily, tentando parecer animada ao descer do carro.
        Como as outras casas pelas quais eles haviam passado, a casa dos Weavers era rodeada por uma cerca de arame, e havia cachorros, galinhas, patos e cabras 
por toda parte. Uma cabra mais atrevida, presa  cerca por uma corrente, trotou at onde Emily estava. Ela a empurrou com os chifres sujos, e Emily deu um grito.
        Helene olhou para ela de maneira reprovadora, enquanto a cabra se afastava.
        - No grite assim. As galinhas no gostam.
        Perfeito. As necessidades das galinhas eram mais importantes que as de Emily. Ela apontou para a cabra.
        - Por que ele est acorrentado desse jeito?
        - Ela - corrigiu Helene. - Porque ela tem sido uma garota m, por isso.
        Emily mordeu o lbio inferior, aflita, enquanto Helene a conduzia para uma pequena cozinha que parecia no ter sido reformada desde os anos 1950. Emily imediatamente 
sentiu saudades da cozinha alegre de sua me, com as galinhas de porcelana, toalhas de Natal que eram usadas o ano inteiro e ms de geladeira com o formato dos 
monumentos da Filadlfia. A geladeira de Helene era branca, no tinha ms e cheirava a verduras podres.
        Quando elas entraram em uma pequena sala de estar, Helene apontou para uma garota da idade de Emily, sentada em uma cadeira cor de vmito, que lia Jane Eyre.
        -Voc se lembra da Abby?
        A prima de Emily, Abby, usava um suter cqui plido, que lhe chegava aos joelhos, e por baixo uma recatada blusa de ilhs. Ela havia prendido o cabelo atrs 
do pescoo e no usava maquiagem. Com sua camiseta justa com a frase AME UM ANIMAL, ABRACE UM NADADOR, jeans rasgados da Abercrombie, hidratante com textura e brilho 
labial de cereja, Emily se sentiu uma vadia.
        - Oi, Emily - disse Abby, delicadamente.
        - A Abby fez a gentileza de se oferecer para dividir o quarto com voc - disse Helene. - Fica no andar de cima. Vamos mostrar a voc.
        Havia quatro quartos no andar de cima. O primeiro era de Helene e Allen e o segundo era de John e Matt, os gmeos de 17 anos.
        - E aquele  o de Sarah, Elizabeth, e a beb, Karen - disse Helene, apontando para um quarto que Emily havia confundido com o armrio de vassouras.
        O queixo de Emily caiu. Ela no tinha ouvido falar em nenhuma daquelas primas.
        - Quantos anos elas tm?
        - Bem, Karen tem seis meses, Sarah tem dois anos, e Elizabeth tem quatro. Elas esto na casa da av agora.
        Emily tentou esconder um sorriso. Para quem evitava sexo, eles certamente tinham um bocado de filhos.
        Helene levou Emily para um quarto quase vazio e apontou para uma pequena cama no canto. Abby se sentou em sua I prpria cama, as mos dobradas sobre o colo. 
Emily no podia acreditar que o quarto fosse habitado - os nicos mveis eram as duas camas, uma penteadeira simples, um pequeno tapete redondo e uma estante quase 
sem livros. Em casa, as paredes do quarto de Emily estavam cobertas de psteres e fotos; sua escrivaninha era cheia de vidros de perfume, recortes de revistas, livros 
e CDs. Mas pensando bem, da ltima vez que Emily estivera ali, Abby tinha lhe contado que planejava se tornar freira, ento talvez a vida simples fosse um treinamento 
para o convento. Emily olhou pela janela na extremidade do quarto e viu o enorme campo dos Weaver, que tinha um grande estbulo e um silo. Os dois primos mais velhos, 
John e Matt, estavam levando feixes de feno do estbulo para uma picape. No havia nada no horizonte. Absolutamente nada.
        - Ento, a sua escola fica muito longe? - perguntou Emily a Abby.
        O rosto de Abby se iluminou.
        - Minha me no contou? Somos educados em casa.
        - Oooooh... - o desejo de viver de Emily se esvaiu lentamente pelas glndulas sudorparas em seus ps.
        -Vou lhe entregar o horrio das aulas amanh - disse Helene, colocando algumas toalhas encardidas na cama de Emily. - Voc vai ter que fazer alguns testes, 
para que eu possa ver onde vou coloc-la.
        - Estou no primeiro ano do ensino mdio - sugeriu Emily. - E estou frequentando algumas aulas avanadas.
        -Vamos ver onde voc vai ficar - disse Helene, olhando feio para ela.
        Abby levantou-se da cama e desapareceu no corredor. Emily olhou pela janela, em desespero. Se um passarinho passar voando nos prximos cinco segundos, estarei 
de volta a Rosewood na semana que vem. Enquanto um pardal delicado passava voando, Emily se lembrou de que no fazia mais seus joguinhos supersticiosos. Os acontecimentos 
dos ltimos meses - os trabalhadores encontrando o corpo de Ali no buraco do gazebo, o suicdio de Toby, A... tudo, afinal - tinham feito com que ela perdesse toda 
a f em que as coisas aconteciam por um motivo.
        O celular dela tocou. Emily tirou-o do bolso e viu que Maya lhe enviara uma mensagem.
        Vc est mesmo em Iowa? Por favor, me ligue qd der. 
        Preciso de ajuda.
        Emily comeou a digitar "Socorro!", quando Helene arrancou o celular de suas mos.
        - Ns no permitimos celulares nesta casa. - Helene desligou o telefone.
        - Mas... - protestou Emily -, e se eu quiser telefonar para os meus pais?
        - Eu posso fazer isso para voc - cantarolou Helene. Ela se aproximou do rosto de Emily. - Sua me me contou algumas coisas sobre voc. No sei como  em 
Rosewood, mas aqui ns vivemos de acordo com as minhas regras. Est claro?
        Emily hesitou. Helene cuspia enquanto falava, e ela podia sentir a umidade no rosto.
        - Est claro - respondeu ela, numa voz trmula.
        - Bom. - Helene foi at o corredor e colocou o celular em um grande pote vazio em uma mesa de canto de madeira. -Vamos guardar isto aqui. - Algum tinha 
escrito as palavras POTE DOS PALAVRES na tampa, mas o pote estava completamente vazio, exceto pelo celular de Emily.
        O celular de Emily parecia solitrio dentro do Pote dos Palavres, mas ela no se atreveu a abrir a tampa - Helene provavelmente tinha colocado algum tipo 
de alarme nela. Ela voltou para o quarto vazio e se atirou na cama. Havia um estrado duro de madeira debaixo do colcho, e o travesseiro parecia feito de cimento. 
Enquanto o cu de Iowa mudava de cor-de-rosa para prpura, azul-escuro e enfim preto, Emily sentia lgrimas quentes escorrendo-lhe pelo rosto. Se aquele era o primeiro 
dia do resto de sua vida, ela preferia estar morta.
        A porta se abriu algumas horas depois com um creeeeeec lento. Uma sombra se espalhou pelo quarto. Emily sentou-se na cama, o corao martelando. Ela pensou 
na mensagem de A. Ela sabia demais. E no corpo de Hanna batendo com fora na calada.
        Mas era apenas Abby. Ela acendeu um pequeno abajur na mesa de cabeceira e deitou-se de barriga para baixo ao lado da cama. Emily mordeu a parte interna da 
boca, fingindo no perceber. Seria aquilo alguma forma esquisita de rezar de Iowa?
        Abby levantou-se novamente, com uma pilha de roupas nas mos. Ela arrancou o suter cqui pela cabea, desabotoou o suti bege, vestiu uma minissaia jeans, 
e se espremeu para dentro de um top vermelho apertado. Ento, ela procurou por algo debaixo da cama novamente, achou uma bolsinha de maquiagem cor-de-rosa e branca, 
e passou rmel nos clios e gloss vermelho nos lbios. Finalmente, ela desmanchou o rabo de cavalo, abaixou a cabea, e passou as mos pelo couro cabeludo. Quando 
ela se endireitou novamente, seu cabelo grosso emoldurava seu rosto de forma agressiva.
        Abby olhou nos olhos de Emily. Ela deu um sorriso largo, como se quisesse dizer Feche a boca seno entra mosca.
        -Voc vem com a gente, no vem?
        - P-para o-onde? - gaguejou Emily, quando recuperou a voz.
        - Voc vai ver. - Abby se aproximou de Emily e segurou sua mo. - Emily Fields, sua primeira noite em Iowa est apenas comeando.
4
SE VOC ACREDITA NISSO,
ENTO  VERDADE
Quando Hanna Marin abriu seus olhos, ela estava sozinha num tnel comprido e iluminado. Atrs dela, havia apenas escurido e,  sua frente, apenas luz. Fisicamente, 
ela se sentia fantstica - no se sentia inchada por ter comido muito salgadinho sabor cheddar, no sentia sua pele seca ou seu cabelo armado, nem estava grogue 
pela falta de sono ou estressada pela vida social. De fato, ela no tinha certeza de quando havia sido a ltima vez em que se sentira to... perfeita.
        Esse no parecia ser um sonho normal, e sim algo bem mais importante. De repente, uma luzinha brilhou bem diante de seus olhos. E depois outra, e outra. 
O mundo em torno dela se transformou em uma viso clara, como uma foto sendo baixada de uma pgina da internet.
        Ela viu que estava sentada ao lado de suas trs melhores amigas, na varanda dos fundos da casa de Alison DiLaurentis. O cabelo loiro escuro de Spencer estava 
preso num rabo de cavalo alto, e Aria tinha feito tranas em seu cabelo negro ondulado. Emily vestia uma camiseta azul-piscina e cuecas com EQUIPE DE NATAO DO 
ROSEWOOD escrito no traseiro. Hanna foi tomada por uma sensao de medo, e quando olhou para seu reflexo na janela, seu "eu" do stimo ano a encarou de volta. Os 
elsticos de seu aparelho ortodntico eram de tons verde e rosa. Seu cabelo castanho cor de lama estava torcido e preso num coque, seus braos pareciam presuntos 
e suas pernas branquelas pareciam duas baguetes balofas. No era bem o caso de ela se sentir to maravilhosa.
        - Ah... ei, garotas?
        Hanna se virou. Ali estava l. Bem na frente dela, encarando as amigas como se elas tivessem brotado do cho. Conforme Ali se aproximava, Hanna podia sentir 
o cheiro de seu chiclete de menta e do seu perfume, Ralph Lauren Blue. L estavam as rasteirinhas roxas da Puma de Ali, de que Hanna havia se esquecido. E ali tambm 
estavam os ps de Ali - ela conseguia cruzar o segundo dedo do p por cima do dedo e dizia que isso dava sorte. Hanna desejava que Ali pudesse cruzar seus dedos 
agora e fazer todas aquelas outras coisas que eram to sua cara e de que ela tentava desesperadamente se lembrar.
        Spencer ficou em p.
        - Por que foi que ela brigou com voc?
        -Voc estava arranjando encrenca sem a gente? - gritou Aria. - E por que voc trocou de roupa? Aquele top que voc estava usando era to bonito.
        -Voc quer que a gente... v embora? - perguntou Emily, temerosa.
        Hanna se lembrava muito bem desse dia. Ela ainda tinha algumas das anotaes da sua prova final de histria do stimo ano, rascunhos de ltima hora, na palma 
da mo. Ela pegou sua bolsa a tiracolo, sentindo a ponta de seu chapu de formatura de Rosewood Day que se projetava para fora e saa pelo canto da bolsa. Ela fora 
apanh-lo no ginsio durante a hora do almoo, para us-lo no dia seguinte, na cerimnia de formatura.
        A formatura no era a nica coisa que iria acontecer no dia seguinte.
        - Ali - disse Hanna, e ficou em p de forma to abrupta que quase derrubou uma das velas de citronela que ficavam sobre a mesa do ptio. - Preciso falar 
com voc.
        Mas Ali a ignorou, agindo quase como se Hanna no tivesse dito nada.
        - Lavei minhas roupas de hquei junto com a lingerie da minha me de novo - disse ela para as outras.
        -  Ela ficou zangada com voc por causa disso!? - Emily parecia no acreditar.
        - Ali - Hanna sacudia as mos na frente do rosto de Ali. -Voc precisa me ouvir. Algo horrvel vai acontecer com voc. E ns temos que impedir isso!
        Os olhos de Ali pareceram piscar para Hanna. Ela deu de ombros e tirou a faixa de tecido estampado com bolinhas dos cabelos, olhando para Emily de novo.
        -Voc conhece a minha me, Em. Ela  mais fresca que a Spencer.
        - Quem  que liga para a sua me? - guinchou Hanna, indignada. Sua pele estava quente e ela sentia como se um zilho de abelhas a ferroassem.
        - Adivinhe onde ns vamos fazer nossa festa do pijama, nossa comemorao-final-do-stimo-ano? - disse Spencer.
        -  Onde? - Ali se inclinou para a frente, apoiada em seus cotovelos.
        - No celeiro da Melissa! - gritou Spencer.
        - Beleza! - Ali festejou.
        - No! - gritou Hanna. Ela subiu em cima da mesa, para fazer com que a vissem. Como elas podiam no v-la? Ela estava gorda como uma foca.
        - Meninas, ns no podemos fazer isso! Temos que passar a noite em outro lugar. Um lugar onde haja outras pessoas. Um lugar seguro.
        Sua cabea comeou a girar. Talvez o universo tivesse feito uma curva, e ela estivesse realmente de volta ao stimo ano, logo antes da morte de Ali, sabendo 
o que ia acontecer no futuro. Ela tinha a chance de mudar as coisas. Ela poderia ligar para a polcia de Rosewood e contar que tinha a sensao de que uma coisa 
horrvel iria acontecer com a antiga dela amanh. Ela poderia construir uma cerca de arame farpado em torno de todo o quintal da famlia DiLaurentis.
        - Talvez ns no devssemos dormir fora de jeito nenhum! - disse Hanna, fora de si. - Talvez ns devssemos fazer essa comemorao em outra noite!
        Finalmente, Ali agarrou Hanna pelos pulsos e a arrastou para fora da mesa.
        - Para com isso - sussurrou ela. -Voc est fazendo a maior confuso por coisa nenhuma.
        - Uma confuso por coisa nenhuma!? - protestou Hanna. - Ali, voc vai morrer amanh! Voc vai sair correndo do celeiro durante a noite que vamos passar l 
e vai... desaparecer.
        - No, Hanna, escuta. Eu no vou.
        Um sensao fria percorreu Hanna. Ali a estava olhando bem nos olhos.
        -Voc... no vai? - balbuciou ela.
        Ali acariciou a mo de Hanna. Era um gesto reconfortante, o tipo de coisa que o pai de Hanna costumava fazer quando ela ficava doente.
        - No se preocupe - sussurrou Ali com doura no ouvido de Hanna. - Eu estou bem.
        Sua voz parecia to prxima. To real. Hanna piscou e abriu os olhos, mas no estava mais no quintal de Ali. Ela estava numa sala branca, deitada de costas. 
Fortes luzes fluorescentes caam sobre ela. Ela ouviu um bip em algum lugar  sua esquerda e o zumbido constante de alguma mquina, indo e vindo, indo e vindo.
        Uma imagem borrada pairava sobre ela. A garota tinha o rosto em formato de corao, olhos azuis brilhantes e dentes muito brancos. Ela acariciou a mo de 
Hanna lentamente. Hanna tentou focar a viso. Ela se parecia com...
        - Eu estou bem - disse a voz de Ali outra vez, sua respirao morna contra o rosto de Hanna. Hanna engasgou. Seus punhos se abriam e se fechavam. Ela lutou 
para se agarrar a este momento, a esta revelao, mas ento tudo comeou a se desvanecer: todos os sons, todos os cheiros, a sensao do toque da mo de Ali em suas 
mos. E ento, houve apenas escurido.
5
A GUERRA FOI DECLARADA
No final da tarde de domingo, depois de Aria deixar o hospital - o estado de Hanna no havia se alterado -, ela subiu os degraus desiguais da varanda da casa do 
bairro Old Hollis, onde Ezra morava. O apartamento dele no poro ficava a apenas duas quadras de distncia da casa que Byron agora dividia com Meredith, mas Aria 
ainda no estava pronta para ir at l. Ela no esperava que Ezra estivesse em casa, mas tinha escrito uma carta para ele, dizendo-lhe onde iria morar e que esperava 
que eles pudessem conversar. Enquanto lutava para enfiar o bilhete pelo buraco da caixa de correio de Ezra, ouviu um rangido atrs dela.
        - Aria - Ezra emergiu no saguo, vestindo um jeans desbotado e uma camiseta Gap cor de tomate -, o que est fazendo?
        - Eu estava... - a voz de Aria estava tensa de emoo. Ela segurou o bilhete, que havia amassado um pouco durante a tentativa de empurr-lo para dentro da 
caixa de correio. - Eu estava deixando isto para voc. Diz apenas para me ligar.
        Ela fez a tentativa de dar um passo em direo a Ezra, com medo de toc-lo. Ele cheirava exatamente como na noite passada, quando Aria havia estado l pela 
ltima vez: um pouco a usque, um pouco a hidratante.
        -  No pensei que voc estaria aqui - balbuciou Aria. - Voc est bem?
        -  Bem, no precisei passar a noite na cadeia, o que foi bom. - Ezra riu, e ento franziu a testa. - Mas... fui despedido. Seu namorado contou tudo  direo 
da escola: e ele tinha fotos nossas para provar. Eles preferiram deixar por isso mesmo, ento a menos que voc d queixa, isso no vai constar na minha ficha. - 
Ele enganchou seu polegar em torne do passador de cinto: - Preciso ir at l amanh e recolher as minhas coisas. Acho que vocs tero um novo professor para o resto 
do ano.
        Aria apertou as mos contra o rosto:
        - Sinto muito, muito mesmo.
        Ela agarrou a mo de Ezra. A princpio, ele resistiu ao toque, mas suspirou lentamente e se entregou. Ele a puxou para perto de si e a beijou com fora, 
e Aria o beijou de volta como se nunca tivesse beijado antes. Ezra deslizou os braos sob o fecho do suti dela. Aria agarrou a camiseta dele, arrancando-a. Eles 
no se importaram por estar na calada, nem com o grupo de universitrios maconheiros encarando-os da varanda da casa vizinha. Aria beijou o pescoo nu de Ezra e 
ele envolveu sua cintura.
        Mas quando ouviram o berro da sirene do carro de polcia, eles se desgrudaram, assustados.
        Aria abaixou-se atrs da parede tranada da varanda. Ezra agachou ao lado dela, com o rosto afogueado. Lentamente, a viatura passou em frente  casa de Ezra. 
O policial falava ao celular sem prestar ateno alguma a eles.
        Quando Aria voltou-se para Ezra, o clima sensual havia acabado.
        - Entre - disse ele, colocando a camiseta de volta e indo em direo ao seu apartamento. Aria o seguiu, contornando a porta da frente, que ainda pendia para 
fora das dobradias desde que os policiais a haviam derrubado no dia anterior. O apartamento cheirava como de costume: a poeira e macarro instantneo.
        - Eu poderia tentar arrumar outro emprego para voc - sugeriu Aria. - Talvez meu pai precise de um assistente. Ou ele poderia mexer os pauzinhos em Hollis.
        - Aria... - havia um ar de resignao no rosto de Ezra. E ento, Aria reparou nas caixas de mudana atrs dele. A banheira que ficava no meio da sala de 
estar tinha sido esvaziada de todos os livros. As velas azuis derretidas sobre a lareira haviam sumido. E Bertha, a boneca inflvel modelo criada francesa que alguns 
amigos tinham comprado para sacanear Ezra na poca da faculdade, no estava mais pendurada numa das cadeiras da cozinha. De fato, a maioria dos objetos pessoais 
de Ezra havia desaparecido. Restavam apenas alguns poucos e solitrios mveis velhos.
        Um sentimento frio e viscoso se abateu sobre ela. 
        -Voc est indo embora.
        - Tenho um primo que mora em Providence - murmurou Ezra. -Vou ficar l por um tempo. Esvaziar minha mente. Fazer umas aulas de cermica na Escola de Design 
de Rhode Island. Sei l.
        -  Leve-me com voc - exclamou Aria, indo at Ezra e puxando a bainha de sua camiseta. - Eu sempre quis estudar nessa Escola.  a minha primeira escolha. 
Talvez eu possa me matricular mais cedo. - Ela olhou para ele novamente. - Estou de mudana para a casa do meu pai e de Meredith, o que  um destino pior que a morte. 
E... nunca, com ningum, senti o mesmo que quando estou com voc. E no sei ao certo se me sentirei assim de novo algum dia.
        Ezra apertou os olhos, balanando as mos de Aria para a frente e para trs.
        - Acho que voc deveria me procurar daqui alguns anos. Porque, quer dizer, me sinto assim com voc tambm, mas preciso sair daqui. Voc sabe disso e eu tambm.
        Aria largou as mos dele. Sentia como se algum tivesse aberto seu peito e arrancado seu corao. Bem na noite passada, por algumas horas, tudo tinha sido 
perfeito. E ento Sean - e A - tinha despedaado tudo novamente.
        - Ei? - disse Ezra, reparando nas lgrimas que desciam pela face de Aria. Puxou-a para si e a envolveu num apertado. - Est tudo bem.
        Ele procurou numa de suas caixas e ento entregou a ela o seu boneco de William Shakespeare de cabea balanante.
        - Quero que fique com isso.
        Aria lhe deu um minsculo sorriso.
        - Est falando srio?
        A primeira vez que tinha estado ali, depois da festa de Noel Kahn, no comeo de setembro passado, Ezra havia dito a ela que o cabea balanante era um de 
seus pertences favoritos.
        Ezra traou a linha do maxilar de Aria com a ponta do dedo indicador, comeando no seu queixo e terminando no lbulo. Arrepios percorreram a espinha dela.
        - Srio - sussurrou ele.
        Ela podia sentir os olhos dele nela enquanto passava pela porta.
        - Aria - ele chamou, justamente quando ela estava pisando sobre uma pilha de listas telefnicas velhas para chegar ao saguo. Ela parou, seu corao estava 
acelerado. Havia um olhar calmo e sbio no rosto de Ezra. -Voc  a garota mais forte que eu j conheci - disse -, ento... eles que se danem, sabe? Voc ficar 
bem.
        Ezra inclinou-se, fechando as caixas com fita adesiva transparente. Aria se afastou do apartamento atordoada, imaginando por que de repente ele tinha se 
tornado um conselheiro sentimental para ela. Era como se ele estivesse dizendo que era o adulto, com responsabilidades e consequncias, e ela era s uma criana, 
com a vida inteira pela frente.
        E isso era exatamente o que ela no queria ouvir nesse momento.
- Aria! Seja bem-vinda! - gritou Meredith.
        Ela parou na entrada da cozinha, vestindo um avental listrado de preto e branco - que para Aria mais parecia um uniforme de priso - e uma luva de cozinha 
de vaquinha cobrindo sua mo direita. Sorria como um tubaro prestes a engolir um peixinho.
        Aria arrastou a ltima das malas que Sean havia jogado a seus ps na noite anterior e olhou ao redor. Ela sabia que Meredith tinha um gosto peculiar - ela 
era artista e dava aulas na Faculdade de Hollis, o mesmo lugar em que Byron trabalhava - mas a sala de estar parecia ter sido decorada por um psicopata. Havia uma 
cadeira de dentista num canto, completa, incluindo uma bandeja para todos os instrumentos de tortura. Meredith havia preenchido toda uma parede com fotos de globos 
oculares. Ela gravava mensagens na madeira como forma de expresso artstica, e ali estava um pedao enorme de madeira sobre a lareira que dizia: BELEZA  UMA COISA 
SUPERFICIAL, MAS A FEIURA VAI AT O OSSO. Havia um enorme recorte da Bruxa Malvada do Oeste colado sobre a mesa da cozinha. Aria ficou meio tentada a apontar para 
ele e dizer que no sabia que a me de Meredith era de Oz, quando viu um guaxinim num canto e gritou.
        - No se preocupe, no se preocupe - falou Meredith rapidamente -  empalhado. Eu o comprei em uma loja de taxidermia na Filadlfia.
        Aria franziu o nariz. Esse lugar rivalizava com o Museu Mutter de esquisitices mdicas na Filadlfia, que o irmo de Aria amava quase tanto quanto os museus 
do sexo que ele visitou na Europa.
        - Aria! - Byron apareceu detrs de um canto, limpando as mos em seu jeans. Aria reparou que ele vestia jeans escuros com cinto e um suter cinza; talvez 
seu costumeiro uniforme de camisetas dos Sixers manchadas de suor e cuecas xadrez desgastadas no fosse bom o suficiente para Meredith.
        - Seja bem-vinda!
        Aria grunhiu, levantando sua mochila novamente. Notou que o ar cheirava a uma combinao de madeira queimada e mingau Cream of Wheat. Ela olhou para a panela 
no fogo, desconfiada. Talvez Meredith estivesse cozinhando mingau, como uma diretora malvada num romance de Dickens.
        -Vamos ver o seu quarto. - Byron pegou Aria pela mo e a levou atravs do saguo at uma sala ampla e quadrada que continha alguns grandes pedaos de madeira, 
ferros de marcar, um enorme serrote e ferramentas de soldar. Aria presumiu que se tratava do ateli de Meredith, ou do quarto onde ela executava suas vtimas.
        - Por aqui - disse Byron.
        Ele a levou at um espao no canto do ateli, separado do restante por uma cortina floral. Quando afastou a cortina, ele cantarolou:
        -  Taa-daaa!
        Uma cama de solteiro e uma cmoda com trs gavetas faltando ocupavam um espao ligeiramente maior que um boxe de banheiro. Byron havia carregado as outras 
malas dela mais cedo, mas como no havia espao no cho, ele as empilhara sobre a cama. Havia um travesseiro achatado e amarelado apoiado contra a cabeceira e algum 
havia equilibrado uma televiso porttil minscula no parapeito da janela. Havia um adesivo no topo em que se lia em antigas e desgastadas letras dos anos 1970: 
SALVE UM CAVALO, MONTE UM SOLDADOR.
        Aria virou-se para Byron, sentindo-se nauseada.
        - Preciso dormir no ateli de Meredith?
        - Ela no trabalha  noite - disse Byron rapidamente. - E olhe! Voc tem sua prpria TV e sua prpria lareira!
        Ele apontou para uma monstruosidade gigantesca de tijolos que ocupava a maior parte da parede distante. A maioria das casas do bairro Old Hol1is tinha lareiras 
em cada quarto porque o aquecimento central no funcionava.
        -Voc pode deix-lo confortvel  noite!
        - Pai, no tenho nem ideia de como acender uma lareira. 
        Ento Aria notou uma trilha de baratas indo de um canto do teto para o outro.
        - Jesus! - ela berrou, apontando para elas e se escondendo atrs de Byron.
        - Elas no so de verdade - tranquilizou-a Byron. - Meredith as pintou. Ela realmente personalizou esse lugar com um toque artstico.
        Aria sentiu-se prestes a hiperventilar.
        - Elas parecem reais para mim! 
        Byron parecia honestamente surpreso.
        - Pensei que fosse gostar. Foi o melhor que pudemos arranjar em to pouco tempo.
        Aria fechou os olhos. Ela sentia falta do apartamentinho ensebado de Ezra, com sua banheira lotada de milhares de livros e o mapa do sistema de metr de 
Nova York como cortina de chuveiro. Alm disso, no havia baratas l - reais ou falsas.
        -  Querido? - a voz de Meredith veio da cozinha. - O jantar est pronto.
        Byron deu a Aria um sorrisinho rpido e rumou para a cozinha. Aria imaginou que deveria segui-lo. Na cozinha, Meredith estava colocando tigelas em cada um 
dos seus pratos. Por sorte o jantar no era mingau, apenas uma aparentemente inocente canja.
        - Achei que isso seria o melhor para o meu estmago - admitiu ela.
        - Meredith anda tendo alguns problemas estomacais - explicou Byron. Aria se virou para a janela e sorriu. Talvez ela estivesse com sorte e Meredith havia 
de alguma forma contrado peste bubnica.
        - Tem pouco sal - Meredith cutucou Byron no brao -, ento  bom pra voc, tambm.
        Aria olhou para seu pai com curiosidade. Byron costumava salgar cada mordida quando ainda estava no garfo.
        - Desde quando voc come coisas sem sal?
        - Tenho presso alta - disse Byron, apontando para o prprio corao.
        Aria franziu o nariz.
        - No, no tem.
        - Sim, eu tenho - Byron ajeitou o guardanapo no colarinho. - Tenho h algum tempo.
        - Mas... mas voc nunca comeu coisas sem sal antes.
        -  Sou uma carrasca - insistiu Meredith, arrastando uma cadeira e se sentando. Ela havia posicionado Aria na cabea do recorte da Bruxa Malvada. Aria deslizou 
sua tigela de forma a cobrir a viso verde-ervilha da bruxa.
        - Eu o mantenho sob dieta - continuou Meredith -, e o fao tomar vitaminas tambm.
        Aria desmoronou, o medo revirando seu estmago. Meredith j estava agindo como esposa de Byron... e ele estava vivendo com ela h apenas um ms.
        Meredith apontou para a mo de Aria:
        - O que tem a?
        Aria olhou para seu colo, percebendo que ainda estava segurando o boneco William Shakespeare de cabea balanante que Ezra havia lhe dado.
        -Ah. Isso  s... algo de um amigo.
        - Um amigo que gosta de literatura, eu suponho. - Meredith o alcanou e fez a cabea de Shakespeare balanar de um lado para o outro. Havia um pequeno brilho 
em seu olhar.
        Aria congelou. Poderia Meredith saber a respeito de Ezra? Ela olhou para Byron. Seu pai sorvia a sopa, distrado. Ele no estava lendo na mesa, algo que 
fazia constantemente em casa. Ser que ele tinha sido to infeliz l? Ser que gostava mesmo de Meredith, a pintora de insetos, amante de taxidermia, mais do que 
havia amado a doce, gentil e amorosa me de Aria, Ella? E o que fez Byron pensar que ela, Aria, aceitaria placidamente tudo isso?
        - Oh, Meredith tem uma surpresa para voc - Byron soltou - A cada semestre ela pode fazer um curso em Hollis gratuitamente. Ela disse que voc pode usar 
o crdito deste semestre para fazer um curso no lugar dela.
        - Isso mesmo. - Meredith passou o catlogo de cursos da Universidade de Hollis para Aria. - Gostaria de fazer um dos cursos que ensino?
        Aria mordeu com fora a parte de dentro da boca. Ela preferia ter cacos de vidro permanentemente alojados em sua garganta a passar um nico momento a mais 
com Meredith.
        -Vamos l, escolha um curso - instigou Byron -Voc sabe que quer.
        Ento eles a estavam obrigando a fazer isso? Aria escancarou o livro. Talvez ela escolhesse algo em Cinema Alemo, Microbiologia ou Tpicos Especiais em 
Comportamento de Crianas Negligenciadas e Famlias Desajustadas.
        Ento algo chamou sua ateno. Arte Conceitual: Crie obras exclusivas e artesanais em sintonia com as necessidades, quereres e desejos de sua alma. Atravs 
de escultura e toque, os alunos aprendem a depender menos dos seus olhos e mais de seu eu interior.
        Aria circulou com a caneta cinza o curso PEDRAS VO ROLAR! do departamento de geologia de Hollis e que ela tinha achado enfiada no catlogo. O curso definitivamente 
parecia meio estranho. Podia at mesmo acabar sendo como uma daquelas aulas de ioga islandesa onde, em vez de alongar, Aria e os outros alunos danaram de olhos 
fechados, imitando os sons de guia. Mas ela precisava de um pouco de insensatez nesse momento. Alm do mais, era um dos poucos cursos que Meredith no estava ensinando. 
O que o tornava praticamente perfeito.
        Byron pediu licena para sair da mesa e foi para o minsculo banheiro de Meredith. Depois que ele ligou o ventilador de teto do banheiro, Meredith baixou 
seu garfo e encarou Aria.
        - Sei o que est pensando - disse ela calmamente, esfregando seu polegar sobre a tatuagem de teia de aranha cor-de-rosa em seu pulso -Voc odeia o fato de 
seu pai estar comigo. Mas  melhor se acostumar com isso, Aria. Byron e eu vamos nos casar assim que o divrcio sair.
        Aria acidentalmente engoliu um pedao inteiro de macarro e tossiu cuspindo o caldo, espirrando tudo sobre a mesa. Meredith pulou para trs, arregalando 
os olhos:
        - Algo que voc comeu no caiu bem? - Ela sorriu com afetao.
        Aria desviou o olhar bruscamente, a garganta queimando. Algo no tinha cado bem, com certeza, mas no era a sopa da Bruxa M.
6
EMILY  APENAS UMA GAROTA DOCE
E INOCENTE DO MEIO-OESTE
-Vamos logo! -Abby apressava Emily, puxando-a pelo terreno da fazenda. O sol estava se pondo no horizonte plano de Iowa e todos os tipos de besouros e mosquitos 
do Meio-Oeste pareciam estar prontos para entrar em ao. Aparentemente Emily, Abby e os dois primos de Emily, Matt e John, tambm estavam prontos para entrar em 
ao.
        Os quatro pararam no acostamento. John e Matt haviam trocado suas camisetas brancas simples e suas calas de trabalho por jeans folgados e camisetas com 
slogans de cervejarias. Abby ajeitou seu tomara que caia e checou como estava seu batom em seu espelho compacto.         Emily, usando a cala jeans e a mesma camiseta 
que vestia quando chegou, se sentia sem graa e malvestida - que alis, era como ela se sentia em Rosewood tambm.
Emily deu uma olhada por cima do ombro para a casa da fazenda. Todas as luzes estavam apagadas, mas os ces ainda corriam feito uns loucos pelo terreno da propriedade, 
e a cabra desobediente ainda estava amarrada  porteira do celeiro, o sininho em volta do pescoo badalando. Era de se admirar que Helene e Allen no colocassem 
sininhos tambm no pescoo de seus filhos.
        - Ser que isso  mesmo uma boa ideia? - pensou Emily em voz alta.
        -Vai ficar tudo bem - respondeu Abby, as argolas em suas orelhas balanando. - Mame e papai vo para a cama s oito em ponto. So uns reloginhos.  isso 
que acontece quando voc acorda s quatro da manh.
        - Faz meses que fazemos isso e nunca fomos pegos - garantiu Matt.
        De repente, uma picape prateada apareceu no horizonte, levantando poeira em seu caminho. A picape se aproximou devagar dos quatro e ento, parou. Da cabine, 
vinha um hip-hop que Emily no conseguia identificar e um cheiro forte de cigarros mentolados. Um ssia de cabelos escuros de Noel Kahn acenou para seus primos e 
sorriu para Emily.
        - Ento... essa  sua prima, hein?
        - Isso mesmo - disse Abby. - Ela  da Pensilvnia. Emily, esse  Dyson.
        - Pode entrar. - Dyson deu um tapinha no banco. Abby e Emily entraram na cabine, e John e Matt foram para a carroceria. Quando a picape voltou a andar, Emily 
deu uma ltima olhada para a casa de fazenda sumindo a distncia, e foi tomada por uma sensao ruim.
        - Ento, o que a trouxe para a glamorosa Addams? - perguntou Dyson, trocando de marcha com o cmbio barulhento.
        Emily deu uma olhadinha para Abby.
        - Meus pais me mandaram para c.
        - Eles puseram voc para fora de casa?
        - Isso a - intrometeu-se Abby. - Eu ouvi dizer que voc estava dando um trabalho. - Ela ento olhou para Dyson. - Emily vive perigosamente.
        Emily deixou escapar uma risada. A nica coisa rebelde que ela j fizera na frente de Abby fora roubar um biscoito Oreo a mais para a sobremesa. Ela se perguntou 
se seus primos sabiam da verdadeira razo pela qual seus pais a haviam mandado para l. Era provvel que "lsbica" fosse uma palavra que acabasse obrigando voc 
a pagar multa e colocar umas moedinhas no Pote dos Palavres.
        Dois minutos depois, eles entraram em uma estrada irregular que levava a um silo marrom-alaranjado e estacionaram sobre a grama, ao lado de um carro com 
um adesivo em que se lia EU FREIO PARA GOSTOSAS. Dois rapazes plidos saram de uma picape vermelha e cumprimentaram dois rapazes musculosos e louros que estavam 
na carroceria de uma Dodge Ram preta. Emily sorriu. Ela sempre pensara se referir a quem vinha de Iowa como gente bonita e robusta, mas nada sofisticada era um clich, 
mas neste momento, era a nica descrio que lhe vinha  mente.
        Abby apertou o brao de Emily.
        - A proporo de rapazes para moas aqui  de quatro para cada uma - sussurrou ela -, ento voc vai se dar muito bem essa noite. Eu sempre me dou.
        Bem, isso queria dizer que Abby no sabia sobre ela.
        - Ah, que timo.
        Emily tentou sorrir. Abby piscou e saiu da picape. Emily seguiu os primos em direo ao silo. O ar cheirava a um perfume da Clinique, o Happy; e tambm a 
lpulo, cerveja com espuma e a capim seco. Quando entrou, ela esperava ver fardos de feno, alguns animais e talvez at mesmo uma escada perigosa que levasse ao quarto 
de alguma garota doida como no filme O Chamado. Em vez disso, o silo tinha sido limpo e havia luzes de Natal penduradas no teto. Sofs macios, cor de ameixa, haviam 
sido alinhados ao longo das paredes e Emily viu as picapes e o resto da parafernlia do DJ no canto, e tambm alguns barris de cerveja gigantescos nos fundos.
        Abby, que j estava com um copo de cerveja na mo, empurrou uns caras na direo de Emily. Mesmo em Rosewood eles seriam populares - tinham cabelos cuidadosamente 
desarrumados, rostos angulares e dentes brancos e brilhantes.
        - Brett, Todd, Xavi... essa  minha prima, Emily. Ela  da Pensilvnia.
        - Oi - disse Emily, apertando as mos dos rapazes.
        - Hum, Pensilvnia - os meninos concordaram com a cabea, aprovando, como se Abby tivesse acabado de dizer que Emily vinha da Terra do Sexo Pervertido e 
Obrigatrio.
        Quando Abby se afastou, acompanhada de um dos rapazes, Emily foi at os barris de cerveja. Ela ficou na fila para pegar bebida, atrs de um casal loiro que 
estava dando uns amassos. O DJ misturou a msica anterior com Timberland, um som de que, em Rosewood, todo mundo tambm gostava. A verdade era que o pessoal de Iowa 
no parecia nada diferente das pessoas de sua escola. Todas as meninas usavam saias de algodo e sandlia anabela e todos os garotos usavam moletom com capuz e jeans 
largos, e pareciam estar fazendo experimentos pouco ortodoxos com pelos faciais. Emily se perguntou se todos eles iam para a escola ou se os pais os educavam em 
casa tambm.
        -Voc  a garota nova?
        Uma menina alta e de cabelo louro bem claro, vestindo uma blusa de alcinhas e jeans escuros se colocou atrs dela na fila. Ela tinha ombros largos, o jeito 
de uma jogadora profissional de vlei, e quatro brinquinhos em sua orelha esquerda. Mas havia tambm alguma coisa doce e sincera em seu rosto, com seus olhos azuis 
brilhantes e sua boca pequena e bonita. E, diferente da maioria das outras meninas do silo, ela no tinha um garoto enroscado nela, apalpando seus peitos.
        - Ah,  sim - respondeu Emily. - Eu cheguei hoje mesmo.
        - E voc  da Pensilvnia, certo? - A menina girou os quadris para trs e avaliou Emily. - Eu estive l uma vez. Ns fomos  Harvard Square.
        -Acho que voc est falando de Boston, em Massachusetts. - Emily a corrigiu. -  l que Harvard fica. A Pensilvnia fica na Filadlfia. L ns temos as tralhas 
do Benjamin Franklin, o Sino da Liberdade e s.
        - Ah! - A menina ficou constrangida. - Ento eu nunca fui  Pensilvnia. - Ela baixou o rosto. - Bem, se voc fosse um doce, que doce voc seria?
        - O qu? - Emily piscou, pasma.
        - Ah, vamos l. - A garota a cutucou. - Eu... eu seria um M&M.
        - Por qu? - perguntou Emily.
        A garota bateu as pestanas, sedutora.
        - Porque eu derreteria em sua boca, claro. - Ela tocou em Emily de novo. - Ento. E voc?
        Emily encolheu os ombros. Essa era a cantada quero-conhecer-voc-melhor mais esquisita que algum j fizera a ela, mas ela meio que gostou.
        - Nunca pensei nisso. Hum, quem sabe uma Tootsie Roll?
        A garota sacudiu a cabea com violncia.
        -Voc jamais seria uma Tootsie Roll. Aquele treco parece com um montinho de fezes. Voc seria alguma coisa muito mais sexy que aquilo.
        Emily respirou fundo bem, bem devagar. Aquela menina estava passando uma cantada nela?
        - Hummmm... eu acho que preciso saber seu nome antes de comear a conversar com voc sobre balas sexy.
        A garota estendeu a mo.
        - Eu sou Trista.
        - Emily. - Enquanto apertavam as mos, Trista pressionou seu dedo contra a palma da mo de Emily. Ela no tirou seus olhos do rosto de Emily nem por um 
segundo.
        Talvez essa fosse apenas a forma culturalmente aceita em Iowa para dizer ol a um estranho.
        - Voc quer uma cerveja? - Emily balbuciou, virando-se para o barril.
        -  Claro que sim! - disse Trista. - Mas deixe que eu sirva voc, Pensilvnia.Voc provavelmente no sabe como manejar um barril desses. - Emily observou 
enquanto Trista bombeava a alavanca do barril algumas vezes e deixava a cerveja fluir lentamente para o copo, sem espuma nenhuma.
        - Obrigada - agradeceu Emily, dando um gole.
        Trista tambm se serviu de cerveja e tirou Emily da fila, levando-a at um dos sofs do silo.
        - Ento, como foi, sua famlia se mudou para c?
        - No, vou ficar aqui com meus primos por um tempo. - Emily apontou para Abby, que estava danando com um menino alto e loiro, e depois para John e Matt, 
que fumavam junto a uma menina ruiva mignon, usando um suter rosa justo e jeans skinny.
        - Voc est tirando uma espcie de frias? - perguntou Trista, batendo os clios.
        Emily no tinha certeza, mas parecia que Trista estava chegando cada vez mais perto dela no sof. Ela estava fazendo tudo que era humanamente possvel para 
no tocar nas longas pernas de Trista que estavam a poucos centmetros dela.
        - Bem, no exatamente - ela balbuciou. - Meus pais me colocaram para fora de casa porque eu no conseguia obedecer as regras deles.
        Trista brincou com o cadaro de suas botas marrons.
        - Minha me tambm  assim. Ela acha que eu estou assistindo a uma apresentao de coral essa noite. Se no fosse isso, ela jamais me deixaria sair de casa.
        - Eu tambm costumava ter que mentir aos meus pais sobre as festas - disse Emily, temendo que fosse comear a chorar de novo. Ela tentou imaginar o que estava 
acontecendo em sua casa naquele instante. Era bem provvel que sua famlia j tivesse acabado de jantar, e estivesse reunida em volta da televiso. Sua me, seu 
pai e Carolyn, animados, contando sobre o dia que tiveram uns para os outros, aliviados e felizes que a esquisitona da Emily tivesse ido embora. Isso a magoava tanto 
que a deixava enjoada.
        Trista olhou para Emily com simpatia, como se sentisse que algo estava errado.
        - Ento, e a? Aqui vai outra pergunta. Se voc fosse uma festa, que tipo de festa seria?
        - Uma festa surpresa! - respondeu Emily, toda desajeitada. Afinal, era nisso que sua vida tinha se transformado: uma grande surpresa depois da outra.
        - Boa escolha! - Trista sorriu. - Eu seria uma festa do cabide!
        Elas sorriram uma para a outra por um longo tempo. Havia algo no rosto largo e em formato de corao de Trista e em seus olhos azuis que fazia Emily se sentir 
muito... segura. Trista se inclinou para a frente e Emily tambm. Parecia que elas iam se beijar, mas ento Trista se abaixou devagar e amarrou seu cadaro.
        - Bem, mas ento me conte, por que eles mandaram voc para c? - perguntou Trista quando se endireitou.
        Emily deu um grande gole em sua cerveja.
        - Porque eles me pegaram beijando uma garota - ela falou bem rpido.
        Quando Trista se afastou, com os olhos arregalados, Emily teve a certeza de ter cometido um erro terrvel. Talvez Trista estivesse mesmo sendo apenas amistosa, 
como uma boa garota do Meio-Oeste, e Emily tivesse entendido mal a coisa toda. Mas ento, Trista deu um sorriso tmido. Ela aproximou a boca do ouvido de Emily.
        -Voc no seria mesmo um Tootsie Roll. Se eu pudesse escolher, voc seria uma bala de canela, em formato de corao.
        O corao de Emily deu trs cambalhotas. Trista se levantou e ofereceu a mo para Emily. Emily encaixou sua mo na dela e, sem dizer uma palavra, Trista 
a levou para a pista de dana e elas comearam a se mover de forma sensual ao som da msica. A cano acabou e uma mais agitada tomou seu lugar. Trista comeou a 
pular em volta de Emily, como se estivesse se preparando para saltar de um trampolim. Sua energia era intoxicante. Emily sentia que podia ser tola ao lado de Trista, 
que, com ela, no precisava bancar a superior e fingir que no estava nem a para nada, como ela sentia que devia agir quando estava perto de Maya.
        Maya. Emily parou de repente, inspirando profundamente o ar mido e viciado do silo. Na noite anterior, Maya e ela haviam dito que amavam uma  outra. Ser 
que elas ainda tinham um compromisso, agora que Emily estava presa ali no meio de todo aquele milho e estrume de vaca, talvez para sempre? Isso que ela estava fazendo 
se qualificava como traio? E o que significava o fato de Emily no ter pensado nela nenhuma vez a noite toda, pelo menos at agora?
        O celular de Trista apitou. Ela saiu da pista de dana e tirou o telefone do bolso.
        - A idiota da minha me est me mandando o bilionsimo torpedo de hoje - ela gritou acima da msica, balanando a cabea.
        Uma onda de choque percorreu Emily - a qualquer minuto, ela tambm receberia uma mensagem de texto. Parecia que A sempre sabia quando ela estava tendo pensamentos 
travessos. Ei, mas acontece que... seu telefone estava no Pote dos Palavres.
        Emily deixou uma risada escapar. Seu telefone estava no Pote dos Palavres. Ela estava no meio de uma festa em Iowa, a milhares de quilmetros do Rosewood. 
A no ser que A tivesse poderes sobrenaturais, no havia forma de saber o que Emily estava fazendo.
        De repente, Iowa no pareceu to ruim assim.
        No mesmo.
        De jeito nenhum.
7
BONECA BARBIE... OU BONECA VODU?
Domingo  noite, Spencer balanava gentilmente na rede da varanda na lateral da casa de veraneio de sua av. Enquanto ela olhava outro surfista musculoso e gostoso 
pegar onda na Praia da Freira, a praia de surfe que ficava pertinho, na rua que ladeava o convento, uma sombra a cobriu.
        - Seu pai e eu vamos dar um pulo no iate clube - disse sua me, enfiando as mos nos bolsos de suas calas de linho bege.
        - Oh - Spencer teve dificuldade de sair da rede sem prender o p na renda. O iate clube da Baa Stone ficava em uma antiga cabana de praia que cheirava a 
salmoura em um poro mofado. Spencer suspeitava que seus pais gostavam de ir l apenas porque era um lugar s para associados. - Posso ir?
        A me segurou seu brao.
        -Voc e Melissa vo ficar aqui.
        Uma brisa que cheirava a parafina e peixe bateu no rosto de Spencer. Ela tentou ver as coisas do ponto de vista de sua me -deve ter sido ruim ver suas duas 
filhas brigando to ferozmente. Mas Spencer gostaria que sua me entendesse a perspectiva i tambm. Melissa era uma vadia perversa, e Spencer nunca mais queria falar 
com ela.
        - Tudo bem - disse Spencer dramaticamente.
        Ela abriu a porta corredia e entrou pisando duro na grande sala de estar. Apesar do estilo rstico da casa da vov Hastings, a propriedade tinha oito quartos, 
sete banheiros, uma passagem particular para a praia, uma sala de jogos luxuosa, um home theater, uma cozinha gourmet e moblia Stickley em todos os lugares. A famlia 
de Spencer sempre chamava esse lugar carinhosamente de "cabana do taco". Talvez fosse porque na manso da vov em Longboat Key, Flrida, havia vrios afrescos nas 
paredes, piso de mrmore, trs quadras de tnis e uma adega com temperatura controlada.
        Spencer passou por Melissa de nariz empinado. Ela estava deitada em um dos sofs de couro marrom, sussurrando em seu iPhone. Provavelmente falando com Ian 
Thomas.
        -  Ficarei em meu quarto - gritou Spencer, dramtica na base da escada. - A... noite... inteira.
        Ela se jogou em sua cama de dossel, feliz de ver que seu quarto estava exatamente como o tinha deixado havia cinco anos. Alison tinha vindo com ela da ltima 
vez, e as duas passaram horas observando os surfistas com os antigos binculos de mogno do vov Hastings no deque superior. Aquilo tinha sido no comeo do outono, 
quando Ali e Spencer estavam apenas no incio do stimo ano. As coisas ainda estavam bem normais entre elas - talvez Ali ainda no tivesse comeado a sair com Ian.
        Spencer deu de ombros. Ali saiu com Ian. Ser que A tambm sabia disso? Ser que A sabia da discusso entre Spencer e Ali na noite que Ali desapareceu - 
A estava l? Spencer gostaria de poder contar  polcia sobre A, mas A parecia estar acima da lei. Ela olhou em volta meio na dvida, de repente assustada. O sol 
tinha se escondido atrs das rvores, enchendo o quarto com uma escurido tenebrosa.
        Seu telefone tocou e Spencer pulou. Ela o tirou do bolso do roupo e olhou o nmero. No o reconhecendo, colocou o telefone no ouvido e disse um al hesitante.
        - Spencer? - disse uma voz feminina macia e melodiosa. - Mona Vanderwaal.
        - Ah - Spencer sentou-se rpido e sua cabea comeou a rodar. S havia uma razo pela qual Mona ligaria para ela. -H... Hanna    est bem?
        - Bem    no. - Mona parecia surpresa. -Voc no soube? Ela est em coma. Estou no hospital.
        - Ai meu Deus - murmurou Spencer. - Ela vai ficar bem?
        - Os mdicos no sabem - a voz de Mona desafinou. - Ela pode no acordar.
        Spencer comeou a andar pelo quarto.
        - Eu estou em Nova Jersey com meus pais agora, mas volto amanh de manh, ento...
        -  Eu no liguei para fazer voc se sentir culpada - interrompeu Mona. Ela suspirou. - Desculpe. Estou estressada. Eu liguei porque me disseram que voc 
era boa planejando eventos.
        Estava frio no quarto e cheirava um pouco a areia. Spencer tocou a beirada da concha enorme que ficava em cima da cmoda.
        - Bem, sou.
        - Bom - disse Mona. - Eu quero que voc organize uma viglia com velas para Hanna. Eu acho que seria timo se todos, voc sabe, se juntassem por ela.
        - Parece timo - disse Spencer baixinho. - Meu pai me contou sobre uma festa a que ele foi umas duas semanas atrs numa tenda maravilhosa no campo de golfe, 
perto do dcimo quinto buraco. Talvez pudssemos fazer l.
        - Perfeito. Vamos fazer na sexta-feira. Isso nos d cinco dias para arrumar tudo.
        - Ento fica para sexta.
        Depois de Mona falar que iria escrever os convites se Spencer pudesse cuidar da reserva do lugar e arranjar o buf, Spencer desligou. Ela caiu de volta na 
cama, olhando para o dossel de renda. Hanna podia morrer? Spencer imaginou Hanna deitada sozinha e inconsciente em um quarto de hospital. Sua garganta ficou apertada 
e quente.
        Toc... toc... toc...
        O vento parou e at o oceano estava quieto. A audio de Spencer se aguou. Haveria algum l fora?
        Toc... toc... toc...
        Ela se sentou rapidamente.
        - Quem est a?
        A janela do quarto tinha vista para a areia. O sol tinha se posto to rpido que tudo que ela podia ver eram os salva-vidas de madeira gastos pelo tempo 
l longe. Ela foi at a sala. Vazia. Correu para um dos quartos de hspedes e olhou para a varanda da frente que ficava logo abaixo. Ningum.
        Spencer passou as mos pelo rosto. Acalme-se, disse ela para si mesma. A no est aqui. Ela cambaleou para fora do quarto e pela escada abaixo, quase tropeando 
em uma pilha de toalhas de praia. Melissa ainda estava no sof, segurando uma cpia da Architectural Digest com sua mo boa e apoiando seu punho quebrado numa almofada 
gigante de veludo.
        - Melissa - Spencer falou, meio ofegante -, acho que tem algum l fora.
        Sua irm virou, com cara de dvida.
        -Ah?
        Toc... toc... toc...
        - Escuta! - Spencer apontou para a porta. -Voc no consegue ouvir?
        Melissa levantou, franzindo o cenho.
        - Eu estou ouvindo alguma coisa. - Ela olhou para Spencer com ar preocupado. -Vamos para a sala de jogos. De l d para ter uma boa vista do em volta da 
casa.
        As irms conferiram duas vezes as fechaduras antes de subir as escadas para a sala de jogos do segundo andar. A sala cheirava a um lugar fechado por muito 
tempo, estava empoeirada e parecia que uma Melissa e uma Spencer bem mais novas tinham acabado de sair correndo para jantar e voltariam a qualquer momento para continuar 
a brincar. Havia a vila de Lego que elas levaram trs semanas para terminar. Tinha o conjunto de bijuterias do tipo faa-voc-mesma, as contas e os fechos ainda 
espalhados pela mesa. Os buracos do minigolfe ainda estavam arrumados em volta da sala e a enorme cesta de bonecas ainda estava aberta.
        Melissa chegou primeiro  janela. Ela abriu a cortina com estampa de veleiros e espiou o quintal da frente, que era decorado com pedras vtreas marinhas 
e flores tropicais. Seu gesso rosa fez um barulhinho quando encostou no batente da janela.
        - No vejo ningum.
        - Eu j olhei a frente. Talvez eles estejam na lateral.
        De repente, elas ouviram de novo. Toc... toc. Estava ficando mais alto. Spencer segurou o brao de Melissa. Elas duas olharam pela janela mais uma vez.
        Ento uma calha no fundo da casa chacoalhou um pouco e finalmente algo apareceu. Era uma gaivota. O bicho tinha de alguma forma ficado preso no cano, o som 
de batidas provavelmente tinha sido causado por suas asas e seu bico enquanto lutava para se soltar. A ave voou, balanando suas penas.
        Spencer afundou no antigo cavalo de balano da FAO Schwarz. Primeiro, Melissa parecia brava, mas ento as beiradas de sua boca tremeram. Ela fungou de tanto 
rir.
        Spencer tambm riu.
        - Pssaro idiota.
        -  . - Melissa deu um suspiro comprido. Ela olhou em volta da sala, primeiro para os Legos e depois para as cabeas enormes de Meu Pequeno Pnei que estavam 
na mesa do fundo. Ela apontou para elas.
        - Lembra que costumvamos fazer maquiagem de pnei?
        - Claro. -A sra. Hastings dava a elas todos os batons e sombras de sua coleo anterior e elas passavam horas maquiando os pneis com sombras escuras e lbios 
rechonchudos.
        -Voc costumava passar sombra nas narinas deles - provocou Melissa.
        Spencer gargalhou, acariciando a crina azul e roxa do pnei cor-de-rosa.
        - Eu queria que as narinas ficassem to lindas quanto o resto do rosto.
        - E lembra dessas? - Melissa andou at a cesta tamanho famlia e espiou dentro. - Eu no acredito que tnhamos tantas bonecas.
        No apenas havia mais de cem bonecas, entre Barbies e bonecas alems antigas, que provavelmente no foram colocadas com cuidado na cesta, mas tambm toneladas 
de roupinhas, sapatinhos, bolsas, carros, cavalos e cachorrinhos. Spencer pegou uma Barbie de aparncia sria vestida com um blazer azul e saia reta.
        -  Lembra de como fingamos que elas eram diretoras de empresas? A minha era diretora da fbrica de algodo-doce e a sua era a diretora da companhia de cosmticos.
        - Ns brincvamos que essa aqui era presidente da repblica. - Melissa pegou uma boneca cujos cabelos loiros escuros haviam sido cortados retos na altura 
do queixo, como os dela.
        - E essa aqui tinha muitos namorados. ~ Spencer segurou uma boneca bonita com cabelos longos, loiros e rosto em forma de corao.
        As irms suspiraram. Spencer sentiu um n na garganta. No passado, elas costumavam brincar durante horas. Muitas vezes nem queriam ir  praia, e quando era 
hora de dormir, Spencer sempre soluava, implorando para seus pais a deixarem dormir no quarto de Melissa.
        - Desculpe pelo lance do Orqudea Dourada - desabafou Spencer. - Eu gostaria que no tivesse acontecido.
        Melissa pegou a boneca bonitinha que Spencer estava segurando - aquela com muitos namorados.
        - Eles vo querer que voc v a Nova York, voc sabe. E que fale sobre o artigo para um jri. Voc tem que saber tudo de trs pra frente.
        Spencer apertou firme o pulso desproporcional da Barbie CEO. Mesmo que seus pais no a punissem por trapacear, o comit do Orqudea Dourada iria.
        Melissa encaminhou-se de volta para a sala.
        - Voc vai se sair bem. Provavelmente vai ganhar. E voc sabe que a mame e o papai vo te dar alguma coisa legal se voc vencer.
        Spencer piscou.
        - Eu j superei. - Ela fez uma pausa, ento estendeu a mo em direo a um armrio em que Spencer nunca havia reparado. 'Sua mo saiu segurando uma garrafa 
de vodca Grey Goose. Ela a chacoalhou, o liquido transparente balanando no vidro. - Quer um gole?
        - C-claro - gaguejou Spencer.
        Melissa foi at o armrio que ficava em cima do mini-bar da sala e pegou duas xcaras miniatura de porcelana chinesa. Usando apenas sua mo boa, Melissa
serviu a vodca de um jeito desajeitado nas duas xcaras de ch. Com um sorriso nostlgico, ela deu a Spencer sua xcara azul-clara favorita - Spencer costumava fazer 
um escndalo se tivesse que tomar em qualquer das outras. Ela ficou abismada que Melissa ainda se lembrasse.
        Spencer deu um gole, sentindo a vodca queimar garganta abaixo.
        - Como voc sabia que a garrafa estava aqui?
        - Ian e eu escondemos aqui para a Semana dos Veteranos, anos atrs - explicou Melissa. Ela sentou em uma cadeira de criana listrada de azul e rosa, seus 
joelhos encostaram no queixo. - Havia policiais em todas as estradas e ns ficamos com medo de lev-la de volta conosco, ento a escondemos aqui. Ns achvamos que 
voltaramos para buscar depois... s que no voltamos.
        Melissa tinha um olhar distante, ela e Ian haviam se separado sem explicao logo depois da Semana dos Veteranos, no mesmo vero em que Ali desapareceu. 
Melissa fora supertrabalhadora naquele vero: teve dois empregos de meio perodo e foi voluntria no Museu do Rio Brandywine. Muito embora nunca tenha admitido, 
Spencer suspeitava que ela estivesse tentando se manter ocupada porque o rompimento com Ian realmente tinha acabado com ela. Talvez fosse o olhar magoado no rosto 
de Melissa ou talvez fosse porque ela acabara de dizer a Spencer que ela provavelmente iria ganhar o Orqudea Dourada, mas de repente, Spencer queira dizer a verdade 
 irm.
        - Tem uma coisa que voc deveria saber - Spencer desabafou. - Eu beijei Ian quando estava no stimo ano, quando vocs estavam namorando. - Ela engoliu em 
seco. - Foi s um beijo e no significou nada. Eu juro. - Agora que aquilo tinha sado, Spencer no podia mais se segurar. - No foi como o lance que Ian teve com 
Ali.
        - O lance que Ian teve com Ali - repetiu Melissa, encarando a Barbie que estava segurando.
        -  Sim. - As entranhas de Spencer pareciam um vulco cheio de lava derretida, borbulhando, prestes a derramar. - Ali me contou pouco antes de desaparecer, 
mas eu devo ter bloqueado.
        Melissa comeou a pentear o conhecido cabelo loiro da Barbie, seus lbios se contraindo de leve.
        -  Eu bloqueei outras coisas tambm - continuou Spencer, tremendo, no se sentindo  vontade. - Naquela noite, Ali realmente me provocou, ela disse que eu 
gostava de Ian, que eu estava tentando roub-lo dela. Era como se ela quisesse me deixar brava. E ento eu a empurrei. Eu no queria machuc-la, mas acho que eu...
        Spencer cobriu o rosto com as mos. Repetir a histria para Melissa a fez reviver aquela noite de novo. Minhocas que saram por causa da chuva da noite anterior 
se remexiam no caminho. O suti rosa de Ali escorregou do ombro e seu anel de dedo do p brilhou ao luar. Era real, tinha acontecido.
        Melissa colocou a Barbie de volta no seu colo e tomou um gole de vodca devagar.
        -  Na verdade eu sabia que Ian tinha beijado voc. E eu sabia que Ali e Ian estavam juntos.
        Spencer parou.
        - Ian contou para voc? 
        Melissa deu de ombros.
        - Eu deduzi. Ian no era muito bom para esconder esse tipo de segredo. No de mim.
        Spencer encarou a irm, um arrepio desceu por sua espinha. A voz de Melissa era melodiosa, quase como uma risada que no saiu. Ento Melissa virou-se para 
encarar Spencer de frente. Ela deu um sorriso largo, esquisito.
        -  Quanto a se preocupar se voc matou Ali, eu no acho que voc seja o tipo que faria isso.
        -Voc... no acha?
        Melissa balanou a cabea lentamente e ento fez a boneca no seu colo balanar tambm.
        - S uma pessoa muito mpar consegue matar, e essa no  voc.
        Ela virou sua xcara de ch, tomando tudo. Depois, com sua mo boa, Melissa pegou a Barbie pelo pescoo e arrancou sua cabea plstica. Ela deu a cabea 
decepada a Spencer, que estava com os olhos esbugalhados.
        - Essa no  voc mesmo.
        A cabea da boneca se encaixou perfeitamente no buraco da mo de Spencer, a boca retorcida em um sorriso provocativo, os olhos de um azul safira. Uma onda 
de nusea tomou Spencer. Ela no tinha notado antes, mas a boneca parecia exatamente com... Ali.
8
NO  SOBRE ESSAS COISAS QUE SE
FALA EM  UM QUARTO DE HOSPITAL?
Na manh de segunda, em vez de correr para a aula de Ingls antes do sinal tocar, Aria estava correndo em direo  sada do colgio Rosewood Day. Ela havia acabado 
de receber uma mensagem de Lucas no seu Treo que dizia:
        Aria, venha ao hospital se puder. Eles finalmente esto dei-
        xando as pessoas verem Hanna.
        Ela estava to absorta e concentrada que nem viu seu irmo, Mike, at que ele passou na sua frente. Ele vestia uma camiseta com o logo da Playboy embaixo 
da sua jaqueta do Rosewood Day e uma pulseira azul do time de lacrosse do colgio. Gravado na pulseira de borracha havia o apelido do seu time, que, por qualquer 
que fosse a razo, era Bfalo. Aria no ousou perguntar por qu - provavelmente era uma piada interna sobre pnis ou coisa parecida. O time de lacrosse estava ficando 
cada dia mais parecido com uma fraternidade.
        - Ei - disse Aria, um pouco distrada -, como voc est?
        As mos de Mike pareciam ter sido soldadas aos seus quadris. Seu olhar de desdm indicava que ele no estava para muita conversa.
        - Ouvi dizer que voc est morando com papai agora.
        -  Como um ltimo recurso - falou Aria rapidamente. - Sean e eu terminamos.
        Mike estreitou seus frios olhos azuis.
        - Eu sei. Soube disso tambm.
        Aria recuou, surpresa. Mike no sabia sobre Ezra, sabia?
        - S queria lhe dizer que voc e papai se merecem. - Mike disparou, girando nos calcanhares e quase trombando  com uma garota com uniforme de torcida organizada. 
-Vejo voc depois.
        - Mike, espere! - gritou Aria. -Vou consertar isso, eu prometo!
        Mas ele continuou se afastando. Na semana anterior, Mike descobrira que Aria j sabia a respeito do caso de trs anos do seu pai. Por fora, ele reagira dura 
e friamente a respeito do fim do casamento dos pais. Jogava lacrosse no colgio, dizia obscenidades para as garotas e tentava beliscar os companheiros nos corredores. 
S que Mike era como uma msica da Bjrk: alegre, volvel e engraado por fora, mas borbulhante de agitao e dor por dentro. Ela nem podia imaginar o que Mike pensaria 
se descobrisse que Byron e Meredith planejavam se casar.
        Enquanto dava um enorme suspiro e continuava caminhando em direo  porta, ela notou uma figura de terno encarando-a do outro lado da entrada.
        - Vai a algum lugar, srta. Montgomery? - perguntou o diretor Appleton.
        Aria vacilou, seu rosto foi ficando quente. Ela no tinha visto Appleton desde que Sean tinha contado ao pessoal do Rosewood sobre Ezra. Mas ele no parecia 
exatamente irritado. Parecia mais... nervoso. Quase como se Aria fosse algum que ele tivesse que tratar com muita, muita delicadeza. Aria tentou conter o riso. 
Appleton provavelmente no queria que ela prestasse queixa contra Ezra ou falasse novamente sobre o incidente. Isso atrairia uma indecorosa ateno sobre a escola, 
e Rosewood Day jamais poderia passar por isso.
        Aria voltou-se, munida de poder.
        - Preciso ir a um lugar - argumentou ela.
        Era contra a poltica de Rosewood Day matar aula, mas Appleton no fez nada para impedi-la. Talvez a confuso com Ezra tivesse sido boa para alguma coisa, 
afinal.
        Ela chegou rapidamente ao hospital e correu at a unidade intensiva, no terceiro piso. Ali dentro, pacientes ficavam espalhados em crculo, separados apenas 
por cortinas. A comprida mesa da enfermagem em formato de U ficava no meio da sala. Aria passou por uma senhora negra idosa, que parecia morta, um homem grisalho 
com o pescoo imobilizado, e uma quarentona grogue que estava resmungando consigo mesma. O pedao onde Hanna estava era encostado a uma das paredes. Com seu longo 
e saudvel cabelo arruivado, pele lisinha e corpo jovem e firme, Hanna definitivamente no pertencia quela UTI. Sua rea isolada estava cheia de flores, caixas 
de bombom, pilhas de revistas e bichinhos de pelcia. Algum tinha trazido a ela um enorme urso branco embrulhado num vestido estampado. Quando Aria abriu o carto 
no brao peludo do urso, viu que o nome era Diane Von Furstenbear. Havia um gesso branco novo em folha no brao de Hanna. Lucas Beattie, Mona Vanderwaal e os pais 
de Hanna j haviam assinado.
        Lucas estava sentado na cadeira amarela de plstico ao lado do leito de Hanna, com uma revista Teen Vogue no colo.
        - "Mesmo as pernas mais leitosas iro se beneficiar com Lancme Soleil Flash Browner em musse colorido, que d  pele um brilho sutil." - ele leu, lambendo 
o dedo para virar a pgina. Quando reparou em Aria, ele parou, um olhar tmido em seu rosto.
        - Os mdicos dizem que  bom conversar com Hanna, que ela pode ouvir. Mas voc acha que talvez o outono seja uma poca estpida para se falar sobre autobronzeadores?Voc 
acha que eu deveria ler o artigo sobre Coco Chanel em vez deste? Ou um sobre as novas estagirias da Teen Vogue? Diz que so melhores que as garotas da Hills.
        Aria olhou para Hanna, um n se formando em sua garganta. Guardas metlicas protegiam as laterais da cama, como se ela fosse um beb correndo risco de rolar 
para fora. Havia hematomas verdes em seu rosto, e seus olhos pareciam selados. Essa era a primeira vez que Aria via um paciente em coma de perto. Um monitor registrava 
os batimentos cardacos e a presso sangunea de Hanna fazendo um constante bip, bip, bip. Isso deixava Aria incomodada. Ela no podia evitar imaginar a linha de 
repente ficando reta na tela, como acontece nos filmes logo antes de algum morrer.
        -  E ento, os mdicos deram algum prognstico? - perguntou Aria, trmula.
        - Bem, as mos dela esto se mexendo, voc viu? - Lucas apontou para a mo direita de Hanna, a que estava com o gesso. Suas unhas pareciam ter sido pintadas 
recentemente num tom brilhante de coral. - Parece promissor, mas os mdicos dizem que pode no significar nada. Eles ainda no tm certeza se ela sofreu algum dano 
cerebral.
        O estmago de Aria revirou.
        - Mas estou tentando pensar positivo. O movimento significa que ela est prestes a acordar. - Lucas fechou a revista e a colocou na mesa de cabeceira de 
Hanna. - E, aparentemente, alguma leitura da atividade cerebral mostra que ela pode ter acordado ontem  noite... mas ningum viu.
        Ele suspirou.
        -Vou buscar um refrigerante. Quer alguma coisa? 
        Aria balanou a cabea. Lucas levantou-se da cadeira e Aria tomou seu lugar. Antes de sair, Lucas batucou na soleira.
        -Voc soube da viglia  luz de velas por Hanna na sexta? 
        Aria deu de ombros.
        -  Voc  no   acha  meio  bizarro   que   seja  no   Country Clube?
        - De certa forma. - Lucas suspirou - Ou adequado.
        Ele deu um sorriso forado para Aria e deslizou para fora. Enquanto ele apertava o boto da porta automtica e saa da ala da UTI, Aria sorriu. Ela gostava 
de Lucas. Ele parecia to enjoado das bobagens pretensiosas de Rosewood Day quanto ela, e certamente era um bom amigo. Aria nem imaginava que ele fosse capaz de 
faltar a tantas aulas para ficar com Hanna, mas era legal saber que havia algum com ela.
        Aria esticou-se para tocar a mo de Hanna e os dedos de Hanna se curvaram sobre os dela. Aria se afastou, perplexa, depois se repreendeu. No era como se 
Hanna estivesse morta. No era como se Aria tivesse apertado a mo de um cadver e o cadver tivesse apertado de volta.
        - Tudo bem, posso estar l esta tarde, e ns podemos escolher as fotos juntas - falou uma voz atrs dela. - Isso  possvel?
        Aria rodopiou, quase caindo da cadeira. Spencer apertou o boto "Desligar" do seu Sidekick e deu a Aria um sorriso de desculpas.
        -  Desculpe. - Spencer revirou os olhos. - A turma do Anurio no faz nada sem mim.
        Ela olhou para Hanna, empalidecendo um pouco.
        -Vim aqui assim que tive um tempo livre. Como ela est?
        Os dedos de Aria estalaram to forte que a junta do seu polegar fez um desconcertante "pop". Era impressionante que, no meio daquilo tudo, Spencer ainda 
comandasse oito mil comits e achasse tempo at para estar na primeira pgina do jornal Philadelphia Sentinel de ontem. Mesmo que Wilden tivesse defendido Spencer, 
ainda havia algo a respeito dela que, de certa forma, deixava Aria pensativa.
        - Onde voc esteve? - perguntou Aria asperamente. 
        Spencer deu um passo para trs, como se Aria a tivesse empurrado.
        - Precisei viajar com meus pais. Para Nova Jersey. Vim assim que pude.
        - Recebeu o bilhete de A no sbado? - inquiriu Aria. - "Ela sabia demais"?
        Spencer assentiu, mas no disse nada. Passou os dedos pela borla da sua bolsa de tweed Kate Spade e olhou cuidadosamente para todo o aparato mdico eletrnico 
de Hanna.
        - Hanna contou a voc quem era? - alfinetou Aria.
        - Quem era quem? 
        -A.
        Spencer ainda parecida confusa e o nervosismo corroa as entranhas de Aria.
        - Hanna sabia quem era A, Spencer. - Ela olhou cuidadosamente para Spencer. - Hanna no lhe contou por que ela queria encontr-la?
        - No - a voz de Spencer desafinou -, ela disse apenas que tinha uma coisa muito importante para me contar. - E deixou escapar um longo suspiro.
        Aria pensou nos olhos desconfiados e loucos de Spencer espiando pelas rvores atrs de Rosewood Day.
        - Eu vi voc, voc sabe - Aria deixou escapar. - Eu a vi no bosque, no sbado. Voc estava apenas... parada ali. O que estava fazendo?
        A cor desapareceu do rosto de Spencer.
        - Eu estava assustada - murmurou ela. - Nunca tinha visto nada to assustador em toda a minha vida. No podia acreditar que algum tinha mesmo feito aquilo 
com Hanna.
        Spencer parecia aterrorizada. Subitamente, Aria sentiu suas suspeitas se esvarem. Imaginou o que Spencer pensaria se soubesse que Aria havia pensado que 
ela era a assassina de Ali e que tinha compartilhado essa teoria com Wilden. E se lembrou das palavras acusadoras de Wilden: "Ento  isso que vocs garotas fazem 
hoje em dia? Culpam as velhas amigas de assassinato?". Talvez ele estivesse certo: Spencer havia estrelado algumas peas da escola, mas ela no era uma atriz boa 
o suficiente para ter assassinado Ali, caminhado de volta ao celeiro e convencido suas outras melhores amigas de que era to inocente, ingnua e assustada quanto 
elas.
        - Tambm no posso acreditar que algum faria isso com Hanna - disse Aria, calmamente. E suspirou. - Ento, no sbado  noite me ocorreu algo. Acho... acho 
que Ali e Ian Thomas tiveram um caso, quando estvamos no stimo ano. 
        O queixo de Spencer caiu:
        - Tambm pensei nisso no sbado.
        -Voc j sabia? -Aria coou a cabea, baixando a guarda.
        Spencer deu outro passo para dentro do quarto. Ela manteve os olhos fixos no lquido transparente que enchia a bolsa de soluo intravenosa.
        - No.
        - Acha que mais algum sabia?
        Uma expresso indescritvel passou pelo rosto de Spencer. Falar sobre tudo isso parecia deix-la realmente desconfortvel.
        - Acho que a minha irm sabia.
        - Melissa sabia esse tempo todo e nunca disse nada? - Aria passou suas mos ao longo do queixo. - Isso  estranho.
        Ela pensou nas trs pistas de A sobre o assassino de Ali: que estava por perto, que queria algo que Ali tinha e que conhecia cada centmetro do jardim dos 
DiLaurentis. As trs pistas juntas levavam a somente uma quantidade limitada de pessoas. Se Melissa sabia sobre Ali e Ian, ento talvez fosse uma delas.
        - Devemos contar aos policiais sobre Ian e Ali? - sugeriu Spencer.
        Aria apertou as mos:
        - Comentei isso com o Wilden.
        Um rubor de surpresa passou pelo rosto de Spencer.
        - Oh - disse ela em voz baixa.
        - Tudo bem? - perguntou Aria, erguendo uma sobrancelha.
        - Claro - disse Spencer energicamente, retomando a compostura. - Ento... voc acha que ns devemos contar a ele sobre A?
        Aria estreitou os olhos.
        - Se contarmos, A pode... - Ela recuou, sentindo-se nauseada.
        Spencer encarou Aria por um longo tempo.
        - A est controlando completamente as nossas vidas - sussurrou ela.
        Hanna estava imvel em seu leito. Aria imaginou se ela realmente podia ouvi-las, como Lucas havia dito. Talvez ela tivesse ouvido tudo o que tinham acabado 
de dizer sobre A e quisesse contar a elas que sabia quem era, s que estava presa no coma. Ou talvez ela tivesse ouvido tudo e se sentido desgostosa por terem falado 
sobre isso em vez de se perguntarem se ela iria acordar algum dia.
        Aria ajeitou os lenis sobre o peito de Hanna, cobrindo-a at o queixo como Ella costumava fazer quando Aria ficava gripada. Ento um ligeiro reflexo na 
pequena janela atrs do leito de Hanna chamou sua ateno. Aria se endireitou, os nervos  flor da pele. Parecia que algum do lado de fora do cubculo de Hanna 
estivera espreitando, perto de uma cadeira de rodas, tentando no ser visto.
        Ela girou e, com o corao pulando, puxou de volta a cortina.
        - O que foi? - gritou Spencer, se virando tambm. 
        Aria tomou flego.
        - Nada. - Quem quer que fosse j havia sumido.
9
SER O BODE EXPIATORIO NO
TEM GRAA NENHUMA
As luzes agrediram olhos de Emily. Ela abraou seu travesseiro e mergulhou no sono de novo. Os sons matinais de Rosewood eram to previsveis quanto o nascer do 
sol: os latidos do co dos Kloses durante a caminhada em torno do quarteiro, o barulho do caminho de lixo, os sons do programa de televiso Today, que a me dela 
assistia todas as manhs, e o canto de um galo.
        Seus olhos se abriram de repente. Um galo?
        O quarto cheirava a feno e vodca. A cama de Abby estava vazia. J que os primos quiseram ficar mais tempo que Emily na festa da noite anterior, Trista a 
havia deixado no porto dos Weavers. Talvez Abby ainda no tivesse voltado para casa - a ltima vez em que ela vira a prima na festa, ela estava se jogando para 
cima de um cara que usava uma camiseta da Universidade de Iowa com urna figura enorme do mascote da universidade, Herky, o falco.
        Quando virou a cabea, viu sua tia Helene parada na porta do quarto. Emily deu um gritinho e se cobriu com os lenis. Helene estava usando um colete longo 
de patchwork e por baixo, uma camiseta com babados. Seus culos se equilibravam precariamente na ponta de seu nariz.
        -Vejo que est acordada - disse ela. - Por favor, desa.
        Emily saiu da cama devagar, vestindo a camiseta, as calas de pijama do time de natao de Rosewood e as meias de losango. A noite anterior a envolveu, como 
a gua morna de uma banheira. Emily e Trista tinham passado o restante da noite danando de um jeito maluco, e um bando de garotos tinha se juntado em volta delas. 
Elas conversaram sem parar na volta, at a casa dos Weavers, mesmo estando as duas exaustas. Antes de Emily descer do carro, Trista havia tocado a parte de dentro 
do pulso dela.
        - Estou feliz por ter conhecido voc - sussurrou Trista. E Emily tambm estava feliz.
        John, Matt e Abby estavam sentados  mesa da cozinha, encarando sonolentos as suas tigelas de cereal Cheerios. Havia um prato de panquecas no meio da mesa.
        -  Oi, pessoal - disse Emily, animada. - H alguma outra coisa para o caf, alm de Cheerios e panquecas?
        - Eu no acho que o caf da manh deveria ser a sua maior preocupao neste momento, Emily.
        Emily se virou, sentindo o sangue gelar. O tio Allen estava ao lado do fogo, frio e formal, com um olhar de desapontamento no rosto marcado e cansado. Helene 
estava apoiada no fogo, tambm com uma expresso muito severa. Emily olhou nervosa para Matt, John e Abby, mas nenhum deles olhava diretamente para ela.
        - Bem - Helene comeou a andar pela cozinha, seus sapatos de bico quadrado batendo contra o cho de madeira -, ns sabemos o que vocs quatro fizeram na 
noite passada.
        Emily sentou-se em uma cadeira, sentindo o calor invadir seu rosto. Seu corao estava disparado.
        - Eu quero saber de quem foi a ideia. - Helene circulava a mesa como um falco rondando a presa. - De quem foi a ideia de sair com aqueles garotos da escola 
pblica? Quem foi que pensou que estava tudo bem em beber lcool?
        Abby cutucou um Cheerio solitrio em sua tigela. John coou o queixo. Emily manteve a boca fechada. Ela com certeza no iria dizer coisa alguma. Ela e seus 
primos ficariam calados e seriam solidrios, em beneficio de todos. Era como Emily, Ali e as outras tinham feito anos atrs, nas raras ocasies em que eram pegas 
fazendo alguma coisa errada.
        - Bem? - disse Helene rispidamente. 
        O queixo de Abby tremeu.
        - Foi Emily - ela soltou. - Ela me ameaou, mame. Ela sabia sobre a festa da escola pblica e me obrigou a lev-la at l. Eu levei John e Matt conosco 
para que fosse mais seguro.
        -  O qu? - Emily engasgou. Parecia que Abby tinha golpeado seu peito com a cruz pendurada acima da porta. - Isso no  verdade! Como eu ia saber sobre essa 
festa? Eu no conheo ningum aqui alm de vocs!
        Helene pareceu enojada.
        - Meninos? Foi Emily?
        Matt e John encararam suas tigelas de cereal e concordaram com a cabea.
        Emily olhou em torno da mesa, sentindo-se brava e trada demais at para respirar. Ela queria gritar bem alto o que havia acontecido. Matt tinha tomado doses 
de bebida no umbigo de uma garota. John tinha danado ao som de Chingy s de cueca. Abby tinha ficado com cinco caras diferentes e talvez com uma vaca. Suas pernas 
e seus braos comearam a tremer. Por que eles estavam fazendo isso com ela? Eles no eram amigos dela?
        - Nenhum de vocs parecia triste por estar l!
        - Mentira - gritou Abby. - Ns estvamos muito tristes.
        Allen puxou Emily pelo ombro, sacudindo-a para coloc-la em p, de um jeito forte e grosseiro, como ela nunca havia sido tratada em sua vida.
        -  Isso no vai dar certo - disse ele em voz baixa, aproximando o rosto do dela. Ele cheirava a caf e a algo orgnico, talvez soja. -Voc no  mais bem-vinda 
aqui.
        Emily deu um passo para trs, sentindo seu corao afundar a seus ps.
        - O qu?
        - Ns fizemos um grande favor aos seus pais - resmungou Helene. - Eles disseram que voc causava muitos problemas, mas ns nunca esperamos nada parecido 
com isso. - E pegou o telefone sem fio. -Vou ligar para eles agora. Vamos levar voc de carro at o aeroporto, mas eles vo ter que dar um jeito de pagar para voc 
ir para casa. E depois vo ter que decidir o que fazer com voc.
        Emily sentiu os cinco pares de olhos Weaver cravados nela. Ela se obrigou a no chorar, respirando bem fundo o ar viciado da casa de fazenda. Seus primos 
a haviam trado. Nenhum deles estava do seu lado. Ningum estava.
        Ela deu meia-volta e fugiu para seu quartinho. Chegando l, ela jogou suas roupas de volta em sua sacola de natao. A maior parte de suas roupas tinha o 
cheiro de sua casa - uma mistura de amaciante para roupas Snuggle e dos temperos caseiros de sua me. Ela estava feliz por nenhuma delas ter o cheiro deste lugar 
horroroso.
        Antes de fechar o zper da sacola de lona grossa, ela parou. Helene provavelmente estava com seus pais no telefone naquele momento, contando tudo para eles. 
Ela podia at ver sua me parada no meio da cozinha de casa em Rosewood, com o telefone grudado na orelha dizendo:
        - Por favor, no mande Emily de volta para ns. Nossa vida est perfeita sem ela.
        A viso de Emily ficou embaada pelas lgrimas, e seu corao doa de verdade. Ningum a queria. E qual seria a prxima opo de Helene? Tentar despachar 
Emily para a casa de outra pessoa? Uma academia militar? Um convento? Isso ainda existia?
        - Tenho que dar o fora daqui - sussurrou Emily para o quarto vazio e frio. Seu telefone celular ainda estava no Pote dos Palavres no corredor. A tampa saiu 
fcil e nenhum alarme soou. Ela deixou o celular escorregar em seu bolso, apanhou suas sacolas e desceu as escadas. Se conseguisse sair da propriedade dos Weaver, 
tinha quase certeza que chegaria a uma mercearia que ficava a pouco mais de um quilmetro e meio seguindo pela estrada. L, ela poderia planejar seu prximo passo.
        Quando alcanou a varanda da frente, quase no percebeu Abby encolhida no balano que ficava ali na entrada. Com o susto, Emily largou a sacola em cima de 
seus ps.
        Abby fez um biquinho.
        - Ela nunca nos pegou. Ento, voc deve ter feito alguma coisa para chamar a ateno dela.
        - Eu no fiz nada - disse Emily, impotente. - Eu juro.
        - E agora, por sua causa, vamos ser vigiados por meses. - Abby rolou os olhos para cima. - E s para voc saber, Trista Taylor  a maior vagabunda. Ela fica 
com qualquer coisa que se mova, garoto ou garota.
        Emily recuou, sem saber o que dizer. Ela pegou sua sacola e disparou escada abaixo. Quando chegou  porteira, a mesma cabra ainda estava amarrada ao poste 
de metal, o sino batendo baixinho em seu pescoo. A corda que a mantinha presa no tinha comprimento suficiente para ela se deitar e parecia que Helene nem mesmo 
havia colocado gua para ela. Quando Emily olhou nos olhos amarelos e estranhos do animal, com suas pupilas quadradas, ela sentiu uma ligao entre elas - entre 
o bode expiatrio e a cabra malvada. Ela sabia o que era ser punida de forma injusta e cruel.
        Emily respirou fundo e tirou a corda do pescoo da cabra. Depois, abriu a porteira e agitou seus braos.
        -Vai embora, garota - sussurrou ela. - X.
        A cabra deu uma olhada para Emily, a boquinha apertada. Ela deu um passo, depois outro. Quando passou pelo porto, saiu em disparada, gingando pela estrada. 
Ela parecia feliz por estar livre.
        Emily bateu o porto atrs de si. Ela tambm estava muito feliz de se livrar daquele lugar.
10
ARIA NO CONSEGUE
ESVAZIAR A CABEA
Na tarde da segunda-feira, nuvens se encrespavam, escurecendo o cu e trazendo uma ventania que atingia em cheio as folhas amareladas do Rosewood.Aria cobriu as 
orelhas com sua boina cor de morango feita com l de merino e correu para o prdio do Museu de Artes Visuais Frank Lloyd Wright, na Universidade de Hollis, para 
sua primeirssima aula de arte conceitual. As paredes do vestbulo estavam cheias de obras dos alunos, propagandas de obras  venda e anncios de procura por colegas 
de quarto. Aria viu um folheto que dizia VOC VIU O PERSEGUIDOR DE ROSEWOOD? Havia a cpia de uma foto que mostrava um vulto no meio das rvores, to vago e obscuro 
quanto as fotos sombrias do Monstro do Lago Ness. Na semana anterior, os telejornais haviam feito a festa, com todo tipo de matria possvel sobre o Perseguidor 
de Rosewood, que andava por a seguindo e espionando cada movimento que as pessoas faziam. Mas Aria no tinha ouvido nada sobre isso nos ltimos dias... Alis, pelo 
mesmo tempo em que estivera sem notcia nenhuma de A.
        O elevador estava quebrado, ento Aria subiu pelas escadas frias de concreto cinzento at o segundo andar. Ela localizou a sala de arte conceitual e ficou 
surpresa ao constatar que era uma sala silenciosa e escura. Uma forma recortada tremulava contra a janela no lado mais distante da sala, e quando os olhos de Aria 
se ajustaram  escurido, ela percebeu que a sala estava cheia.
        - Entre - disse a voz rouca de uma mulher.
        Aria deu um jeito de tatear at alcanar a parede dos fundos da sala. O velho prdio da Universidade de Hollis rangia e parecia vergar-se com o prprio peso. 
Algum perto dela cheirava a menta e alho. Outra pessoa tinha cheiro de cigarro. Ela ouviu uma risadinha.
        - Creio que estamos todos aqui - disse a voz. - Meu nome  Sabrina. Sejam bem-vindos ao curso de arte conceitual. Bem,  provvel que vocs estejam se perguntando 
por que estamos todos aqui de p com as luzes apagadas. Arte est relacionada com viso, certo? Bom, adivinhem. No est no, pelo menos no inteiramente. Arte tambm 
est relacionada com tocar e cheirar... E mais ainda com sentir. Mas, acima de tudo, arte  se deixar levar. Arte tem a ver com pegar tudo que voc achou que era 
verdade e jogar pela janela. Tem a ver com aceitar a imprevisibilidade da vida, livrar-se das amarras e comear de novo.
        Aria sufocou um bocejo. A voz baixa de Sabrina dava sono e ela s queria se enrolar num cantinho e fechar os olhos.
        - As luzes esto apagadas para que faamos um pequeno exerccio - disse Sabrina. - Todos ns formamos a imagem de algum em nossas mentes, tendo como base 
certos fatos. O som da voz da pessoa, talvez. O tipo de msica que esse algum gosta de ouvir. As coisas que voc sabe sobre o passado dessa pessoa, talvez. Mas, 
s vezes, nosso juzo sobre essa pessoa no est to certo assim. Alis, s vezes, est muito errado.
        Anos atrs, Aria e Ali costumavam fazer aulas de artes juntas, aos sbados. Se Ali estivesse agora com ela nesta aula, reviraria os olhos e diria que Sabrina 
era uma bicho-grilo de axilas peludas. Mas Aria achava que o que Sabrina dizia fazia sentido - especialmente em relao a Ali. Por aqueles dias, Aria havia descoberto 
que tudo o que pensara saber sobre Ali estava errado. Aria jamais imaginaria que Ali tinha um romance secreto com o namorado da irm de sua melhor amiga, apesar 
disso certamente explicar suas atitudes cautelosas e estranhas antes de seu desaparecimento. Naqueles ltimos meses, havia finais de semana inteiros nos quais Ali 
no estava por perto. Ela dizia que tinha que viajar com os pais, mas  claro que isso na verdade queria dizer que ia passar algum tempo sozinha com Ian. Certa vez, 
Aria foi de bicicleta at a casa de Ali para fazer uma surpresa, e encontrou a amiga sentada em um dos enormes seixos de seu jardim, sussurrando no telefone celular.
        -Vejo voc neste final de semana, certo? -Ali estava dizendo. - E da ns conversaremos sobre isso.
        Quando Aria a chamou, Ali se virou, surpresa.
        - Com quem voc est falando? - perguntou Aria, inocentemente. Ali fechou seu telefone com um gesto brusco, estreitando os olhos. Ela pensou um pouco e depois 
disse:
        - Ento, e aquela garota que seu pai estava beijando? Aposto que ela  como as garotas de faculdade que aparecem naquele programa de televiso, o Girls Gone 
Wild, e se exibem para os caras. Quero dizer, ela tem que ser muito corajosa para ter um casinho com um professor.
        Aria deu meia-volta, mortificada. Ali vira quando ela pegara o pai, Byron, no flagra, beijando Meredith. E Ali no deixava barato. Aria j estava de volta 
 sua bicicleta e na metade do caminho para casa, quando finalmente se dera conta que Ali no havia respondido sua pergunta.
        - Bem, o que eu quero que ns faamos  o seguinte -disse Sabrina em voz baixa, interrompendo as lembranas de Aria -, vamos localizar a pessoa mais prxima 
de ns e dar as mios. Ento, que cada um tente imaginar como seu vizinho se parece, apenas tocando sua mo. Depois, ns iremos acender as luzes e cada um de vocs 
ir desenhar o retrato de seu parceiro com base em suas impresses.
        Aria se atrapalhou na escurido. Algum agarrou sua mo, sentindo os ossos de seu pulso e as elevaes irregularidades na palma de sua mo.
        - Que tipo de rosto voc v quando toca nessa pessoa? - perguntou Sabrina  classe.
        Aria fechou os olhos, tentando pensar. A mo era pequena e um pouco fria e seca. Um rosto comeou a aparecer, se formando em sua mente. Primeiro as mas 
do rosto pronunciadas, depois os olhos azuis brilhantes. Cabelo louro e comprido, lbios cheios e rosados.
        O corao de Aria deu um salto. Ela estava pensando em Ali.
        - Deem as costas para seus parceiros agora - instruiu Sabrina. - Depois, peguem seus blocos de desenho e eu vou acender as luzes. No olhem para seus parceiros. 
Quero que vocs desenhem exatamente a pessoa que est em suas mentes e ento vamos examinar os desenhos e ver o quanto vocs se aproximaram da realidade.
        As luzes brilhantes feriram os olhos de Aria enquanto ela, tremendo um pouco, abria seu bloco de desenho. Ela tentou fazer o carvo vegetal correr pelo papel 
para desenhar a pessoa ao lado, mas embora tentasse, no conseguia impedir a si mesma de desenhar o rosto de Ali. Quando parou para admirar o que tinha feito, sentiu 
um n na garganta. Havia uma sugesto de sorriso no rosto de Ali e malcia em seu olhar.
        - Muito bom! - disse Sabrina, que era exatamente como sua voz sugeria, cabelo castanho comprido e embaraado, peitos grandes, uma barriguinha pronunciada 
e pernas finas como as de um passarinho. Ela andou na direo da parceira de Aria. - Ah, que trabalho lindo! - murmurou ela. Aria sentiu uma ponta de irritao. 
Por que o trabalho dela no era lindo? Ser que algum desenhava melhor que ela? Impossvel.
        - O tempo acabou - avisou Sabrina. -Virem-se e mostrem ao seu parceiro o resultado do trabalho.
        Aria se virou devagar, avaliando com avidez o supostamente lindo trabalho de sua parceira. E, na verdade... Era mesmo lindo. O desenho no se parecia em 
nada com Aria, mas, ainda assim era um esboo de rosto muito melhor do que qualquer coisa que Aria poderia fazer. Os olhos de Aria subiram pelo corpo de sua parceira. 
A menina usava uma blusa rosa e bem justa de Nanette Lepore. Sua pele era clara e perfeita e seu cabelo era cheio e caa em ondas at abaixo de seus ombros. E ento, 
Aria viu um narizinho arrebitado muito familiar. E enormes culos escuros Gucci.Aos ps da garota havia um co adormecido usando um colete de lona azul. Aria sentiu 
seu sangue gelar.
        - Eu no posso ver como voc me desenhou - disse sua parceira com uma voz doce e suave. Ela apontou para seu co-guia  guisa de explicao -, mas tenho 
certeza que est demais.
        O queixo de Aria caiu. Sua parceira era Jenna Cavanaugh.
11
SEJA BEM-VINDA.
QUER DIZER... MAIS OU MENOS
Depois do que pareceram ser dias no espao sideral, Hanna de repente viu que estava indo na direo da luz de novo. Mais uma vez, ela estava sentada na varanda dos 
fundos da casa de Ali. Mais uma vez, ela podia sentir seu corpo transbordando para fora de seus jeans Seben e de sua camiseta American Apparel.
        - Ns vamos poder dormir todas juntas no celeiro da Melissa! - dizia Spencer.
        - Legal. - Ali sorriu. 
        Hanna recuou.
        Talvez ela estivesse presa, vivendo esse mesmo dia de novo e de novo, como o cara daquele filme antigo Feitio do tempo. Talvez Hanna tivesse que reviver 
esse dia at que fizesse tudo do jeito certo e conseguisse convencer Ali de que ela corria um enorme perigo.
        Mas... Da ltima vez em que ela havia estado em sua memria, Ali tinha assomado sobre ela e dito que tudo estava bem. Mas a verdade  que ela no estava 
nada bem. Nada, alis, estava bem.
        - Ali - quis saber Hanna -, o que voc quer dizer com esse negcio de "eu estou bem"?
        Ali no estava prestando ateno. Ela observava Melissa, enquanto ela passava pelo quintal da famlia Hastings dando passadas largas, a beca da formatura 
dependurada no brao.
        - Ei, Melissa! - chamou Ali. - Animada para ir a Praga!?
        -  Quem  que d a mnima para ela? - gritou Hanna. - Responda  minha pergunta!
        - Hanna est... Falando? - uma voz fora de seu raio de viso perguntou, engasgando. Hanna ergueu sua cabea. Aquela voz no parecia ser de nenhuma de suas 
velhas amigas.
        Do outro lado do quintal, Melissa colocou a mo no quadril.
        - Claro.
        - O Ian vai? - perguntou Ali.
        Hanna segurou o rosto de Ali com as duas mos.
        -  Ian no importa - disse ela, enrgica. - Escute o que eu estou dizendo, Ali!
        - Quem  Ian? - A voz que ela no conseguia reconhecer soava como se estivesse vindo do fim de um tnel muito longo. Era a voz de Mona Vanderwaal. Hanna 
olhou em volta do quintal de Ali, mas no viu Mona em lugar nenhum.
        Ali se virou para Hanna, dando um suspiro de desgosto.
        - D um tempo, Hanna.
        - Mas voc est correndo perigo - disse Hanna, confusa.
        - As coisas no so sempre como parecem - sussurrou Ali.
        -  O que voc quer dizer com isso? - perguntou Hanna, perdendo a calma. Quando ela tentou tocar Ali, sua mo atravessou o brao da amiga, como se ela fosse 
apenas uma imagem projetada em uma tela.
        - O que quem quer dizer? - perguntou a voz de Mona. 
        Hanna abriu os olhos. Uma luz brilhante fez seus olhos doerem e quase a cegou. Ela estava deitada de costas, em um colcho desconfortvel. Vrias pessoas 
estavam em volta dela - Mona, Lucas Beattie, sua me, seu pai.
        Seu pai? Hanna tentou franzir o cenho, mas os msculos de sua face doam demais, demais.
        - Hanna. - O queixo de Mona tremeu. - Ah, meu Deus. Voc est... Acordada.
        -Voc est bem, querida? - perguntou a me dela. -Voc pode falar?
        Hanna olhou para seus braos. Pelo menos eles estavam magrinhos, no se pareciam com presuntos. Ento, ela viu o tubo de soro intravenoso saindo da curva 
de seu brao e a tala de gesso desengonada em volta dele.
        - O que est acontecendo? - resmungou ela, olhando em volta. A cena que se desenrolava diante de seus olhos parecia sada de uma pea teatral. O lugar onde 
ela estava antes, o quintal da casa de Ali, com suas antigas melhores amigas, parecia muito mais real. - Onde est Ali?
        Os pais de Hanna trocaram um olhar preocupado.
        -Ali est morta - disse sua me tranquila.
        -Vo com calma com ela. - Um homem de cabelos brancos e nariz de falco vestindo um avental branco abriu a cortina que protegia o leito de Hanna.
        - Hanna? Meu nome  dr. Geist. Como voc se sente?
        -  Onde diabos eu estou? - perguntou Hanna, a voz demonstrando pnico.
        O pai de Hanna pegou a mo dela.
        - Voc sofreu um acidente. Ns ficamos to preocupados com voc.
        Hanna encarou confusa os rostos que a rodeavam e depois deu uma olhada nas geringonas que estavam  sua volta. Alm do soro, havia uma mquina que indicava 
seus batimentos cardacos e um tubo que levava oxignio ao seu nariz. Seu corpo parecia quente e depois frio, e sua pele formigava de medo e confuso.
        - Acidente? - sussurrou ela.
        - Voc foi atropelada por um carro - disse a me de Hanna. - Na sua escola, em Rosewood Day. Voc consegue se lembrar?
        Os lenis pareciam pegajosos, como se algum tivesse derramado molho de queijo para nachos neles. Hanna vasculhou sua memria, mas no encontrou nada sobre 
um acidente l. A ltima coisa da qual ela se lembrava, antes de estar sentada no quintal de Ali, era de ter recebido o vestido cor de champanhe Zac Posen para o 
aniversrio de Mona. Aquilo havia sido na sexta-feira  noite, um dia antes da festa. Hanna se virou para Mona, que parecia perturbada e aliviada. Seus olhos estavam 
arregalados, marcados por olheiras roxas horrveis, como se ela no dormisse h dias.
        - Eu no perdi a sua festa, perdi?
        Lucas fungou. Os ombros de Mona estavam tensos.
        - No...
        - O acidente aconteceu depois disso - disse Lucas. -Voc no se lembra?
        Hanna tentou tirar o tubo de oxignio de seu nariz - ningum conseguiria parecer atraente com um treco daqueles pendurado nas narinas - e descobriu que aquilo 
estava preso nela com esparadrapo. Ela fechou os olhos e tentou encontrar algo, qualquer coisa, que explicasse aquilo tudo. Mas a nica coisa que viu foi o rosto 
de Ali flutuando acima dela e sussurrando alguma coisa antes de se dissipar na escurido.
        - No - murmurou Hanna. - Eu no me lembro de absolutamente nada do que aconteceu.
12
FUGITIVA
No final da tarde da segunda-feira, Emily se sentou num banco de madeira azul desbotado no balco da lanchonete M&J, que ficava em frente ao posto-estao das linhas 
de viagem Greyhound, em Akron, Ohio. Ela no tinha comido nada o dia todo, e at considerou pedir uma fatia da torta de cereja meio nojenta da vitrine para comer 
enquanto tomava seu caf com gosto metlico. Perto dela, um homem sorvia lentamente colheradas de seu pudim de tapioca, fazendo bastante barulho, e um homem parecido 
com um pino de boliche e seu amigo, um cara que parecia uma agulha de tric, mandavam ver em uns hambrgueres gordurosos com batata frita. A vitrola automtica estava 
tocando alguma msica country anasalada e a garonete estava encostada na caixa registradora tirando o p de ms de geladeira no formato do estado de Ohio, que 
estavam  venda por noventa e nove centavos.
        - Para onde voc vai? - perguntou uma voz.
        Emily olhou nos olhos do cara que fritava coisas, um homem musculoso que parecia caar muito com arco e flecha quando no estava fazendo queijo quente. Emily 
procurou pelo crach com o nome dele, mas ele no estava usando um. Seu bon vermelho tinha uma enorme letra A bordada bem no meio. Ela umedeceu os lbios, tremendo 
um pouco.
        - Como voc sabe que eu estou indo para algum lugar?
        Ele deu uma olhada de reconhecimento para ela.
        -Voc no  daqui. E a Greyhound fica logo ali, do outro lado da rua. Ah, e voc est carregando essa sacola de lona enorme. Sou um gnio, no sou?
        Emily suspirou, encarando sua xcara de caf. Em menos de vinte minutos de marcha acelerada, ela havia vencido o pouco mais de um quilmetro que separava 
a casa de Helene do mercadinho na estrada, mesmo carregando a sacola pesada. L, ela arrumou carona para a rodoviria e comprou uma passagem para o primeiro nibus 
para fora de Iowa. Infelizmente, ela acabou indo parar em Akron, um lugar onde no conhecia ningum. E pior ainda, o nibus cheirava como se algum estivesse com 
gases e o cara sentado ao lado dela ouvia seu iPod no volume mximo, enquanto cantava uma msica do Fali Out Boy, uma banda que ela detestava. Depois, a coisa mais 
estranha aconteceu: Emily achou um caranguejo escondido debaixo de sua poltrona. Um caranguejo, apesar de eles no estarem nem perto do mar. Quando ela entrou no 
terminal e viu anunciada a partida de um nibus, s dez horas da noite, para a Filadlfia, sentiu o corao apertar. Ela nunca havia sentido tanta saudade da Pensilvnia.
        Emily fechou os olhos sem conseguir acreditar que estava fugindo mesmo, de verdade. Vrias vezes ela se imaginou fugindo - Ali costumava dizer que iria com 
ela. O Hava era um de seus cinco destinos imaginrios preferidos. Paris tambm. Ali dizia que elas poderiam assumir novas identidades. Quando Emily protestava, 
dizendo que isso parecia muito difcil de se conseguir, Ali dava de ombros e dizia:
        - No. Virar outra pessoa deve ser bem fcil.
        No importava o lugar que escolhessem, elas prometiam passar muito, muito tempo uma com a outra, sem interrupes, e Emily sempre tinha tido a esperana 
secreta de que, talvez, s talvez, Ali percebesse que amava Emily da mesma forma que Emily a amava. Mas no final das contas, Emily sempre se sentia mal e dizia:
        - Ali, voc no tem motivo nenhum para fugir. Sua vida  perfeita aqui.
        E Ali respondia encolhendo os ombros e dizendo que Emily tinha razo, que sua vida era mesmo perfeita.
        At que algum a matou.
        O cara das frituras aumentou o volume de sua televiso minscula que ficava ao lado da torradeira que tostava at oito fatias de po de uma s vez e de um 
pacote aberto de po da marca Wonder Bread. Quando Emily ergueu os olhos para a televiso, viu uma reprter da CNN em p na frente do seu velho conhecido Hospital 
Memorial de Rosewood. Emily conhecia aquele prdio muito bem, passava na frente dele todas as manhs no caminho da escola.
        - Recebemos informaes de que Hanna Marin, a garota de dezessete anos, moradora de Rosewood e amiga de Alison DiLaurentis, cujo corpo reapareceu misteriosamente 
em seu antigo quintal h mais ou menos um ms, acaba de acordar do estado de coma no qual estava desde a noite de sbado, aps um trgico acidente - disse a reprter.
        Emily largou sua xcara em cima do pires, fazendo um barulho. Coma? Os pais de Hanna apareceram na tela, dizendo que sim, Hanna estava acordada e parecia 
bem. No havia pistas de quem a havia atropelado ou por qu.
        Emily cobriu a boca com a mo, e sua mo estava com o cheiro do assento de couro falso da Greyhound. Ela tirou seu celular Nokia do bolso da jaqueta de algodo 
que usava e o ligou. Ela estava tentando poupar bateria porque tinha esquecido o carregador em Iowa. Seus dedos tremiam enquanto ela digitava o nmero do celular 
de Aria. A ligao caiu na caixa postal.
        - Aria, aqui  Emily - ela disse depois do bip. - Acabo de saber sobre Hanna e... - sua voz foi morrendo quando seus olhos pousaram de novo na tela. L, 
no canto superior direito, estava seu prprio rosto, olhando para ela, numa foto tirada para o livro do ano anterior.
        - Mais uma notcia de Rosewood diz respeito  outra amiga da senhorita DiLaurentis. Emily Fields est desaparecida - disse o ncora do telejornal. - Ela 
estava visitando parentes em Iowa esta semana, mas desapareceu da propriedade deles esta manh.
        O cozinheiro interrompeu o queijo quente e se virou para ver a reportagem. Uma expresso de descrena percorreu seu rosto. Ele olhou para Emily e depois 
de volta para a televiso. A esptula de metal caiu no cho com estardalhao.
        Emily apertou a tecla "Desligar" de seu celular sem terminar de dar seu recado para Aria. A televiso mostrava seus pais na frente de sua casa azul de madeira. 
Seu pai vestia sua melhor camiseta pala e sua me tinha um suter de cashmere sobre os ombros. Carolyn estava ao lado deles, mostrando o retrato do time de natao 
para a cmera. Emily estava perturbada demais para ficar com vergonha de aparecer em rede nacional com seu mai da Speedo.
        - Estamos muito preocupados - disse a me de Emily. - Queremos que Emily saiba que ns a amamos e apenas queremos que ela volte para casa.
        Lgrimas se acumularam nos olhos de Emily. No havia palavras para descrever como ela se sentia ao escutar a me dizendo aquelas trs palavrinhas: ns a 
amamos. Ela desceu do banco enfiando os braos nas mangas da jaqueta.
        A palavra FILADLFIA estava em destaque na parte de cima do nibus azul vermelho e prateado da Greyhound, do outro lado da rua. O enorme relgio com o logotipo 
da 7-Up que ficava acima do balco da lanchonete, marcava 9:53. Por favor, permita que ainda haja lugar no nibus das dez horas, ela rezou.
        Ela deu uma olhada para a conta escrita  mo, que repousava ao lado de seu caf.
        - Volto j - disse ela ao cozinheiro, enquanto pegava suas malas. - Eu s tenho que comprar uma passagem.
        O cara da fritura parecia ter sido apanhado no meio de um furaco e depois largado em outro planeta.
        - No se preocupe com isso - disse ele com a voz fraca. - O caf  por conta da casa.
        -  Obrigada! - Os sininhos da porta da lanchonete soaram quando Emily saiu. Ela correu para atravessar a rua cheia e entrou derrapando na rodoviria, agradecendo 
s foras do universo que impediram que houvesse fila no balco de venda de passagens da companhia. Finalmente, ela tinha para onde ir: sua casa.
13
S OTRIOS SO ATROPELADOS
Na tera-feira de manh, em vez de estar onde deveria, arrasando em sua aula de pilates na academia Body Tonic, Hanna estava de costas, enquanto duas enfermeiras 
lhe davam banho. Depois que elas saram do quarto, seu mdico, o dr. Geist, entrou e acendeu a luz.
        - Apague a luz! - Hanna mandou, sem modos, cobrindo o rosto rapidamente.
        O dr. Geist deixou a luz acesa. Hanna havia pedido outro mdico - se ela ia passar todo aquele tempo l, ser que no poderia pelo menos ter um mdico mais 
bonitinho? -, mas parecia que ningum naquele hospital a escutava.
        Hanna se esticou um pouco sobre as cobertas e conferiu seu reflexo em seu espelho Chanel. Sim, seu rosto monstruoso ainda estava ali, com todos os pontos 
no queixo, os dois olhos roxos, os lbios inchados e arroxeados, e os hematomas enormes em sua clavcula - ia levar sculos antes que ela pudesse usar blusas decotadas 
outra vez. Ela mal podia esperar para ir  clinica Bill Beach e arrumar todo aquele estrago.
        O dr. Geist checou os sinais vitais de Hanna em um computador que parecia ter sido feito nos anos 1960.
        - Voc est se recuperando muito bem. Agora que o inchao comeou a diminuir, podemos verificar que no houve nenhum dano cerebral. Seus rgos internos 
esto em ordem.  um milagre.
        - R - resmungou Hanna.
        -  sim, um milagre - intrometeu-se o pai de Hanna, parando atrs do mdico. - Ns estvamos mortos de preocupao com voc, Hanna. E me deixa louco da vida 
pensar que algum foi capaz de fazer isso com voc. E que esse algum ainda est solto por a.
        Hanna deu uma olhada rpida para ele. Seu pai usava um terno cinza-escuro, e um par de sapatos pretos engraxados e lustrosos. Nas doze horas desde que ela 
acordara era inacreditvel como ele havia sido paciente, fazendo todas as vontades de Hanna... E ela tinha um monte de vontades. Primeiro, ela exigira ser transferida 
para um quarto particular - a ltima coisa de que precisava agora era ficar ouvindo uma velha do outro lado da cortina recebendo cuidados intensivos, falando sobre 
o funcionamento de seus intestinos e sobre sua cirurgia de realocao do quadril. Depois, Hanna tinha feito seu pai trazer um aparelho porttil de DVD e alguns DVDs 
de uma loja Target ali perto. A televiso do hospital s tinha seis canais horrorosos. Ela havia implorado ao pai que obrigasse as enfermeiras a lhe darem mais remdios 
para dor. Como ela havia considerado o colcho do hospital absolutamente desconfortvel, uma hora o forara a ir at uma loja de suprimentos mdicos, a Tempur-Pedic 
para comprar uma manta de espuma para cobrir o colcho. E pela aparncia da sacola enorme que ele carregava, sua incurso  loja devia ter sido um sucesso.
        O dr. Geist prendeu a prancheta com as informaes sobre Hanna de novo aos ps de sua cama.
        - Creio que vamos dar alta para voc daqui a alguns dias. Alguma pergunta?
        - Sim, eu tenho uma - disse Hanna, com a voz ainda um pouco esquisita por causa do respirador onde era mantida desde o acidente. Ela apontou para o tubo 
de soro em seu brao. -Quantas calorias este negcio tem? - Pelo que ela podia sentir de seus ossos sob a pele, tinha perdido peso em sua passagem pelo hospital 
(o que era um bnus!) mas ela s queria ter certeza.
        O dr. Geist olhou para ela como se ela fosse louca, provavelmente desejando que ele pudesse trocar de paciente tambm.
        - O que voc tem a so antibiticos e coisas que mantm voc hidratada.
        O pai de Hanna se meteu na conversa rapidinho e, dando um tapinha no brao da filha, disse:
        - Isso vai fazer voc se sentir muito melhor.
        E quando eles deixaram o quarto, o dr. Geist apagou a luz.
        Hanna olhou furiosa para a porta por um instante, depois afundou de novo na cama. A nica coisa que podia fazer com que ela se sentisse melhor naquele momento 
era uma massagem de seis horas de durao, feita por um modelo italiano gostoso sem camisa. E, ah, sim, um rosto todinho novo.
        Hanna estava completamente passada com o que tinha acontecido. Ela se perguntava se, depois de cair no sono de novo, acordaria na sua prpria cama, em seus 
lenis de algodo de seiscentos fios, linda como antes, pronta para mais um dia de compras com Mona. Que tipo de pessoa  atropelada por um carro? Ela nem estava 
no hospital por algum motivo bacana, como por exemplo curar ferimentos decorrentes de alguma tentativa de sequestro ou por causa de alguma tragdia sofrida durante 
um tsunami, como a modelo Petra Nemcova.
        Mas havia algo que a deixava apavorada - e era algo sobre o qual ela no queria pensar: aquela noite toda era uma enorme tela em branco na memria de Hanna. 
Ela no conseguia sequer se lembrar da festa de Mona.
        E foi a que duas pessoas usando familiares blazers azul-marinho apareceram na porta do quarto dela. Quando viram que Hanna estava acordada e vestida, Aria 
e Spencer correram em sua direo, os rostos cheios de preocupao.
        -Tentamos ver voc noite passada - disse Spencer -, mas as enfermeiras no nos deixaram entrar!
        Hanna notou que Aria estava espiando seus hematomas esverdeados horrorizada.
        - Que foi? - perguntou Hanna com rudeza, passando a mo em seu longo cabelo ruivo escuro, no qual ela tinha acabado de passar Bumble & Bumble Surf Spray. 
-Voc deveria tentar ser um pouco mais como Florence Nightingale, Aria. Sean adora esse tipo.
        Ainda incomodava Hanna que seu ex, Sean Ackard, tivesse terminado com ela para ficar com Aria. Naquele dia, o cabelo de Aria caa em mechas grossas em torno 
de seu rosto, e ela estava usando um vestido xadrez vermelho e branco soltinho por baixo do blazer de Rosewood Day. Ela parecia uma cruza entre a baterista maluca 
da banda White Stripes e uma toalha de mesa. Alm disso, ela no sabia que se fosse pega sem a camisa e a saia plissada, o uniforme completo da escola, Appleton 
simplesmente faria com que ela desse meia-volta e fosse para casa se trocar?
        - Sean e eu terminamos - murmurou Aria. 
        Hanna ergueu uma sobrancelha de curiosidade.
        - Ah,  mesmo? E como foi isso?
        Aria se sentou na cadeirinha de plstico cor de laranja, ao lado da cama de Hanna.
        -  Isso no importa agora. O que importa de verdade ... Isso. Voc. - Seus olhos estavam cheios de lgrimas. - Queria que tivssemos chegado ao playground 
mais cedo. Eu no parei de pensar nisso. Ns poderamos ter parado aquele carro de algum jeito. Poderamos ter tirado voc do caminho.
        Hanna olhou para ela, a garganta fechando. 
        -Vocs estavam l?
        Aria fez que sim com a cabea, depois deu uma olhada para Spencer.
        - Estvamos todas l. Emily tambm, voc queria encontrar conosco.
        O corao de Hanna acelerou.
        - Eu queria?
        Aria chegou mais perto dela. Seu hlito cheirava a chiclete Orbit Mint Mojito, um sabor que Hanna odiava. 
        -Voc disse que sabia quem era A.
        -  O qu? - sussurrou Hanna.
        -Voc no se lembra? - guinchou Spencer. - Hanna, foi essa pessoa que atropelou voc! - Ela pegou seu Sidekick e mostrou um texto na tela. - Olha s!
        Hanna olhou para a tela.
        Ela sabia demais. - A
        - A enviou esse recado para todas ns assim que voc foi atropelada - sussurrou Spencer.
        Hanna piscou, passada, atnita. Sua memria era como uma bolsa Gucci enorme e, quando Hanna vasculhava no fundo, no conseguia encontrar a lembrana de que 
precisava.
        - A tentou me matar? - Seu estmago doa. Durante todo o dia, ela estivera com essa sensao terrvel de que aquilo no tinha sido um acidente. Mas ela havia 
tentado negar essa sensao, dizendo a si mesma que no fazia sentido nenhum.
        - Quem sabe A falou com voc? - comeou Spencer. - Ou talvez voc tenha visto A fazendo alguma coisa. Pense nisso. Ns temos medo que, se voc no se lembrar 
quem A , ele possa... - sua voz foi sumindo e ela engoliu em seco - ... pegar voc outra vez - sussurrou Aria.
        Ondas de tremor tomavam Hanna, e ela suava frio.
        - A u-ltima coisa de que eu me lembro  da noite anterior  festa de Mona - balbuciou ela. - E depois, ns estvamos todas sentadas no quintal de Ali. Estvamos 
no stimo ano de novo. Um dia antes de Ali desaparecer. Ns estvamos falando sobre como seria legal que todas ns passssemos a noite no celeiro. Vocs se lembram 
disso?
        Spencer franziu a testa.
        - Hum... Claro. Eu acho.
        - Eu fiquei tentando alertar Ali de que ela ia morrer no dia seguinte - explicou Hanna, ficando mais agitada. - Mas ela no prestava ateno em mim de jeito 
nenhum. E ento ela olhou diretamente para mim e disse que eu deveria parar de me preocupar com isso. Ela disse que estava bem.
        Spencer e Aria trocaram olhares.
        - Hanna, isso foi um sonho - disse Aria suavemente.
        - Ah, d, claro que foi. - Hanna revirou os olhos. - S estou contando. Foi como se ela estivesse bem ali. - Ela apontou para um balo rosa na ponta 
de sua cama, que dizia FIQUE BOA LOGO. O balo tinha um rosto desenhado e braos e pernas feitos de papel plissado.
        Antes que as amigas de Hanna pudessem dizer alguma coisa, uma voz escandalosa as interrompeu.
        - Onde est a paciente mais sexy deste hospital? - Mona estava parada no vo da porta, com seus braos abertos. Ela tambm usava o blazer azul-marinho e 
a saia de Rosewood Day, alm de um incrvel par de botas Marc Jacobs que Hanna nunca tinha visto. Mona deu uma olhada cheia de suspeita para Aria e Spencer, depois 
despejou uma pilha de revistas Vogue, Elle, Lucky e Us Weekly na mesinha ao lado da cama de Hanna.
        - Pour vous, Hanna. Aconteceu um monte de coisa com a Lindsay Lohan e ns precisamos conversar sobre isso.
        -  Eu amo tanto voc - gritou Hanna, tentando mudar o clima. Ela no podia mais falar sobre toda a histria de A, ela simplesmente no conseguia. Estava 
aliviada por no ter tido alucinaes desde ontem quando acordou e viu Mona ao lado de sua cama. As coisas entre Mona e ela andaram meio balanadas na semana anterior, 
mas a ltima lembrana de Hanna era a de receber uma encomenda pelo correio com o vestido da corte para a festa de Mona. Tinha sido um claro pedido de perdo, mas 
era muito estranho que Hanna no conseguisse se lembrar da conversa que tiveram reatando a amizade; geralmente, quando Hanna e Mona faziam as pazes, elas davam presentes 
uma  outra, como uma nova capa de iPod ou um par de luvas de pelica Coach.
        Spencer deu uma olhada para Mona.
        - Bem, agora que Hanna est acordada, acho que no vamos ter que fazer aquele negcio na sexta-feira.
        Hanna se sobressaltou.
        - Que negcio?
        Mona se empoleirou na cama de Hanna.
        -  Ns amos fazer uma viglia pela sua recuperao no Rosewood Country Club - contou ela. - Convidamos todo mundo da escola.
        Hanna colocou a mo cujo brao recebia o tubo de soro na boca, emocionada.
        -Vocs iam fazer isso tudo... para mim?
        Ela percebeu o olhar de Mona. Era bastante fora do comum que ela tivesse planejado alguma coisa com Spencer - Mona tinha um monte de implicncias com as 
antigas amigas de Hanna -, mas Mona parecia muito animada com a histria toda. O corao de Hanna se encheu de esperana.
        - J que o clube est reservado... Talvez pudssemos fazer uma festa de boas-vindas em vez da viglia, que tal? - sugeriu Hanna, numa voz baixinha e vacilante. 
Ela cruzou os dedos embaixo do lenol para dar sorte, torcendo para que Mona no achasse que era uma ideia estpida.
        Mona umedeceu seus lbios perfeitos.
        - Eu no posso recusar uma festa. Especialmente uma festa para voc, Han.
        Hanna vibrava de felicidade. Essa era a melhor notcia que ela tivera o dia todo - melhor ainda que quando as enfermeiras permitiram que ela usasse o banheiro 
sozinha, sem superviso. Ela queria se levantar dali e dar um enorme abrao de agradecimento e de eu-estou-to-feliz-por-sermos-amigas-de-novo em Mona, mas estava 
presa a muitos tubos.
        -  Especialmente agora, que eu no consigo me lembrar de como foi a sua festa - disse Hanna, fazendo beicinho. - Foi maravilhosa?
        Mona baixou os olhos, catando pelinhos em seu suter.
        - Est tudo bem - disse Hanna com calma -, voc pode me dizer que foi sensacional. Eu posso aguentar. - Ela parou para pensar por um momento. - Eu tive uma 
ideia fantstica. J que estamos meio perto do Halloween, e j que eu no estou com a melhor aparncia deste mundo... - ela agitou as mos em volta do rosto - vamos 
fazer um baile de mscaras!
        - Perfeito! - disse Mona, entusiasmada. - Ah, Han, vai ser maravilhoso!
        Ela agarrou as mos de Mona e elas comearam a balan-las juntas, e Aria e Spencer ficaram ali, deixadas de lado, sentido que estavam sobrando. Mas Hanna 
no queria comemorar com elas. Isso era uma coisa que apenas as melhores amigas faziam, e Hanna s tinha uma dessas em todo o mundo.
14
UM INTERROGATRIO... E UMA
PITADA DE ESPIONAGEM
Na tarde da tera-feira, depois de uma breve reunio com o pessoal do Livro do Ano e de uma hora de treino de hquei, Spencer embicou o carro na entrada de carros 
circular com cho de ardsia azul de sua casa. Havia um carro-patrulha da policia do Rosewood estacionado ao lado do Range Rover cinza de sua me.
        O corao de Spencer foi parar na garganta, como vinha acontecendo com frequncia nos ltimos dias. Ser que tinha sido um erro enorme ter confessado seu 
sentimento de culpa sobre Ali para Melissa? E se Melissa tivesse dito que Spencer no tinha instinto assassino s para despist-la? E se ela havia ligado para Wilden 
e dito a ele que Spencer era responsvel por tudo?
        Spencer pensou sobre aquela noite outra vez. Sua irm tinha um sorrisinho estranho no rosto quando disse que Spencer no podia ter sido a responsvel pela 
morte de Ali. As palavras que ela tinha usado eram muito estranhas - ela havia dito que era preciso ser uma pessoa mpar para matar. Por que ela no havia usado 
as palavras louca ou sem corao? mpar fazia com que o assassino parecesse ser algum especial. Spencer andava to assustada que vinha evitando Melissa desde aquela 
ocasio, sentindo-se constrangida e insegura na presena da irm.
        Enquanto entrava pela porta da frente e pendurava seu casaco Burberry no armrio do vestbulo, Spencer percebeu que Melissa e Ian estavam sentados parecendo 
muito formais no sof da sala da casa da famlia Hastings, como se estivem levando uma bronca no gabinete do diretor da escola. O policial Wilden estava sentado 
na frente deles, numa poltrona de couro.
        - O-oi - disse Spencer meio confusa e surpresa.
        - Ah, Spencer. - Wilden fez um gesto com a cabea na direo dela. - S estou batendo um papinho com a sua irm e com Ian, voc pode nos dar licena?
        Spencer deu um grande passo para trs.
        - So-sobre o que vocs esto falando?
        - Estou apenas fazendo algumas perguntas a eles sobre a noite em que Alison DiLaurentis desapareceu - disse Wilden, com os olhos pregados em seu bloquinho 
de notas. - Estou tentando ouvir todos os lados dessa histria.
        A sala estava em silncio, exceto pelo barulho do ionizador de ar que a me dela havia comprado depois que seu alergista a advertira sobre as rugas que os 
caros poderiam causar nas mulheres.
        Spencer deixou o cmodo bem devagar.
        - Tem uma carta para voc na mesa do vestbulo - gritou Melissa, assim que Spencer entrou no corredor. - Mame deixou para voc.
        Havia mesmo uma pilha de correspondncia na mesa da entrada, perto de um vaso de terracota em formato de colmeia que, supostamente, havia sido dado  bisav 
de Spencer por Howard Hughes. A carta para Spencer estava no topo da pilha, um envelope cor de creme aberto, com seu nome escrito  mo na frente. Dentro dele havia 
um convite em papel carto creme-escuro. Letras douradas e rebuscadas diziam:
        O Comit do Premio Orqudea Dourada a convida para 
        o caf da manh dos finalistas e para uma entrevista no 
        Restaurante Daniel, em Nova York, na sexta-feira, 15 de 
        outubro.
        Havia um post-it rosa preso no canto do convite:
        Spencer, j esclarecemos a questo com seus professores. 
        Fizemos reservas no Hotel W para quinta-feira  noite.
        Spencer aproximou o papel de seu rosto. Cheirava a colnia Pollo, ou talvez fosse o cheiro de Wilden. Seus pais estavam mesmo a encorajando a competir, sabendo 
o que sabiam? Parecia surreal. E errado.
        Ou... Era mesmo? Ela correu o dedo pelas letras em relevo do convite. Spencer tinha desejado ardentemente ganhar um prmio Orqudea Dourada desde o terceiro 
ano, e talvez seus pais tivessem reconhecido isso. E se ela no estivesse to alterada com toda essa histria de Ali e A, ela certamente teria sido capaz de escrever 
seu prprio trabalho, com qualidade suficiente para competir pelo prmio. Ento, por que simplesmente no ir at l e sorrir? Ela pensou no que Melissa havia dito 
- seus pais lhe dariam uma recompensa incrvel se ela ganhasse. E ela bem que precisava de uma recompensa bacana neste momento.
        O relgio que havia sido de seu av deu seis badaladas na sala de estar. Spencer imaginou que Wilden estava esperando at ter certeza que ela havia subido 
as escadas para continuar com a conversa. Ela subiu os primeiros degraus pisando duro de propsito, para que ele a ouvisse se afastar. Depois, ficou andando no mesmo 
lugar, como se tivesse subido o resto da escada.
        Dali, ela tinha viso perfeita de Melissa e Ian por entre as grades que sustentavam o corrimo. E eles no conseguiam v-la.
        - Tudo bem. -Wilden limpou a garganta. - Bem, ento, de volta a Alison DiLaurentis.
        Melissa coou o nariz.
        - No tenho certeza do motivo pelo qual isso tudo teria a ver conosco. Seria melhor que voc falasse com a minha irm.
        Spencer fechou os olhos com fora. L vem bomba.
        - Colaborem comigo - disse Wilden, com calma. -Vocs dois querem me ajudar a encontrar quem matou Alison, no querem?
        - Claro que queremos - disse Melissa, um tantinho arrogante, o rosto ficando vermelho.
        - Isso  bom - disse Wilden. Enquanto ele abria um bloquinho de anotaes de capa preta, Spencer respirou fundo sem fazer barulho.
        - Ento - continuou Wilden -, vocs estavam no celeiro com Alison e as amigas dela, um pouco antes do desaparecimento, certo?
        Melissa concordou com a cabea.
        - Estvamos l quando elas chegaram. Spencer havia pedido permisso aos nossos pais para que elas pudessem usar o celeiro para fazer a festinha delas de 
final do ano escolar. Achavam que eu iria para Praga naquela noite, mas eu s ia no dia seguinte. Mas, enfim, ns samos de l e deixamos o celeiro para as meninas. 
- Ela sorriu com orgulho de si mesma como se tivesse sido, ah, to caridosa.
        - Tudo bem... -Wilden fez uma anotao em seu bloco.- E vocs no viram nada de estranho no quintal naquela noite? Ningum vagando por ali,  espreita, nada 
do tipo?
        - Nada - disse Melissa, calmamente. Spencer sentiu-se grata novamente, mas estava confusa. Por que Melissa, com aquele corao de pedra, no estava jogando 
a irm aos lees?
        - E para onde vocs foram depois que saram de l? - perguntou Wilden.
        Melissa e Ian pareceram surpresos.
        - Fomos para o escritrio de Melissa. Fica ali. - Ian apontou para o corredor. - Ns ficamos l, s... Voc sabe.  toa. Vendo televiso. Sei l.
        - E vocs ficaram l juntos a noite toda? 
        Ian olhou para Melissa.
        -  Quero dizer, foi h mais de quatro anos, ento no  muito fcil lembrar com exatido, mas, ah, sim, tenho certeza de que foi isso.
        - Melissa? - perguntou Wilden.
        Melissa agarrou uma das almofadas do sof. Por um breve momento, Spencer viu uma sombra de terror cruzar o rosto dela. Num instante, havia desaparecido.
        - Ns ficamos juntos.
        - Tudo bem. - Wilden olhou de um para o outro, como se algo o incomodasse. - E... Ian. Tinha alguma coisa acontecendo entre Alison e voc?
        O rosto de Ian desabou. Ele limpou a garganta.
        - Ali tinha uma queda por mim. E eu flertava um pouquinho com ela, mas foi s isso.
        O queixo de Spencer caiu. Ela estava surpresa. Ian estava mentindo... para um policial? Ela deu uma olhada para sua irm, mas Melissa estava olhando para 
a frente, com um sorrisinho indecifrvel no rosto.
        Eu sabia que Ian e Ali estavam juntos, ela havia dito.
        Spencer pensou no que Hanna dissera no hospital sobre sua lembrana das quatro amigas indo at a casa de Ali no dia anterior ao seu desaparecimento. Os detalhes 
daquele dia estavam nebulosos, mas Spencer lembrava que elas tinham visto Melissa no celeiro. Ali tinha perguntado se Melissa no tinha medo de Ian arrumar outra 
garota enquanto ela estivesse em Praga. Spencer dera um tapinha em Ali pelo comentrio, pedindo a ela para calar a boca. Desde que ela havia admitido para Ali, e 
apenas para ela, que beijara Ian, Ali vinha ameaando contar tudo para Melissa, caso Spencer no o fizesse ela mesma. Ento, Spencer achou que os comentrios maldosos 
de Ali eram para atingi-la, no para mexer com Melissa.
        E era isso o que Ali estava fazendo, no era? Ela no tinha mais certeza.
        Depois disso, Melissa tinha dado de ombros, resmungado alguma coisa e seguido na direo do celeiro da famlia Hastings. No caminho, porm, Spencer lembrava 
que sua irm dera uma parada para olhar para o buraco que os operrios estavam cavando no quintal de Ali. Foi como se ela estivesse tentando memorizar as dimenses 
dele.
        Spencer colocou a mo sobre a boca. Ela havia recebido uma mensagem de texto de A na semana passada, quando estava sentada na frente da sua penteadeira. 
A mensagem dizia:
        O assassino de Ali est bem na sua frente
        Logo depois de Spencer ler isso, Melissa tinha aparecido no vo da porta para avisar que a reprter do Philadelphia Sentinel estava l embaixo. Melissa estava 
na frente de Spencer, assim como seu prprio reflexo.
        Enquanto Wilden se despedia de Ian e Melissa e se levantava para ir embora, Spencer subiu o resto da escada em silncio, sua cabea dando voltas. No dia 
anterior ao seu desaparecimento, Ali tinha dito:
        - Sabem do que mais, garotas? Eu acho que este vai ser o vero da Ali.
        Ela parecia ter tanta certeza disso, ela estava to confiante de que tudo iria sair exatamente do jeito que ela queria...
        Mas embora Ali pudesse mandar as quatro amigas fazerem qualquer coisa que dissesse, ningum, absolutamente ningum, brincava daquele jeito com a irm de 
Spencer.
        Porque, no final, bem...
        Melissa... sempre... ganhava.
15
ADIVINHE QUEM EST 
DE VOL-TA!
Na manh de quarta-feira, bem cedinho, a me de Emily dirigiu sua minivan para fora do estacionamento da rodoviria da linha Greyhound na Filadlfia e desceu na 
entrada para a rota 76 bem no meio da hora do rush matinal, passando pelas charmosas casas enfileiradas  margem do rio Schuylkill e seguiu direto para o Hospital 
Memorial de Rosewood. Apesar de Emily precisar muito de um banho depois da exaustiva viagem de nibus que durara dez horas, ela realmente queria ver como Hanna estava. 
        Quando chegaram ao hospital, Emily comeou a imaginar se no havia cometido um grande erro. Ela havia telefonado para os pais antes de entrar no nibus das 
vinte e duas horas para a Filadlfia na noite anterior. Contou a eles que tinha visto a reportagem sobre seu desaparecimento na televiso, que ela estava bem e a 
caminho de casa. Seus pais pareceram felizes... Mas a bateria de seu celular acabou no meio da conversa, ento ela no tinha certeza. E agora, desde que Emily entrara 
no carro, tudo que a me havia dito a ela fora:
        -Voc est bem?
        Depois que Emily dissera que sim, que estava bem, a me lhe disse que Hanna acordara. E ento, mais nada.
        A me passou embaixo da marquise da entrada principal do hospital e parou o carro no estacionamento. Ela deu um suspiro longo e barulhento, encostando a 
testa por alguns momentos no volante.
        - Eu morro de medo de dirigir na Filadlfia.
        Emily encarou a me, seu cabelo grisalho bem-arrumado, sua malha de l verde-esmeralda, seu adorado colar de prolas em volta do pescoo que ela usava todos 
os dias, como a Marge, de Os Simpsons. Emily de repente se deu conta de que nunca vira a me dirigir para lugar nenhum nem remotamente prximo  Filadlfia. E sua 
me sempre tivera pnico de mudar de pista, mesmo quando no havia outros carros vindo.
        - Obrigada por me buscar - disse ela, bem baixinho.
        A sra. Fields observou Emily cuidadosamente, a boca tremendo.
        - Ns estvamos to preocupados com voc. A ideia de que podamos ter perdido voc para sempre fez com que repensssemos as coisas. No agimos bem mandando 
voc para a casa de Helene da forma como fizemos. Emily, podemos no aceitar suas escolhas... bem, na sua vida. Mas ns vamos tentar conviver com elas da melhor 
forma possvel.  isso que o dr. Phil ensina. Seu pai e eu lemos os livros dele.
        Fora do carro, um casal passou empurrando um carrinho de beb na direo de seu Porsche Cayenne. Dois mdicos negros atraentes se empurravam de brincadeira. 
Emily respirou fundo o ar que cheirava a madressilva e reparou no supermercado Wawa do outro lado da rua. Ela definitivamente estava em Rosewood. No havia cado 
de paraquedas na vida de outra garota.
        - Tudo bem - disse Emily, rouca. Seu corpo todo parecia coar, principalmente as palmas de suas mos. - Hum... Obrigada. Isso me deixa muito feliz mesmo.
        A sra. Fields pegou sua bolsa e uma sacola da livraria Barnes & Noble. E entregou a sacola para Emily.
        - Isto  para voc.
        Dentro da sacola, havia um DVD do desenho Procurando Nemo. Emily olhou para ela, confusa.
        - Ellen DeGeneres faz a voz da peixinha engraada - explicou a me, numa voz levemente abobada. - E ns achamos que talvez voc gostasse dela. - De repente, 
Emily entendeu. Ellen DeGeneres era uma peixinha, uma nadadora lsbica, como Emily.
        - Obrigada - disse ela, apertando o DVD contra o peito, estranhamente emocionada.
        Ela saiu do carro da me meio trpega e passou pelas portas automticas do hospital quase em transe. Enquanto passava pela recepo, pelo caf, pelas lojas 
de presentes finos, as palavras de sua me iam se assentando devagar dentro dela. Sua famlia a havia aceitado como ela era? Ela se perguntou se deveria ligar para 
Maya para dizer que estava de volta. Mas o que ela deveria dizer, exatamente? Estou em casa! Meus pais so bacanas agora! Ns podemos namorar! Isso parecia to... 
cafona.
        O quarto de Hanna ficava no quinto andar. Quando Emily empurrou a porta para abri-la. Aria e Spencer estavam sentadas ao lado da cama, segurando grandes 
copos de cafs do Starbucks. Hanna tinha uma fileira de pontos negros feitos com linha cirrgica no queixo e usava uma grande e grosseira tala de gesso no brao. 
Havia um enorme buqu de flores perto de sua cama e o quarto todo cheirava a leo de alecrim de aromaterapia.
        - Ei, Hanna! - disse Emily, fechando a porta com delicadeza. - Como voc est?
        Hanna suspirou, quase aborrecida.
        -Voc tambm vai me perguntar sobre A?
        Emily olhou para Aria, depois para Spencer, que estava brincando com a borda de seu copo de caf, parecendo nervosa. Era estranho ver Aria e Spencer juntas 
- no era Aria que suspeitava que Spencer havia assassinado Ali? Ela ergueu uma sobrancelha para Aria, como que pedindo uma explicao, mas a amiga sacudiu a cabea, 
movendo os lbios sem emitir som: Eu explico tudo depois.
        Emily olhou de volta para Hanna.
        - Bem, eu queria ver como voc estava, mas, bem... - comeou ela.
        - Nem comea - disse Hanna, arrogante, enrolando uma mecha de seu cabelo em volta do dedo. - Eu no me lembro do que aconteceu. Ento, ns poderamos muito 
bem falar de qualquer outra coisa. - A voz dela tremia de raiva.
        Emily recuou. Ela olhou para Aria, implorando com os olhos que ela explicasse aquilo. Ela realmente no se lembra? Aria fez que no com a cabea.
        - Hanna, se ns no continuarmos insistindo, voc nunca vai se lembrar - pressionou Spencer. -Voc recebeu um torpedo? Um bilhete? Talvez A tenha posto alguma 
coisa no seu bolso!
        - Voc descobriu alguma coisa durante ou depois da festa da Mona - encorajou Aria. - Ser que era algo relacionado a isso?
        - Talvez A tenha dito alguma coisa incriminadora - disse Spencer. - Ser que voc no viu a pessoa que estava atrs do volante do carro que a atropelou voc?
        - Ser que d para vocs pararem com isso!? - Lgrimas brilhavam nos cantos dos olhos de Hanna. - O mdico disse que me pressionar desse jeito no ajuda 
em nada na minha recuperao.
        Depois de uma pausa, ela alisou sua manta de cashmere e respirou fundo.
        - Garotas, se fosse possvel voltar no tempo, para antes de Ali morrer, voc acham que poderiam impedir o que aconteceu?
        Emily olhou em volta. Suas amigas pareciam to atordoadas com a pergunta quanto ela.
        - Ah, eu tenho certeza de que sim - murmurou Aria baixinho.
        - Claro! - disse Emily.
        - E vocs ainda iriam querer fazer isso? - instigou Hanna. - Ns iramos mesmo querer Ali por perto? Agora que sabemos que ela escondeu o segredo de Toby 
de todas ns e estava se encontrando com Ian e no nos contava nada? Agora que estamos um pouco mais velhas e por fim entendemos que Ali era basicamente uma vaca?
        - Claro que ns iramos quer-la aqui - disse Emily, seca. Mas quando ela olhou em volta, suas amigas encaravam o cho, sem dizer nada.
        - No,  claro que ns no a queramos morta - murmurou Spencer, afinal. Aria concordou com a cabea e observou suas unhas pintadas de roxo.
        Hanna tinha embrulhado parte de seu gesso com uma echarpe Hermes, o que pareceu a Emily ser uma tentativa de deix-lo mais bonito. A outra parte do gesso, 
Emily notou, estava coberta de assinaturas. Todo mundo de Rosewood tinha assinado - havia uma assinatura grande de Noel Kahn; uma assinatura bonitinha da irm de 
Spencer, Melissa; uma de caligrafia pontiaguda do sr. Jennings, o professor de matemtica de Hanna. Algum havia escrito s BEIJOS! no gesso, e o pontinho na exclamao 
era uma carinha sorridente. Emily passou os dedos na palavra como se ela estivesse escrita em braile.
        Depois de mais alguns minutos sem que nada fosse dito, Aria, Emily e Spencer saram do quarto cabisbaixas. Elas ficaram em silncio at alcanarem a rea 
dos elevadores.
        - Que conversa foi aquela dela sobre Ali? - sussurrou Emily.
        -  Hanna teve um sonho com a Ali enquanto estava em coma. - Spencer deu de ombros e apertou o boto para chamar o elevador.
        - Ns temos que fazer Hanna se lembrar do que aconteceu - sussurrou Aria. - Ela sabe quem  A!
        No eram nem oito horas da manh quando elas chegaram ao estacionamento do hospital. Enquanto uma ambulncia passava ao lado delas, o telefone de Spencer 
comeou a tocar As quatro estaes, de Vivaldi. Ela mexeu no bolso, irritada.
        - Quem poderia estar me ligando a esta hora da manh? 
        Ento, o telefone de Aria comeou a tocar tambm. E o de Emily.
        Um vento frio atingiu as meninas em cheio. As bandeirolas com o logotipo do hospital penduradas acima da marquise tremulavam.
        - No. - Spencer engasgou.
        Emily leu a linha de assunto da mensagem. Dizia BEIJOS!, exatamente como estava escrito no gesso de Hanna.
        Sentiram minha falta, suas vacas? Parem de procurar res-
        postas, ou terei que apagar suas memrias tambm. -A
16
UMA NOVA VTIMA
Naquela quarta-feira  tarde, Spencer esperava Mona Vanderwaal no ptio externo do Country Clube de Rosewood para comear o planejamento do baile de mscaras de 
boas-vindas para Hanna. Ela folheava distraidamente as pginas do artigo sobre economia que havia sido indicado para o Orqudea Dourada. Quando ela roubara o trabalho 
de Melissa dos seus antigos arquivos do ensino mdio, Spencer no havia entendido nem metade do que lera... e ela ainda no entendia. Mas como os juzes do Orqudea 
Dourada iriam entrevist-la no caf da manh de sexta-feira, ela havia decidido que ia decorar aquilo, palavra por palavra. No podia ser to difcil assim. Ela 
decorava monlogos inteiros nas aulas de teatro o tempo todo. E mais, ela esperava que essa atividade a fizesse esquecer um pouco de A. 
        Ela fechou os olhos e repetiu com perfeio o primeiro pargrafo. Depois, comeou a pensar na roupa sensacional que iria usar na entrevista do Orqudea Dourada: 
certamente algum Calvin ou Chanel, e talvez ainda usasse um par de culos de armao transparente, que a deixava com ar de intelectual. Quem sabe ela at levasse 
dentro da bolsa o artigo que o Philadelphia Sentinel fizera sobre ela e o deixasse visvel por acaso? Os jurados poderiam v-lo e pensar "Uau, ela j esteve na capa 
de um jornal importante!"
        - Ei! - Mona estava parada ao lado dela, usando um vestido verde-oliva lindo e botas pretas de cano alto. Ela tinha uma enorme bolsa roxa pendurada em seu 
ombro direito e carregava um copo de Jamba Juice.
        - Cheguei cedo demais?
        - No, no, bem na hora. - Spencer tirou os livros da cadeira do outro lado da mesa e enfiou o trabalho de Melissa na bolsa. Sua mo tocou seus celular de 
leve. Ela lutou contra o impulso masoquista de abri-lo e ler de novo a mensagem de A. Parem de procurar respostas. Depois de tudo que tinha acontecido, depois de 
trs dias de silncio, A ainda estava atrs delas. Spencer estava louca para falar com Wilden sobre isso, mas tinha medo de pensar no que A faria se soubesse.
        - Voc est legal? - Mona sentou-se e lanou um olhar preocupado para Spencer.
        - Claro. - Spencer agitou o canudinho em seu copo vazio de Coca Diet, tentando tirar A da cabea. Ela apontou para os livros. -  que eu tenho essa entrevista 
com os jurados por causa de um concurso.  em Nova York. Ento eu estou meio pirada com isso.
        Mona sorriu.
        -  Ah,  mesmo, aquele negcio de Orqudea Dourada, no ?
        Spencer baixou a cabea fingindo modstia. Ela adorava ouvir seu nome nos anncios matinais, menos quando era ela que tinha que ler - porque nesse caso parecia 
que ela estava se exibindo. Ela deu uma boa olhada para Mona. Ela tinha feito um grande trabalho transformando a si mesma, uma esquisitona que andava para l e para 
c numa patinete idiota, em uma verdadeira diva. Mas a verdade  que Spencer nunca a tinha visto como nada alm de uma das meninas que Ali costumava provocar. Essa 
deveria ser a primeira vez que ela falava assim com Mona, cara a cara. 
        Mona ergueu a cabea.
        - Eu vi sua irm em frente  sua casa quando estava indo para a escola hoje de manh. Ela disse que sua foto estava no jornal de domingo.
        - Melissa disse isso a voc? - Spencer arregalou os olhos, sentindo um certo mal-estar. Ela se lembrou do olhar de medo da irm no dia anterior, quando Wilden 
lhe perguntara onde ela estava na noite do desaparecimento de Ali. Do que Melissa tinha medo? O que ser que Melissa estava escondendo?
        Mona piscou, sem entender nada.
        - Sim, ela. Por qu? No  verdade? 
        Spencer sacudiu a cabea devagar.
        - Ah, no,  verdade sim. S estou espantada que Melissa tenha dito alguma coisa bacana sobre mim, s isso.
        - O que voc quer dizer com isso? - perguntou Mona.
        - Bem, ns no somos as melhores amigas do mundo. - Spencer deu uma olhadinha disfarada em torno do ptio do Country Clube, com a estranha certeza de que 
Melissa estava por ali, ouvindo o que elas diziam. - Bom, de qualquer forma - ela emendou -, hum, sobre a festa... Acabo de falar com o gerente do clube, e parece 
que est tudo certo para sexta-feira.
        -  Perfeito. - Mona pegou uma pilha de cartes e os espalhou sobre a mesa. - Esses so os convites que eu consegui. Eles tm formato de mscaras, percebeu? 
So feitos de papel laminado, olha s, d para ver seu reflexo.
        Spencer olhou para seu reflexo meio borrado no convite. Sua pele estava limpa e brilhante, e a maquiagem recm-feita a fazia brilhar. As luzes no cabelo, 
retocadas recentemente, emolduravam seu rosto. Mona vasculhou as paginas de sua agenda Gucci, consultando suas anotaes.
        - Eu tambm acho que para fazermos Hanna se sentir muito especial mesmo devemos fazer com que ela entre no salo de festas como uma princesa. Estou pensando 
em quatro caras lindos, sem camisa, carregando Hanna em uma liteira ornamentada. Bom, ou alguma coisa assim. Eu consegui que uma turma de modelos v visitar Hanna 
amanh, e da ela mesma poder escolher.
        - Isso  incrvel! - Spencer apertou sua agenda Kate Spade. - Hanna tem muita sorte de ter voc como amiga.
        Mona olhou na direo do campo de golfe com cara de arrependimento e suspirou.
        -  Do jeito que as coisas andavam entre ns nos ltimos tempos,  um milagre que Hanna no me odeie.
        -  Do que voc est falando? - Spencer tinha ouvido alguma coisa sobre uma briga entre Hanna e Mona na festa de aniversrio de Mona, mas ela estivera to 
ocupada e distrada que no tinha prestado muita ateno s fofocas.
        Mona respirou fundo e passou seu cabelo louro claro com um gesto para trs das orelhas.
        - Hanna e eu no estvamos nos dando muito bem - admitiu ela. -  que, bem, ela vinha agindo de um jeito muito esquisito. Ns costumvamos fazer tudo juntas 
e, de repente, ela comeou a esconder um monte de coisas de mim, estragando os planos que fazamos e agindo como se me odiasse. - Os olhos de Mona estavam cheio 
de lgrimas.
        Spencer sentiu um bolo na garganta. Ela sabia exatamente como era isso. Antes de desaparecer, Ali tinha feito a mesma coisa com ela.
        - Ela estava passando um tempo com vocs... e eu fiquei um pouco enciumada. - Mona deslizou o dedo indicador pela borda de um prato de po vazio que estava 
sobre a mesa. - Para ser bem franca, eu fiquei passada quando Hanna quis ser minha amiga no oitavo ano. Ela era parte da turma de Ali, e vocs eram uma espcie de 
lenda. Sempre achei que nossa amizade era boa demais para ser verdade.Talvez eu ainda meio que pense isso de vez em quando.
        Spencer olhou para Mona. Era incrvel como a amizade de Mona e Hanna era parecida com a amizade entre ela e Ali - Spencer tambm ficara atnita quando Ali 
a escolhera para fazer parte de seu crculo de amizade.
        - Bem, Hanna estava andando conosco porque ns tnhamos que resolver algumas... coisas do passado - disse ela. - Mas tenho certeza de que ela preferia estar 
com voc.
        Mona mordeu os lbios.
        - Eu fui to m com ela. Pensei que ela estava tentando se livrar de mim, ento eu... eu fiquei na defensiva. Mas quando ela foi atropelada... quando eu 
entendi que ela poderia ter morrido... foi horrvel. Ela foi minha melhor amiga por anos... - Ela cobriu o rosto com as mos. - Eu s quero esquecer tudo o que aconteceu. 
S quero que as coisas voltem ao normal.
        Os penduricalhos da pulseira Tiffany de Mona balanaram soando como sininhos. Ela fez um beicinho, como se fosse comear a soluar. E Spencer foi tomada 
por uma onda de culpa ao se lembrar de como elas costumavam provocar Mona. Ali ria dela, dizendo que ela tinha o bronzeado de um vampiro, e a provocava tambm sobre 
sua altura- Ali costumava dizer que Mona era baixinha o suficiente para fazer a verso feminina do Mini-Me, aquele anozinho do filme Austin Powers. Ali tambm dizia 
que Mona tinha celulite at por dentro. Ela havia visto Mona se trocando no vestirio do Country Clube e dissera que quase tinha vomitado de to feia que ela era. 
Spencer no acreditara nela e por isso, uma vez, quando Ali foi passar a noite na casa dela, elas foram escondidas at a casa de Mona, no final da rua, e a espreitaram 
enquanto ela danava sozinha na frente da televiso sintonizada no VH1.
        - Espero que a saia dela levante - sussurrou Ali -, assim voc vai ver como ela  horrorosa.
        Mas a saia de Mona no levantou. Ela continuou a danar enlouquecida, do mesmo jeito que Spencer danava quando achava que ningum estava olhando. Ento, 
Ali deu uma batidinha na janela. O rosto de Mona ficou vermelho e ela saiu correndo da sala.
        - Tenho certeza de que tudo vai se ajeitar entre voc e Hanna - disse Spencer com delicadeza, tocando o brao magrelo de Mona. - E a ltima coisa que voc 
deve fazer  se culpar.
        - Espero que sim. - Mona deu um sorriso frgil para Spencer. - Obrigada por me escutar.
        A garonete as interrompeu, colocando a capa de couro que envolvia a conta de Spencer sobre a mesa. Spencer abriu e assinou a nota, para que duas Cocas Diet 
fossem descontadas da conta de seu pai. Ficou surpresa quando viu em seu relgio que eram quase cinco horas. Ela se levantou, sentindo-se quase triste, sem querer 
que a conversa acabasse. Quando havia sido a ltima vez em que falara com algum sobre alguma coisa real?
        - Estou atrasada para um ensaio. - Ela respirou fundo. 
        Mona a observou por um momento, e depois olhou para o outro lado do ptio.
        -  Na verdade,  possvel que voc no queira ir embora agora. - Ela fez ento um movimento com a cabea na direo das portas francesas duplas, a cor voltando 
ao seu rosto. -Aquele cara ali no para de olhar para voc.
        Spencer deu uma olhada por cima do ombro. Dois caras usando camisetas polo da Lacoste e com idades suficientes para estar na faculdade, estavam sentados 
numa mesa do canto, entornando garrafas de gim e soda.
        - Qual deles? - murmurou Spencer.
        - O modelo da Hugo Boss. - Mona apontou para o cara com cabelo escuro e maxilares pronunciados. Ela tinha um olhar travesso. - Quer faz-lo perder a cabea?
        - Como? - perguntou Spencer.
        - Exiba-se para ele - sussurrou Mona, fazendo um sinal com a cabea na direo da saia de Spencer.
        Spencer cobriu o colo, timidamente.
        - Ns seramos chutadas daqui!
        - No, no seriamos. - Mona deu um sorriso malicioso. -Aposto que isso vai fazer voc se sentir melhor com toda essa tenso sobre o Orqudea Dourada.  como 
se fosse um relaxamento instantneo.
        Spencer pensou sobre isso um momento.
        - Eu fao se voc fizer tambm. 
        Mona concordou, levantando-se.
        - Quando eu contar trs.
        Spencer ficou em p tambm. Mona limpou a garganta para chamar a ateno deles. Os rapazes viraram as cabeas na direo delas.
        - Um... dois... - contou Mona.
        - Trs! - gritou Spencer.
        Elas ergueram suas saias rapidamente. Spencer estava de calcinha de seda verde Eres e Mona exibiu sua calcinha sexy de renda preta - definitivamente no 
era o tipo de coisa que uma garota que anda de patinete escolheria para vestir. Elas s seguraram as saias no alto por um momento, mas foi o suficiente. O cara de 
cabelos escuros cuspiu a bebida que tinha na boca. O modelo da Hugo Boss parecia que ia desmaiar.
        Spencer e Mona baixaram as saias e caram na gargalhada.
        -  Caramba! - Mona gargalhava sem parar. - Isso foi incrvel!
        O corao de Spencer batia descontroladamente em seu peito. Os dois rapazes ainda olhavam para elas, de boca aberta. 
        -Voc acha que algum mais viu o que fizemos?
        - Mas quem  que liga!? Como se algum fosse nos expulsar daqui!
        O rosto de Spencer queimava, e ela estava lisonjeada que Mona a considerasse to linda de parar o trnsito quanto ela.
        - Agora eu estou mesmo atrasada - murmurou ela. - Mas valeu a pena.
        -  Claro que valeu! - Mona soprou um beijo para ela. - Prometa que vamos fazer isso de novo.
        Spencer concordou com a cabea e soprou um beijo de volta, depois saiu quase correndo na direo do salo principal do clube. Ela no se sentia to bem em 
vrios dias. Com a ajuda de Mona, ela conseguira esquecer A, o Orqudea Dourada e Melissa por trs minutos inteirinhos.
        Mas enquanto ela atravessava o estacionamento, ela sentiu algum tocando seu brao.
        - Espera um pouco.
        Quando Spencer se virou, viu Mona mexendo no colar de diamantes que trazia em volta do pescoo, parecendo aflita. Sua expresso, que antes demonstrava uma 
alegria despreocupada e travessa, agora estava insegura e na defensiva.
        -  Eu sei que voc est superatrasada - disse Mona, com pressa -, e eu no quero incomodar voc, mas tem um negcio acontecendo comigo, e eu preciso mesmo 
falar com algum a respeito. Eu sei que ns no nos conhecemos bem, mas no posso falar sobre isso com Hanna, ela j est com problemas demais. E qualquer outra 
pessoa iria contar para todo mundo na escola.
        Spencer cutucou a borda de um vaso enorme de cermica, interessada.
        - O que foi?
        Mona olhou em volta, cautelosa, como se quisesse ter certeza de que no havia nenhum jogador de golfe vestido de Ralph Lauren dos ps  cabea por perto.
        - Eu venho recebendo umas... mensagens de texto - sussurrou ela.
        Spencer perdeu a audio por um breve momento.
        -  O que foi que voc disse?
        -  Mensagem de texto - repetiu Mona. - Recebi apenas duas, mas elas no tinham uma assinatura de verdade, ento no sei de quem so. E elas diziam... essas 
coisas horrveis sobre mim... - Mona mordeu os lbios. - Estou meio assustada.
        Uma pardal passou voando por elas e pousou no galho de uma macieira. Um cortador de grama fazia barulho ao longe.
        Spencer olhou embasbacada para Mona.
        - Elas so assinados apenas por... A?
        Mona ficou to plida que at suas sardas desapareceram.
        - Ma-mas como voc sabe disso?
        -  Porque... -  Spencer respirou  fundo.  Isso  no   estava acontecendo. Isso no podia estar acontecendo. - Hanna e eu, e Aria, e Emily... todas ns estamos 
recebendo essas mensagens tambm.
17
GATOS AT QUE VOAM
BEM, NO VOAM?
Na tarde da quarta-feira, enquanto Hanna estava jogada em sua cama de hospital - e parece que ficar muito tempo imvel causava escaras, coisa que soava ainda pior 
que acne - ela ouviu uma batida na porta. E no tinha a menor vontade de responder. Estava meio que cansada das suas visitas agitadas, em especial de Spencer, Aria 
e Emily.
        -Vamos nos preparar para a festaaaaa!! - algum gritou. Quatro garotos entraram: Noel Kahn; Mason Byers; o irmo mais novo de Aria, Mike; e a grande surpresa 
do dia, Sean Ackard, o ex-namorado de Hanna e, at onde ela sabia, de Aria tambm.
        - Ei, meninos - Hanna escondeu quase metade do rosto na manta de cashmere cor de aveia que Mona havia trazido de casa para ela, deixando apenas os olhos 
de fora. Segundos depois, Lucas Beattie entrou no quarto, com um grande buqu de flores nas mos.
        Noel deu uma olhada para Lucas e depois olhou para cima.
        - Tentando compensar alguma coisa que fez?
        - O qu? - O rosto de Lucas estava quase todo escondido pelas flores.
        Hanna nunca entendeu por que Lucas estava sempre vindo ao hospital para v-la. Tudo bem, eles haviam sido amigos por, tipo, um minuto na semana passada, 
quando Lucas a levou para passear no balo de seu pai e a deixou desabafar sobre todos os seus problemas. Hanna sabia que ele gostava muito dela - ele dera a entender 
que gostava, abrindo seu corao e entregando-o a Hanna durante a viagem de balo que fizeram juntos.
        Mas depois que recebera pelo correio o vestido da corte para a festa de Mona, Hanna se lembrava claramente de ter mandado uma mensagem bem nojentinha para 
Lucas, dizendo que ela era areia demais para o caminhozinho dele.
        Ela pensou em lembr-lo disso agora, mas... Lucas tinha sido bem til. Ele havia ido at a Sephora para comprar um monte de maquiagem para ela, tinha lido 
a Teen Vogue em voz alta para ela linha por linha, e perturbado os mdicos para que eles o autorizassem a borrifar no quarto um leo de aromaterapia chamado Alegria 
- e tudo isso apenas porque Hanna pedira. Ela meio que gostava de t-lo por perto. Se ela no fosse to popular e fabulosa, ele provavelmente seria um namorado sensacional. 
Ele era at mesmo bonitinho o suficiente para ser seu namorado - mais bonito at que Sean. 
        Hanna deu uma olhadela para Sean.
        Ele estava meio desajeitado, sentado em uma das cadeiras de plstico para visitantes, espiando os cartes de melhoras que Hanna recebera. Visitar Hanna no 
hospital era a cara dele. Ela queria perguntar a ele por que o namoro com Aria tinha terminado, mas subitamente se deu conta de que no se importava.
        Noel olhou com curiosidade para Hanna.
        - Que histria  essa de vu?
        - Os mdicos me disseram para fazer isso - Hanna estreitou a manta em torno de seu pescoo. - Para, bem, evitar os germes. E alm disso reala meus belos 
olhos.
        - E como  ficar em coma? - Noel sentou-se na beirada da cama de Hanna, abraando uma tartaruga de pelcia que a tia e o tio dela haviam trazido no dia anterior. 
-  tipo uma viagem realmente longa de cido?
        - E agora eles do maconha medicinal para voc? - perguntou Mike, cheio de esperana, seus olhos azuis brilhando. - Aposto que o hospital esconde pedras!
        - No, aposto que eles do plulas para a dor. - Os pais de Mason eram mdicos, ento ele sempre exibia seu conhecimento sobre a rea. - Pacientes de 
hospital costumam ficar numa boa.
        - As enfermeiras so gostosas? - balbuciou Mike. - Elas tiram a roupa para voc?
        - Voc est nua debaixo dessa manta? Deixa a gente dar uma olhada.
        -  Caras! - Lucas deu um grito horrorizado. Os garotos olharam para ele e fizeram cara de quem estava de saco cheio (todos menos Sean, que parecia quase 
to incomodado quanto Lucas). Era bem provvel que Sean ainda estivesse no Clube da Virgindade, pensou Hanna, escondendo um sorriso.
        - Tudo bem - falou Hanna. - Eu aguento as brincadeiras. Era animador ter meninos por ali, fazendo comentrios inapropriados. Todas as outras pessoas que 
a visitavam eram to srias. Quando os meninos se amontoaram em volta dela para assinar em seu gesso, ela se lembrou de uma coisa e se ajeitou na cama. - Meninos, 
vocs iro  minha festa de boas-vindas na sexta-feira, certo? Spencer e Mona esto organizando tudo, ento tenho certeza que vai ser uma festa sensacional.
        - No perderia por nada. - Noel deu uma olhada para Mason e Mike, que estavam olhando pela janela, conversando sobre quais membros quebrariam se pulassem 
da janela do quarto de Hanna, do quinto andar. - Afinal, o que foi que aconteceu entre voc e a Mona? - perguntou Noel.
        - Nada - disse Hanna. - Por qu? 
        Noel tampou a caneta.
        - Porque vocs duas pareciam duas gatinhas briguentas durante a festa dela. Fssst!
        - Parecamos? - perguntou Hanna, sem entender nada. Lucas tossiu sem jeito.
        -  Noel, no foi nada fssst! - Mona entrou no quarto. Ela soprou beijinhos para Noel, Mason e Mike, deu um sorriso amarelo para Sean e jogou uma agenda enorme 
aos ps da cama de Hanna. Ela ignorou Lucas completamente. - Foi s rabugice entre melhores amigas.
        Noel deu de ombros. Ele se juntou aos outros meninos perto da janela e comeou uma luta de dedos com Mason. 
        Mona fez uma careta.
        - Ento, Han, olha s, eu acabei de falar com a Spencer e ns fizemos uma lista com as coisas mais importantes para a festa. E eu quero repassar os detalhes 
com voc. - Ela abriu sua agenda azul da Tiffany. - Voc, claro, tem a palavra final - ela lambeu o dedo e virou a pgina. - Tudo bem, vamos l. Guardanapos ros 
ou marfim?
        Hanna tentou se concentrar, mas as palavras de Noel ainda ecoavam em sua cabea. Fssst?
        - Qual foi o motivo da nossa briga?
        Mona fez uma pausa, colocando a agenda no colo.
        - Falando srio, Han, no foi nada.Voc se lembra que ns brigamos uma semana antes? Sobre o avio que escrevia no cu com fumaa? Naomi e Riley?
        Hanna concordou com a cabea. Mona tinha pedido a Naomi Zeigler e Riley Wolfe, suas maiores rivais, para tomarem parte na corte de sua festa de dezessete 
anos. Hanna suspeitava que isso fosse uma retaliao, por Hanna ter estragado a comemorao delas em seu Amiganiversrio.
        - Bem, voc estava coberta de razo - disse Mona. - Aquelas duas eram umas sacanas de marca maior. Eu lamento t-las deixado ficar to ntimas, Han.
        -Tudo bem - disse Hanna com um fiapo de voz, sentindo-se um pouco melhor.
        -  Bem, ento, vamos l. - Mona pegou dois recortes de revistas. Um deles era um vestido branco, longo e plissado, com uma rosa de seda aplicada nas costas. 
O outro recorte era de um vestido todo estampado de saia bem curta. -Voc prefere o vestido para noite Phillip Lim ou o sexy minivestido Nieves Lavi?
        -  Prefiro o Nieves Lavi - respondeu Hanna. - Tem gola canoa e  curto, ento mostra bastante das minhas pernas e no destaca meu pescoo e meu rosto. - 
Ela puxou a manta at os olhos de novo.
        - Falando nisso - arrulhou Mona -, olha o que eu achei para voc!
        Ela pegou sua bolsa creme Cynthia Rowley e tirou de l uma delicada mscara de porcelana. Tinha o formato de um rosto feminino bonito, com mas altas, lbios 
cheios bem desenhados e um narizinho que faria a fortuna de qualquer cirurgio plstico. Era to linda e detalhada que parecia quase real.
        - Mscaras exatamente iguais a esta foram usadas nos desfiles Dior dos ltimos anos. - Mona tomou flego. - Minha me conhece algum do setor da empresa 
em Nova York que cuida das relaes-pblicas da Casa Dior, e ns mandamos algum l hoje de manh.
        - Ah, meu Deus. - Hanna se esticou e tocou a borda da mscara. Parecia com algo entre a pele macia de um beb e cetim.
        Mona segurou a mscara sobre o rosto de Hanna, que ainda estava meio coberto pela manta.
        -Vai cobrir todos os hematomas. Voc vai ser a garota mais linda da festa.
        - Hanna j  linda - Lucas se meteu na conversa, dando a volta nos equipamentos mdicos. - Mesmo sem mscara nenhuma.
        Mona fez uma careta horrvel, como se Lucas tivesse acabado de dizer a ela que ia aferir sua temperatura pelo mtodo veterinrio.
        - Ah, Lucas - disse ela, fria -, eu no tinha visto voc a.
        - Estava aqui o tempo todo - disse ele, sarcstico.
        Os dois se encararam com cara de poucos amigos. Hanna percebeu algo na expresso de Mona que a deixou apreensiva. Mas num piscar de olhos, tinha desaparecido.
        Mona colocou a mscara contra o vaso de flores, e era como se ele estivesse olhando diretamente para Hanna.
        - Essa vai ser a festa do ano, Han. Mal posso esperar.
        Dito isso, soprou um beijinho para a amiga e saiu gingando do quarto. Noel, Mason, Sean e Mike saram logo atrs dela, avisando a Hanna que voltariam no 
dia seguinte e que era melhor que ela dividisse um pouco de sua maconha medicinal com eles.
        Apenas Lucas permaneceu no quarto, encostado na parede, perto de um pster que mostrava um campo de dentes-de-leo inspirado em Monet que deveria ter um 
efeito calmante. Ele tinha uma expresso inquieta no rosto.
        - Bom, sabe aquele policial, Wilden? Ele me fez algumas perguntas sobre essa histria toda de atropelamento e fuga, enquanto ns estvamos esperando voc 
acordar do coma - disse ele, calmamente, sentando-se na cadeira laranja perto da cama de Hanna. - Ele perguntou coisas como... se eu tinha visto voc na noite em 
que tudo aconteceu. Parecia que ele no acreditava que o atropelamento que voc sofreu foi um acidente. Lucas engoliu em seco e encarou Hanna. -Voc no acha que 
possa ter sido a mesma pessoa que manda aquelas mensagens esquisitas para voc, acha?
        Hanna ficou paralisada. Ela tinha esquecido que contara a Lucas sobre as mensagens quando eles fizeram o passeio de balo. Seu corao disparou.
        - Diz que voc no contou nada disso para o Wilden.
        -  Claro que no - garantiu Lucas a ela. - Estou s... s preocupado com voc.  to assustador que algum tenha atropelado voc...  isso.
        - No se preocupe com isso - interrompeu-o Hanna, cruzando os braos sobre o peito. - E, por favor, por favoooor, no diga nem uma palavras a Wilden sobre 
isso, pode ser?
        - Tudo bem - disse Lucas. - Claro.
        - timo - grunhiu Hanna. Ela tomou um grande gole do copo d'gua que estava prximo  cama dela. Sempre que ela ousava aceitar a verdade, que A a havia atropelado, 
sua mente se fechava, recusando-se a deix-la pensar nisso de forma mais profunda. - Ento, no  bacana que Mona esteja bolando uma festa para mim? - perguntou 
Hanna propositalmente tentando mudar de assunto. - Ela tem sido uma amiga maravilhosa. Todos me dizem isso.
        Lucas brincava com o fecho de seu relgio Nike.
        - No estou muito certo de que voc deveria confiar nela - murmurou ele.
        Hanna ergueu uma sobrancelha.
        - Do que  que voc est falando? 
        Lucas hesitou por alguns segundos.
        -Vamos l - disse Hanna, irritada. - O que foi?
        Lucas esticou o brao e puxou a manta de cima de Hanna, expondo o rosto dela. Ele pegou seu rosto nas mos e a beijou. A boca de Lucas era macia e quente 
e encaixava-se perfeitamente na dela. Um arrepio percorreu a coluna de Hanna.
        Quando Lucas se afastou dela, eles ficaram se olhando por sete longos bips da mquina de eletrocardiograma de Hanna, que respirava com dificuldade.
        Hanna tinha certeza de que a expresso em seu rosto era de puro espanto.
        - Voc se lembra disso? - perguntou Lucas de olhos bem abertos.
        Hanna franziu a testa.
        - Lembrar... do qu?
        Lucas a encarou por um longo tempo, seus olhos indo de um ponto a outro do rosto dela. E ento ele lhe deu as costas.
        - Eu... eu preciso ir embora - murmurou Lucas, parecendo constrangido, e saiu de repente do quarto.
        Hanna ficou olhando para o vazio, os lbios machucados ainda formigando por causa do beijo.
        O que tinha acabado de acontecer?
18
E AGORA, SE APRESENTANDO PELA
PRIMEIRA VEZ EM ROSEWOOD:
JESSICA MONTGOMERY
Na mesma tarde, Aria estava do lado de fora do prdio de artes da Universidade de Hollis, olhando para um grupo de garotos lutando capoeira no gramado. Aria nunca 
entendera capoeira. Seu irmo descrevia aqueles movimentos melhor que ela, dizendo que parecia menos com a capoeira brasileira e mais com um bando de gente querendo 
cheirar os traseiros uns dos outros ou fazer xixi uns nos outros, como cachorros.
        Ela sentiu algum colocar a mo magra e fria em seu ombro.
        - Voc veio para a aula de artes? - sussurrou uma voz no ouvido de Aria.
        Aria ficou toda tensa.
        - Meredith.
        Hoje, Meredith vestia um blazer de risca de giz e Jeans rasgados, e trazia uma mochila verde-exrcito pendurada no ombro. A forma como ela encarava Aria 
fez com que a menina se sentisse uma formiguinha, focalizada pelos culos chiqurrimos de Meredith.
        - Voc est fazendo aulas de artes, no est? - perguntou Meredith. Quando Aria concordou com a cabea feito uma tonta, Meredith consultou o relgio. - Voc 
precisa correr. Sua aula comea em cinco minutos.
        Aria se sentiu encurralada. Ela vinha pensado seriamente em matar aquela aula - a ltima coisa de que precisava neste momento era passar duas horas inteirinhas 
com Jenna Cavanaugh. V-la naquele outro dia trouxera  tona toda espcie de lembrana desconfortvel. Mas Aria sabia muito bem que Meredith contaria tudo para Byron, 
e que Byron lhe passaria um sermo sobre como isso no era nada legal da parte dela, dar as costas e desprezar o presente to generoso de Meredith. Aria colocou 
sua malha em volta dos ombros.
        -Voc vai me acompanhar at l em cima?
        Meredith pareceu surpresa.
        - Na verdade... eu no posso. Tenho outra coisa para fazer. Uma coisa... importante.
        Aria desviou o olhar. Ela no estava falando srio, mas Meredith olhava para os lados com cara de quem estava mesmo escondendo um grande segredo. Um pensamento 
terrvel ocorreu a Aria: e se Meredith estivesse fazendo alguma coisa secreta que tivesse a ver com seu casamento? E ento, mesmo Aria no querendo imaginar de jeito 
nenhum, nenhum mesmo, Meredith e seu pai de frente um para o outro em algum altar, fazendo votos matrimoniais um para o outro, essa imagem odiosa invadiu seus pensamentos.
        Sem nem ao menos se despedir, Aria deu as costas a Meredith e subiu os degraus do prdio, dois de cada vez. L em cima, Sabrina j ia comear a dar suas 
instrues sobre como os artistas deviam encontrar suas mesas de trabalho. O exerccio proposto era uma espcie de dana das cadeiras, e quando a musica parou, Aria 
no tinha achado um lugar para trabalhar. A nica mesa desocupada... ficava ao lado de uma menina que segurava uma bengala e que tinha um enorme golden retriever 
aos seus ps.  claro.
        Pareceu que os olhos de Jenna seguiram Aria, que batia o salto de seus sapatinhos chineses no cho de madeira na direo de sua mesa de trabalho. O co de 
Jenna olhou para Aria, animadinho, quando ela passou por eles. Jenna estava usando uma blusa preta decotada que deixava seu suti com lacinho preto aparecer um pouquinho. 
Se Mike estivesse ali, era bem provvel que ele adorasse Jenna s porque podia olhar seus peitos sem que ela soubesse disso. Quando Aria se sentou, Jenna ergueu 
a cabea e chegou mais perto dela.
        - Qual  seu nome?
        -  ... Jessica - disse Aria sem pensar, antes de conseguir evitar. Ela deu uma olhada para Sabrina que estava l na frente da sala. Metade do tempo, professores 
de arte desses cursos breves nem se davam ao trabalho de decorar os nomes dos alunos, e ela esperava do fundo do corao que Meredith no tivesse pedido a Sabrina 
que a procurasse em sua turma.
        -  Eu sou Jenna. - Ela estendeu a mo e Aria a cumprimentou. Depois disso, Aria se virou rapidinho, perguntando-se como, em nome de Deus, ela iria conseguir 
assistir ao resto da aula. Aria tivera uma nova lembrana de Jenna naquela manh, enquanto tomava caf na cozinha esquizofrnica de Meredith, provavelmente causada 
pelos bonecos dos personagens do jogo de RPG,WoW, que observavam a todos no alto da geladeira. Aria, Ali e as outras meninas costumavam chamar Jenna de Jenna de 
Neve, como a Branca de Neve do desenho da Disney.
        Certa vez, a turma dela na escola tinha ido a Longwood Orchards apanhar mas. Ali sugeriu que elas molhassem uma ma numa das privadas dos banheiros imundos 
do parque e dessem para Jenna, como a bruxa m do desenho tinha dado uma ma envenenada para a Branca de Neve.
        Ali disse que Aria deveria dar a ma para Jenna - era a cara dela obrigar as outras a fazerem seu servio sujo.
        - Essa ma  especial - Aria dissera a Jenna, estendendo a fruta para a menina, enquanto ouvia as risadinhas de Ali atrs de si. - O fazendeiro me disse 
que vem da rvore que d as mas mais doces. E eu quero que voc fique com ela.
        Jenna pareceu ao mesmo tempo surpresa e emocionada! Assim que ela deu uma mordida grande e suculenta na fruta, Ali gritou:
        -Voc acaba de comer uma ma com xixi! E agora voc tem bafo de privada!
        Jenna parara de mastigar, cuspindo a ma.
        Aria expulsou a lembrana de sua cabea e se deu conta de que havia alguns trabalhos de pintura a leo empilhados na mesa de trabalho de Jenna. Eram retratos, 
mostravam pessoas definidas por pinceladas cheias de energia e cores vibrantes.
        - Foi voc quem pintou estes? - perguntou ela a Jenna.
        -  O material sobre a minha mesa? - Jenna perguntou de volta, pousando as mos no colo. - Sim, fui eu. Eu estava contando a Sabrina sobre meu trabalho, e 
ela quis v-lo. Pode ser que ela queira exibi-los em alguma galeria.
        Aria fechou os punhos com fora. Ser que esse dia ainda poderia piorar!? Como diabos Jenna conseguira uma exibio individual em uma galeria? Como, como, 
como Jenna conseguiria pintar se nem ao menos conseguia enxergar?
        Na frente da classe, Sabrina disse aos alunos que pegassem um saco de gesso, tiras de jornal e um balde vazio. Jenna tentou pegar tudo sozinha, mas no fim, 
Sabrina teve que carregar as coisas para ela. Aria notou que todos os alunos estavam olhando para Jenna pelo canto dos olhos, com medo que, se olhassem muito abertamente, 
algum os criticasse por isso.
        Quando todos estavam de volta a suas mesas, Sabrina limpou a garganta.
        - Tudo bem. Na ltima aula, ns conversamos sobre "enxergar" as coisas com o tato. Agora, ns vamos fazer algo parecido. Vamos fazer mscaras a partir dos 
rostos uns dos outros. Todos ns usamos mscaras de um jeito ou de outro pela vida, no  assim? Todos ns fingimos. Talvez voc descubra, quando vir um molde feito 
a partir do seu rosto, que voc no  exatamente do jeito que se imagina.
        - Eu j fiz isso uma vez - sussurrou Jenna no ouvido de Aria. -  muito divertido, sabe? Quer trabalhar nesse projeto comigo? Eu mostro a voc como se faz.
        Aria queria pular pela janela da sala de aula. Mas, em vez disso, concordou com a cabea para depois dar-se conta que Jenna no podia ver o movimento, ento 
disse:
        - Claro, vamos l.
        - Eu vou fazer primeiro.
        Quando Jenna se virou para pegar alguma coisa, algo em seu bolso emitiu um som. Ela puxou um celular LG bem fininho, que tinha um teclado dobrvel e o ergueu, 
mostrando-o para Aria, como se soubesse que ela estaria observando.
        - Ele tem um teclado que  ativado pela voz, assim eu posso enviar mensagens de texto.
        -Voc no tem medo de suj-lo com p de gesso? - perguntou Aria.
        - Se isso acontecer, posso lav-lo. Ele   prova d'gua. Eu adoro esse celular, e o trago sempre comigo.
        Aria recortou as tiras de jornal para Jenna, porque teve medo de ela se machucar com as tesouras.
        - Bem, e ento, que escola voc frequenta? - perguntou Jenna.
        - Ah... Rosewood High - Aria deu o nome do colgio pblico da cidade, em vez de revelar a escola que ela realmente frequentava.
        - Que legal - respondeu Jenna. - E essa  a primeira vez. que voc faz aulas de arte?
        Aria ficou paralisada. Ela tinha aulas de artes desde antes de aprender a ler, mas teve que baixar a bola. Ela no era mais Aria - ela era Jessica agora. 
Quem quer que fosse Jessica.
        - . Pois .  sim,  minha primeira aula. - Aria se atrapalhou um pouco ao responder, tentando inventar uma personagem enquanto falava com Jenna. -  uma 
coisa muito diferente do que estou acostumada a fazer, entende? Eu geralmente sou mais de praticar esportes, sabe, como por exemplo hquei.
        Jenna encheu sua vasilha de gua.
        - Em que posio voc joga?
        -Ah... em todas - murmurou Aria. Certa vez, Ali tentara ensinar a ela sobre hquei, mas desistira da lio depois de cinco minutos. Ela dissera que Aria 
corria como uma gorila grvida. Aria se perguntava o que  que tinha dentro da sua maldita cabea para inventar justo uma tpica menina de Rosewood, o tipo de garota 
que ela sempre se esforara ao mximo para no ser, como seu alter ego.
        -  Bem, eu acho muito bacana que voc esteja tentando alguma coisa nova - murmurou Jenna, misturando a gua e o p de gesso. - A nica vez que as meninas 
que jogavam hquei na minha antiga escola tentavam alguma coisa nova, era quando iam comprar roupas na loja de algum costureiro novo sobre o qual tinham lido na 
Vogue. - Ela riu com sarcasmo.
        - Havia jogadoras de hquei na sua escola na Filadfia? - perguntou Aria, pensando que ela se referia  escola para cegos para onde seus pais a mandaram 
depois do acidente.
        -Ah... como  que voc sabe que eu frequentei uma escola na Filadlfia?
        Aria enfiou as unhas nas palmas de duas mos. O que ela ia dizer agora, meu Deus, que ela havia lhe dado uma ma envenenada no sexto ano? Que ela meio que 
estivera envolvida na morte de seu meio-irmo algumas semanas atrs? Que ela a cegara e arruinara completamente a sua vida?
        - Ah, foi s um chute.
        - Bem, eu quis dizer a minha escola antes dessa escola que frequentei na Filadlfia. Fica aqui perto, alis. Chama-se Rosewood Day.Voc conhece?
        - , j ouvi falar - murmurou Aria.
        -  Eu vou voltar para l na prxima sexta-feira. - Jenna mergulhou uma tira de jornal na mistura de gesso e gua. -Mas ainda no sei muito bem como me sinto 
em relao a isso. Todo mundo naquela escola  to perfeito. Se voc no estiver envolvido no tipo certo de atividades ou andando com as pessoas certas, voc  um 
z-ningum. - Ela balanou a cabea. - Desculpe. Tenho certeza que voc no faz nem ideia do que eu estou falando.
        - No! Eu concordo plenamente! - protestou Aria.
        Ela mesma no colocaria a questo de forma mais sucinta. E Aria teve um pensamento malvado. Jenna era bonita: alta, graciosa, descolada e boa artista. Muito 
boa artista, na verdade - se ela fosse mesmo para Rosewood Day, era bem provvel que Aria no fosse mais a melhor artista da escola. E se Jenna no tivesse sofrido 
aquele acidente, quem sabe no que ela poderia ter se tornado? De repente, o desejo de contar a Jenna quem realmente era e como sentia muito, muito mesmo, por todas 
as coisas horrveis que havia feito com as outras meninas contra ela, deixou Aria to enojada de si mesma que ela teve que usar de toda a sua fora de vontade para 
manter a boca fechada.
        Jenna chegou mais perto dela. Ela cheirava a glac, de bolo.
        - Fica bem quietinha - instruiu Jenna, enquanto localizava o rosto da menina e aplicava as tiras gosmentas sobre ele. Elas estavam molhadas e frias, mas 
logo comearam a endurecer, tomando os contornos do rosto de Aria.
        -  E a, voc acha que vai usar essa mscara para alguma coisa alm da aula? - perguntou Jenna. - Tipo, Halloween?
        - Minha amiga vai dar um baile de mscaras - respondeu Aria, para em seguida se perguntar se ela no estava contando coisas demais. - E  provvel que eu 
use a mscara l.
        - Isso  timo - disse Jenna. -Vou levar a minha comigo para Veneza. Meus pais vo me levar para l no prximo ms, e eu vou us-la na capital mundial das 
mscaras!
        - Eu adoro Veneza! -Aria quase gritou. -J estive l com meus pais quatro vezes!
        - Uau! -Jenna colocou mais tiras de papel empapado sobre a testa de Aria. - Quatro vezes? Sua famlia deve adorar viajar.
        - Bem, ns costumvamos gostar - disse Aria, tentando no mexer demais o rosto.
        - O que voc quer dizer com costumvamos? - Jenna comeou a cobrir as bochechas de Aria.
        Aria tentava no contrair o rosto - as tiras de jornal estavam comeando a endurecer e ela sentia coceira. Bem, ela podia contar isso para Jenna, certo? 
No era como se Jenna soubesse alguma coisa sobre sua famlia.
        - Bom,  que meus pais esto... eu no sei. Eles esto se divorciando, eu acho. Meu pai tem essa namorada, uma garota que d aula de artes na Hollis. Eu 
estou morando com eles agora. Ela me odeia.
        - E voc a odeia tambm? - perguntou Jenna.
        - Ah, odeio - disse Aria. - Ela est controlando a vida do meu pai. Ela o obriga a tomar vitaminas, a fazer ioga. E ela est convencida de que tem infeco 
estomacal, mas para mim ela parece bem. - Aria mordeu o lado de dentro da sua boca com fora. Ela desejava que a suposta infeco estomacal de Meredith fosse mortal. 
Assim, ela no teria que passar os prximos meses tentando imaginar maneiras de impedi-la de se casar com Byron.
        - Bem, pelo menos ela se importa com ele. -Jenna fez uma pausa, depois deu um meio sorriso. - Posso perceber que voc est franzindo a testa, mas todas as 
famlias tm seus problemas. A minha certamente tem os dela.
        Aria tentou no fazer mais nenhum movimento facial que indicasse como ela se sentia.
        - Mas talvez voc devesse dar uma chance para essa moa - continuou Jenna. - Bem, pelo menos ela  uma artista, no ?
        O corao de Aria parou. Ela no conseguia controlar os msculos em torno de sua boca.
        - Como  que voc sabe que ela  uma artista?
        Jenna parou de se mexer. Um pouco de mistura de gesso escorreu de suas mos e pingou no cho.
        -Voc me disse, no disse?
        Aria se sentiu meio tonta. Ela tinha dito? Jenna colocou mais tiras de jornal sobre as bochechas de Aria. Conforme ela movia as mos do centro de seu rosto 
em direo ao queixo, testa e narina, Aria se deu conta de algo. Se Jenna podia perceber quando franzia a testa, Jenna tambm era capaz de sentir outras partes de 
seu rosto. Ela era capaz, portanto de sentir como era a aparncia de Aria. E ento, ela ergueu os olhos, No rosto de Jenna havia um olhar desconfortvel e surpreso, 
como se ela tambm tivesse acabado de se dar conta de alguma coisa.
        A sala pareceu pegajosa e quente.
        - Eu tenho que... -Aria se levantou e cambaleou, desastrada, dando a volta em sua mesa de trabalho e quase derrubando o balde de gua que nem usara ao tropear 
nele.
        - Aonde voc vai? -Jenna chamou-a de volta.
        Tudo o que Aria precisava era sair dali por alguns minutos. Mas, enquanto ia em direo  porta meio desnorteada, com a mscara grudada firmemente em seu 
rosto, seu Treo fez um bip. Ela procurou por ele em sua bolsa, e o abriu com cuidado para no encher o teclado de gesso. Tinha recebido uma nova mensagem.
         um horror quando a gente est no escuro, no ? Ima-
        gine como os cegos devem se sentir! Se voc contar a
        QUEM QUER QUE SEJA o que eu fiz, eu vou escurecer as 
        coisas para voc tambm. Mwah! - A.
        Aria deu uma olhada para Jenna. Ela estava sentada em frente a sua mesa de trabalho, mexendo em seu celular, sem se dar conta de seus dedos cobertos de gesso. 
Outro bip de seu prprio celular a assustou. Ela baixou os olhos de volta para a tela. Outra mensagem de texto havia chegado.
        P.S. Sua futura madrasta tinha uma identidade secreta exa-
        tamente como voc! Quer saber mais a respeito? V ao 
        Hooters amanh. - A
19
MENTES CURIOSAS QUEREM SABER
Na quinta-feira de manh, enquanto Emily saa de um dos boxes individuais do vestirio de ginstica, vestindo uma camiseta branca de acordo com o regulamento do 
Rosewood Day, agasalho com capuz, e seu short azul de ginstica, ela ouviu um anncio pelo sistema de alto-falantes da escola.
        - Ol pessoal! - a voz de um garoto jovial e um pouco entusiasmando demais saiu das caixas de som. - Quem fala  Andrew Campbell, o representante de classe, 
e eu s estou aqui para lembrar a vocs que a festa de boas-vindas de Hanna Marin  amanh  noite no Country Clube do Rosewood! Por favor, compaream e venham mascarados. 
S entra quem estiver usando mscara! Alm disso, peo a todos que mandem boas vibraes para Spencer Hastings. Ela vai a Nova York hoje  noite, para a entrevista 
dos finalistas do prmio Orqudea Dourada! Boa sorte, Spencer!
        Vrias garotas no vestirio gemeram. Sempre havia pelo menos um anncio sobre Spencer Hastings. Emily estava achando bem estranho, porm, que Spencer no 
tivesse feito nenhuma meno sobre a viagem para a entrevista do Orqudea Dourada quando estiveram todas juntas no hospital visitando Hanna. Spencer costumava se 
gabar at demais de todas as suas conquistas.
        Quando Emily passou em frente ao enorme quadro de avisos em formato de um tubaro-martelo, o mascote do Rosewood, e entrou no ginsio, ela ouviu gritos de 
urra e aplausos. Parecia que ela tinha acabado de entrar em sua prpria festa surpresa.
        - Nossa garota preferida voltou! - gritou Mike Montgomery, parado embaixo da cesta de basquete. E, pelo jeito, todos os calouros da turma mista de ginstica 
de Emily estavam reunidos logo atrs dele.
        - Ento, quer dizer que voc estava tirando umas feriazinhas, certo?
        -  O qu!? - Emily olhava de um lado para o outro. Mike estava sendo superespalhafatoso.
        - Bom, voc sabe - Mike continuou instigando, e sua carinha de elfo era quase o reflexo do rosto de Aria -, voc estava na Tailndia, ou sei l... - Havia 
um sorriso sonhador no rosto dele.
        Emily franziu o nariz.
        - Eu estava em Iowa.
        - Ah... - Mike parecia confuso. - Bom, Iowa tambm  bem legal. Tem um monte de ordenhadoras de vacas l, no tem? - Ele piscou para ela, como se ordenhadoras 
e atrizes porn fossem a mesma coisa.
        Emily queria dizer alguma coisa, mas desistiu. Ela tinha certeza de que Mike no a estava zoando por maldade. Os outros meninos da gangue de calouros engasgaram, 
olhando para Emily como se ela fosse Angelina Jolie e Mike fosse o nico com coragem o suficiente para pedir seu e-mail.
        O sr. Draznowsky, o professor de ginstica, soprou seu apito. Os alunos se sentaram no cho de pernas cruzadas, reunidos em times, batendo papo antes de 
a aula comear de verdade. O sr. Draznowsky formou uma fila e mandou que se alongassem. Depois disso, todos se dirigiram para as quadras de tnis. Enquanto Emily 
escolhia uma raquete Wilson do estoque de equipamentos da escola, ela ouviu algum atrs dela sussurrar:
        - Pssst!
        Maya estava ao lado de uma caixa cheia de bolas Bosu, crculos mgicos de Pilates e outros equipamentos que as meninas viciadas em exerccios usavam durante 
seu tempo livre.
        - Oi! - guinchou ela, ruborizando de alegria.
        Emily caiu nos braos de Maya, sentindo seu cheiro familiar de chiclete de banana.
        - O que voc est fazendo aqui!?
        - Eu escapei da aula de lgebra III para ver voc - sussurrou Maya. Ela ergueu uma plaquinha de madeira, um passe de corredor em formato de pi, que significava 
que o professor a autorizara a sair. - Quando foi que voc chegou? O que aconteceu? Voc veio para ficar?
        Emily hesitou. Ela estava em Rosewood j havia um dia, mas no dia anterior tinha sido tudo to corrido - a visita a Hanna no hospital, depois o torpedo de 
A, depois as aulas e o treino de natao e o tempo que passara com seus pais - que ela no havia tido tempo de falar com Maya. Ela tinha visto Maya nos corredores 
da escola, mas se escondera numa sala vazia e esperara at que ela tivesse se afastado. E no sabia explicar muito bem o porqu disso. No era como se ela estivesse 
se escondendo de Maya nem nada assim.
        - No faz tanto tempo assim que eu voltei - ela se explicou. - E eu voltei para ficar. Espero.
        As portas para as quadras de tnis bateram com fora. Emily olhou para elas com ansiedade. Quando ela sasse, todo mundo da aula de educao fsica j teria 
escolhido um parceiro para o jogo. Ela teria que bater bola com o sr. Darznowsky, que por ser tambm educador sexual, gostava de fazer discursinhos chatos sobre 
mtodos anticoncepcionais. Mas ento, Emily sacudiu a cabea como se sasse de um sono pesado. Qual era o problema com ela? Por que ela estava preocupada com uma 
aula idiota de educao fsica quando podia estar com Maya?
        Ela deu meia-volta.
        - Meus pais deram uma volta de cento e oitenta graus. Eles ficaram to preocupados com o que pudesse ter acontecido comigo depois que fugi da casa dos meus 
tios que decidiram me aceitar do jeito que eu sou.
        Maya arregalou os olhos.
        - Isso  incrvel! - Ela agarrou as mos de Emily. - Mas o que foi que aconteceu na fazenda de seus tios? Eles foram maus com voc?
        - Mais ou menos isso... - Emily fechou os olhos, vendo os rostos de Helene e Allen. Depois, ela pensou nela e em Trista danando quadrilha na festa. Trista 
tinha dito a Emily que, se fosse uma dana, ela seria a quadrilha. Talvez ela devesse confessar a Maya tudo o que acontecera com Trista... s que, srio, o que havia 
mesmo acontecido? Nada, na verdade. Era melhor esquecer a coisa toda. -  uma longa histria.
        -Voc vai ter que me contar os detalhes depois, agora que ns no temos mais que nos esconder! - Maya deu pulinhos de felicidade, depois olhou para o enorme 
relgio no placar da quadra. - Eu tenho que voltar para a aula - sussurrou ela. - Podemos nos encontrar essa noite?
        Emily hesitou, dando-se conta de que essa era a primeira vez que ela podia dizer sim para Maya sem ter que agir escondido de seus pais. Mas ento ela se 
lembrou:
        - Eu no posso. Vou jantar fora com minha famlia. 
        Maya ficou desolada.
        - Amanh, ento? Podemos ir juntas  festa de Hanna!
        - Tu-tudo bem - gaguejou Emily. - Isso vai ser timo. 
        -Ah! Outra coisa! Eu tenho uma surpresa muito legal para voc! - Maya estava animadssima. - Scott Chin, sabe, o fotgrafo do Livro do Ano? Ele est na minha 
turma de histria e me disse que voc e eu fomos eleitas como o casal do ano! No  engraado?
        - Ah... casal do ano? - repetiu Emily. Sua boca estava seca. 
        Maya pegou as mos de Emily e as balanou.
        - Ns temos uma sesso de fotos marcada para amanh, l na sala do anurio. No  uma graa?
        -   sim. - Emily torceu a barra de sua camiseta com a mo.
        Maya inclinou a cabea.
        - Tem certeza que voc est bem? Voc no parece muito entusiasmada.
        - Ah, no, eu estou sim. Muito mesmo... - No momento em que Emily respirou fundo para contar tudo a Maya, seu celular vibrou em seu bolso, fazendo seu corpo 
estremecer. Ela deu um pulinho e pegou o celular com o corao acelerado.
        O texto na tela dizia:
        1  nova mensagem
        Quando pressionou LER e viu quem assinava a mensagem, seu estmago se contraiu por uma razo diferente. Ela fechou o telefone sem ler a mensagem.
        - Era alguma coisa legal? - perguntou Maya, o que Emily considerou bisbilhotice.
        - No. - Emily enfiou o telefone no bolso de novo. 
        Maya trocou o passe de corredor em formato de pi de mo. Deu um beijinho rpido no rosto de Emily e saiu correndo do ginsio, o que fez com que suas botas 
de salto alto cor de areia fizessem barulho no cho de madeira.
        Assim que Maya desapareceu no corredor, Emily pegou o telefone de novo, respirou fundo e olhou para a tela novamente.
        Ei, Emily!
        Acabo de saber que voc FOI EMBORA! 
        Vou mesmo sentir muita saudade de voc. Onde  que 
        voc mora na Pensilvnia? Se voc fosse uma figura hist-
        rica famosa da Filadfia, quem voc seria? Eu seria aquele 
        carinha das caixas de aveia... Ele conta como figura hist-
        rica, no conta?
        Quem sabe eu no vou visitar voc a? 
        Beijinhos, 
        Trista
        O sistema de aquecimento central do ginsio comeou a funcionar, fazendo barulho. Emily fechou o telefone e, depois de uma pausa, desligou o celular. Anos 
atrs, antes de Emily ter beijado Ali na casa da rvore no terreno dos DiLaurentis, Ali havia confessado que estava se encontrando em segredo com um menino mais 
velho. Ela nunca dissera o nome dele, mas Emily agora percebia que ela devia estar falando de Ian Thomas. Ali tinha tomado as mos de Emily, tonta de felicidade.
        - Sempre que eu penso nele, meu corao salta, como se eu estivesse numa montanha-russa - dissera ela, area. - Estar apaixonada  a melhor coisa do mundo.
        Emily amarrou a cordinha do capuz de seu moletom sob o queixo. Ela achou que estava apaixonada tambm, mas essa sensao certamente no parecia nada com 
estar em uma montanha-russa. Parecia sim que ela estava no castelo mal-assombrado: com surpresas a cada instante e sem a menor pista do que viria a seguir.
20
NO EXISTEM SEGREDOS
ENTRE AMIGAS
Na tarde de quinta-feira, Hanna olhava fixamente para sua imagem no espelho do banheiro do andar de baixo. Ela aplicou um pouco de base em alguns pontos em seu queixo 
e se encolheu com a dor. Por que pontos tinham que doer tanto? E por que o dr. Geist teve que costurar o rosto dela com fio preto, como se ela fosse o Frankenstein? 
Ele no podia ter usado um tom cor da pele?
Ela apanhou seu BlackBerry novinho em folha, pensativa. O aparelho estava esperando por ela na mesa da cozinha, quando seu pai a levara para casa, naquele dia de 
manh. Havia um carto na caixa do BlackBerry que dizia:
        Bem-vinda de volta! 
        Amor, mame
        Agora que Hanna no corra mais risco de morrer, sua me havia retornado para a rotina de longas horas de trabalho; negcios, como sempre.
        Hanna suspirou e discou o nmero no rtulo do frasquinho da base.
        -Al. Central de atendimento Bobbi Brown! - cantarolou uma voz alegre do outro lado da linha.
        - Aqui  Hanna Marin - disse ela, bruscamente, tentando liberar a Anna Wintour que vivia em seu interior. - Posso marcar uma hora com Bobbi para uma sesso 
de maquiagem?
        A moa do atendimento fez uma pausa.
        - Bom, voc teria que falar com a agente da Bobbi para isso. Mas eu acho que ela est muito ocupada...
        -Voc pode me passar o telefone da agente dela?
        - Eu acho que no tenho autorizao para fazer isso...
        - Claro que tem - disse Hanna, com voz doce. - Eu no conto para ningum.
        Depois de muita resistncia da garota e insistncia de Hanna, ela finalmente venceu; a garota a colocou em espera na linha, e algum deu a ela um nmero 
com cdigo e rea de Manhattan, em Nova York. Ela o anotou com batom no espelho do banheiro e desligou, sentindo-se dividida. Por um lado, era timo que ela ainda 
fosse capaz de convencer as pessoas a fazer exatamente o que ela queria. Somente as divas, rainhas de baile, eram capazes disso. Por outro lado, e se nem mesmo Bobbi 
conseguisse consertar a baguna que estava o seu rosto?
        A campainha tocou. Hanna aplicou mais base sobre os pontos e foi para o corredor. Provavelmente era Mona, chegando para ajudar a escolher os modelos para 
sua festa. Ela havia dito a Hanna que queria contratar os gatos mais lindos que o dinheiro pudesse comprar.
        Hanna parou no vestbulo, perto do enorme vaso de cermica raku de sua me. O que exatamente Lucas quisera dizer, no dia anterior no hospital, quando avisara 
que Hanna no devia confiar em Mona? E, principalmente, o que tinha sido aquele beijo? Hanna havia pensado em muito pouca coisa alm daquilo, desde que acontecera. 
Ela havia esperado ver Lucas no hospital naquela manh, acordando-a com revistas e um latte da Starbucks. E quando percebera que ele no estava l, ela ficara... 
decepcionada. E naquela tarde, depois que seu pai a havia deixado em casa, Hanna tinha assistido a novela All My Children na TV por trs minutos inteiros antes de 
mudar de canal. Dois personagens da novela estavam se beijando apaixonadamente, e ela os havia observado, de olhos arregalados, com arrepios lhe correndo pelas costas 
de novo, e de repente ela conseguia entender o que eles estavam sentindo.
        No que ela gostasse de Lucas ou algo do tipo. Ele no estava sequer na mesma estratosfera que ela. E s pra ter certeza, ela tinha perguntado a Mona, na 
noite anterior, o que ela achava de Lucas, quando Mona foi levar o modelo indo-para-casa-depois-do-hospital que ela selecionara no closet de Hanna -jeans Seven apertados, 
uma jaqueta Moschino de l colorida e uma camiseta superfofinha. Mona havia perguntado:
        - Lucas Beattie? Grande perdedor, Han. Sempre foi. 
        Ento era isso. Chega de Lucas. Ela no contaria a ningum sobre aquele beijo, nunca.
        Hanna chegou  porta da frente, notando o jeito como o cabelo louro quase branco de Mona brilhava por entre os vitrais congelados. Ela quase caiu para trs 
quando abriu a porta e viu Spencer de p atrs de Mona. E Emily e Aria estavam chegando pela entrada da frente. Hanna se perguntou se havia, acidentalmente, convidado 
todas para virem v-la ao mesmo tempo.
        - Bem, isto  uma surpresa - disse Hanna, nervosa.
        Mas foi Spencer quem passou direto por Mona e entrou na casa de Hanna primeiro.
        - Ns precisamos conversar com voc - disse ela. 
        Mona, Emily e Aria a seguiram, e as meninas se juntaram nos sofs de couro caramelo de Hanna, sentando-se nos exatos lugares em que costumavam se sentar 
quando eram todas amigas: Spencer na grande poltrona de couro no canto da sala, e Emily e Aria no sof. Mona havia tomado o lugar de Ali, na chaise perto da janela. 
Quando Hanna apertava os olhos, ela quase conseguia, pensar que Mona era Ali. Hanna deu uma olhada de lado para Mona para checar se ela estava zangada, mas Mona 
parecia... bem.
        Hanna sentou-se no banquinho da poltrona de couro.
        - Hum, ns precisamos conversar sobre o qu? - perguntou ela a Spencer. Aria e Emily pareciam um pouco confusas tambm.
        - Ns recebemos outra mensagem de A depois que samos do seu quarto no hospital - soltou Spencer.
        -  Spencer - sibilou Hanna. Emily e Aria tambm olharam espantadas para ela. Desde quando elas falavam sobre A na frente de outras pessoas?
        - Est tudo bem - disse Spencer. - Mona sabe. Ela tambm anda recebendo mensagens de A.
        Hanna de repente sentiu que ia desmaiar. Ela olhou para Mona, para confirmar, e a boca da amiga estava tensa e sria.
        - No - disse Hanna baixinho. 
        -Voc? -Aria parecia engasgada.
        - Quantas? - gaguejou Emily.
        - Duas - admitiu Mona, olhando fixamente para o contorno de seus joelhos ossudos debaixo do vestido de jrsei laranja da C&C California. - Eu as recebi esta 
semana. Quando contei a Spencer sobre elas ontem, eu no podia imaginar que vocs tambm estavam recebendo.
        - Mas isso no faz sentido - sussurrou Aria, olhando em volta, para as outras. - Eu pensei que A estivesse enviando mensagens apenas para as antigas amigas 
de Ali.
        - Talvez tudo o que ns pensamos esteja errado - disse Spencer.
        O estmago de Hanna se revirou.
        -  Spencer contou para voc sobre a van que me atropelou?
        - Ela me contou que foi A. E que voc sabia quem  A. - O rosto de Mona estava plido.
        Spencer cruzou as pernas.
        - E a propsito, ns recebemos outra mensagem. A obviamente no quer que voc se lembre, Hanna. E se ns continuarmos a pressionar voc, A vai nos machucar 
da prxima vez.
        Emily deixou escapar um pequeno gemido.
        -  Isto  realmente assustador - sussurrou Mona. Ela no parava de balanar o p, algo que fazia apenas quando estava muito tensa. - Ns devamos chamar 
a polcia.
        -Talvez devssemos mesmo - concordou Emily. - Eles poderiam nos ajudar. Isto  srio.
        - No! -Aria quase gritou.-A saberia. quase como se... A pudesse nos ver, todo o tempo.
        Emily fechou a boca, olhando fixamente para as mos. 
        Mona engoliu em seco.
        - Eu acho que sei o que voc quer dizer, Aria. Desde que comecei a receber as mensagens, tenho sentido como se algum estivesse me observando... - Ela olhou 
ao redor para as outras, seus olhos arregalados e assustados. - Quem sabe? A poderia estar nos observando agora mesmo.
        Hanna estremeceu. Aria olhou em volta freneticamente, fazendo uma varredura da sala de estar atravancada de Hanna. Emily espiou embaixo do grande piano de 
cauda como se A pudesse estar se escondendo em um dos cantos.
        Ento, o Sidekick de Mona vibrou, e todas deixaram escapar gritinhos assustados. Quando Mona pegou o aparelho, seu rosto ficou branco.
        -Ai, meu Deus. Mais uma.
        Todas se amontoaram ao redor do telefone de Mona. A mensagem mais recente era um carto virtual de aniversrio atrasado. Abaixo das imagens de bales alegres 
e um bolo branco confeitado, que Mona jamais comeria na vida real, a mensagem dizia:
        Feliz aniversrio atrasado, Mona!
        Ento, quando  que voc vai contar a Hanna o que fez? 
        Eu acho que voc deve esperar at DEPOIS de ela final-
        mente lhe entregar o presente.
        Voc pode perder a amizade, mas pelo menos poder ficar 
        com o que tiver ganhado! - A
        O sangue de Hanna gelou.
        - O que voc fez? Do que  que A est falando? 
        O rosto de Mona ficou branco.
        - Hanna... Tudo bem. Ns tivemos uma briga na noite da minha festa. Mas foi s uma briguinha. Sinceramente. Ns devamos simplesmente esquecer.
        O corao de Hanna batia alto como o motor de um carro. Sua boca ficou instantaneamente seca.
        - Eu no quis falar sobre a briga depois do seu acidente porque no achei que fosse importante - disse Mona, sua voz soando estridente e desesperada. - Eu 
no quis chatear voc. E eu me senti horrvel a respeito da nossa briga na semana passada, Hanna, principalmente quando pensei que tinha perdido voc para sempre. 
Eu s queria esquecer tudo. Eu queria me desculpar com voc organizando essa festa incrvel, e...
        Alguns segundos dolorosos se passaram. O aquecedor ligou automaticamente, fazendo com que todas dessem um pulo. Spencer limpou a garganta.
        - Vocs duas no deveriam brigar - disse ela, gentilmente. - Alm do mais, A est justamente tentando distrair vocs para que parem de tentar descobrir quem 
est mandando essas mensagens horrveis.
        Mona dirigiu um olhar agradecido para Spencer. Hanna abaixou os ombros, sentindo todos os olhos sobre ela. A ltima coisa que ela queria fazer era falar 
sobre aquilo com as outras por perto. Ela nem tinha certeza de que queria falar sobre aquilo, afinal.
        - Spencer est certa. Isso  exatamente o que A faz.
        As meninas ficaram em silncio, olhando fixamente para o abajur quadrado de papel Noguchi, na mesinha de centro. Spencer pegou a mo de Mona e a apertou. 
Emily segurou a de Hanna.
        - Sobre o que mais as suas mensagens falavam? - Aria perguntou a Mona em voz baixa.
        Mona abaixou a cabea.
        - S algumas coisas do passado.
        Hanna eriou-se, mas focou a ateno na fivela azul em forma de passarinho nos cabelos de Aria. Ela tinha a sensao de que sabia exatamente com o que A 
estava provocando Mona - o tempo antes de Hanna e Mona serem amigas, quando Mona era estudiosa e sem graa. Qual era o segredo em que A se concentrava mais? Quando 
Mona havia grudado em Ali, querendo ser igualzinha a ela? Quando Mona era o alvo das piadas de todos? Ela e Mona nunca discutiam o passado, mas de vez em quando 
Hanna sentia que as lembranas dolorosas no estavam muito longe, borbulhando pouco abaixo da superfcie da amizade delas, como um giser subterrneo.
        - Voc no precisa nos contar, se no quiser - disse Hanna, rapidamente. - Muitas das mensagens que recebemos de A tambm so sobre o passado. Existem muitas 
coisas que todas ns queremos esquecer.
        Ela olhou a melhor amiga nos olhos, esperando que Mona compreendesse. Mona apertou a mo de Hanna. Hanna notou que Mona estava usando o anel de prata e turquesa 
que havia feito para ela na aula de Joalheria II, ainda que se parecesse mais com um daqueles anis de formatura enormes da Rosewood Day, que apenas os CDF's usavam, 
do que com um mimo bonitinho da Tiffany. Um pequeno canto do corao acelerado de Hanna se aqueceu. A estava certa sobre uma coisa: melhores amigas compartilham 
tudo. E agora, ela e Mona podiam, tambm.
        A campainha tocou, trs bongs curtos, inspirados no gongo oriental. As meninas se levantaram na hora. 
        - Quem ? - cochichou Aria, assustada. 
        Mona saiu andando, sacudindo o longo cabelo louro. Ela deu um sorriso largo e rebolou at a porta da frente da casa de Hanna.
        - Algo que vai nos fazer esquecer os problemas.
        - Tipo, uma pizza? - perguntou Emily.
        -  No, dez modelos masculinos da filial da Filadlfia da agncia Wilhelrnina,  claro - disse Mona, simplesmente.
        Como se fosse um absurdo pensar que pudesse ser qualquer outra coisa.
21
COMO RESOLVER UM
PROBLEMA COMO EMILY?
Quinta  noite, depois de deixar Hanna, Emily passeou por entre os frequentadores perfumados e as consumistas carregadoras de sacola do Shopping King James. Ela 
estava indo encontrar seus pais no All That Jazz!, o restaurante temtico inspirado nos musicais da Broadway, que ficava prximo  Nordstrom. Esse costumava ser 
o restaurante favorito de Emily quando ela era mais nova, e ela imaginou que seus pais acharam que ainda era. O restaurante parecia o de sempre, tinha uma marquise 
falsa da Broadway como fachada, uma esttua gigante de O Fantasma da pera perto do pdio da recepcionista e fotos de astros da Broadway por todas as paredes.
        Emily foi a primeira a chegar e logo deslizou para um assento no grande balco do bar recoberto de granito. Por um momento, ela olhou para a boneca de coleo 
da Pequena Sereia numa redoma de vidro perto do estande da recepcionista. Quando era menor, Emily desejava que pudesse trocar de lugar com Ariel, a princesa sereia: 
Ariel podia ficar com as pernas de Emily e ela com as barbatanas de sereia. Ela costumava fazer as antigas amigas assistirem ao filme, at que Ali um dia disse a 
ela que era ridculo e infantil e que ela deveria parar com aquilo. 
        Uma imagem familiar chamou sua ateno na tela da TV sobre o bar. Em primeiro plano aparecia uma reprter loura e peituda com uma foto de Ali no stimo ano 
da escola no canto.
        -  Durante o ano passado, os pais de Alison DiLaurentis estiveram morando em uma pequena cidade da Pensilvnia no muito longe do Rosewood, enquanto o filho 
deles, Jason, terminava sua graduao na Universidade de Yale. Eles viviam calmamente... at agora. Enquanto a investigao do assassinato de Alison segue sem nenhuma 
pista nova, como a famlia dela est enfrentando a situao?
        Um imponente prdio coberto de hera apareceu na tela sob a legenda NEW HAVEN, CONNECTICUT. Outra reprter loura seguia um grupo de estudantes.
        - Jason! - chamou ela. -Voc acha que a polcia tem feito o suficiente para encontrar o assassino da sua irm?
        -  Isso est aproximando a sua famlia? - gritou mais algum.
        Um garoto com bon dos Phillies se virou. Os olhos de Emily se arregalaram - ela tinha visto Jason DiLaurentis apenas algumas vezes desde que Ali havia desaparecido. 
Seus olhos estavam frios e impenetrveis, e os cantos de sua boca virados para baixo.
        - No falo muito com a minha famlia - disse Jason. - Eles so muito problemticos.
        Emily firmou os ps sob o banco. A famlia de Ali... problemtica? Aos olhos de Emily, os DiLaurentis pareciam perfeitos. O pai de Ali tinha um bom emprego 
e ainda era capaz de estar em casa nos finais de semana para um churrasco com os filhos. A sra. DiLaurentis costumava levar Ali, Emily e as outras para fazer compras 
e fazia deliciosos biscoitos de aveia para elas. Sua casa era impecvel, e quando Emily jantava l, sempre havia muitas risadas.
        Ela pensou na lembrana que Hanna havia tido mais cedo, sobre o dia anterior ao desaparecimento de Ali. Depois de Ali ter surgido no ptio dos fundos, Emily 
tinha pedido licena para ir ao banheiro. Enquanto passava pela cozinha e rodeava Charlotte, a gata himalaia de Ali, ela ouviu Jason cochichando com algum na escada. 
Ele parecia bravo.
        -  melhor voc parar com isso - sibilou Jason. -Voc sabe como isso os deixa irritados.
        - No estou machucando nada - outra voz cochichou de volta.
        Emily tinha apertado seu corpo contra a parede do saguo, confusa. A segunda voz parecia um pouco com a de Ali.
        - S estou tentando ajudar voc - continuou Jason, ficando cada vez mais agitado.
        Logo depois a sra. DiLaurentis surgiu pela porta lateral, correndo at a pia para limpar as mos..
        - Oh, ol Emily - falou alegremente. Emily se afastou da escada e ouviu passos subindo para o segundo andar.
        Emily olhou novamente para a tela da TV O jornalista estava agora emitindo um alerta para os membros do Country Clube de Rosewood, porque o perseguidor de 
Rosewood tinha sido localizado esgueirando-se por aquela rea. A garganta de Emily coou. Era fcil traar paralelos entre o Perseguidor de Rosewood e A... E o Country 
Clube? A festa de Hanna seria l. Emily tinha tido o cuidado de no fazer perguntas a Hanna desde que recebera o ltimo bilhete de A, mas ainda se perguntava se 
elas deviam procurar a polcia - isso j tinha ido longe demais. E se A tivesse no apenas atropelado Hanna, mas tambm assassinado Ali, como Aria havia sugerido 
outro dia? Mas talvez Mona estivesse certa: A estava por perto, vigiando cada passo delas. A saberia se elas contassem.
        Como uma deixa, o celular dela fez um barulho. Emily pulou, quase caindo do assento. Ela tinha uma nova mensagem de texto, mas felizmente era apenas de 
Trista. De novo.
        Oi, Em!
        O que vai fazer no final de semana?
        Beijos, Trista
        Emily desejava que Rita Moreno no cantasse "America" to alto e que ela no estivesse sentada to perto de uma foto do elenco de Cats - todos os felinos 
a encarando como se quisessem us-la como arranhador. Ela correu os dedos pelas teclas do celular. Seria rude no responder, certo? Ela teclou:
        Oi! Vou a um baile de mscaras da minha amiga nessa 
        sexta. Vai ser divertido! - Em.
        Quase imediatamente, Trista respondeu: 
        Ai, meu Deus! Seria to bom se eu pudesse ir! 
        Emily teclou de volta: 
        Seria mesmo. Bj
        Ela imaginou o que Trista realmente tinha planejado fazer nesse final de semana - ir a outra festa num silo? Conhecer outra garota?
        - Emily?
        Duas mos geladas curvaram-se sobre seus ombros. Emily se virou, derrubando seu telefone no cho. Era Maya atrs dela. Os pais, a irm Carolyn e o namorado 
dela, Topher, estavam atrs de Maya. Todos sorriam loucamente.
        - Surpresa! - gritou Maya. - Sua me ligou esta tarde e me convidou para jantar com vocs!
        - A-aahh - gaguejou Emily -, isso ... timo.
        Ela resgatou o telefone do cho e o segurou entre as mos, cobrindo a tela, como se Maya pudesse ver o que ela tinha acabado de escrever. Parecia haver um 
holofote quente e ofuscante sobre ela. Ela olhou para os pais, que estavam perto de uma foto enorme do elenco de Les Misrables lutando contra as barricadas. Ambos 
sorriam de um jeito nervoso, agindo da mesma forma que tinham agido quando conheceram o antigo namorado de Emily, Ben.
        -  Nossa mesa est pronta - disse a me de Emily. Maya pegou a mo de Emily e seguiu o restante da famlia. Todos se acomodaram em torno de uma enorme mesa 
num canto. Um garom aferninado, que Emily tinha quase certeza de que estava usando rmel, perguntou se eles gostariam de coquetis.
        -  um prazer finalmente conhec-los, sr. e sra. Fields - disse Maya assim que o garom saiu, sorrindo para os pais de Emily.
        A me de Emily sorriu de volta.
        - Fico feliz por conhec-la tambm.
        No havia nada alm de acolhimento em sua voz. O pai de Emily sorriu tambm.
        Maya apontou para o bracelete de Carolyn.
        - Isso  to bonito. Foi voc quem fez? 
        Carolyn corou.
        - Sim. Em Joalheria III.
        Os olhos castanhos de Maya se arregalaram.
        - Queria ter aprendido joalheria, mas no tenho nenhum senso de cor. Tudo nesse bracelete combina to bem.
        Carolyn olhou para o seu prato salpicado de ouro.
        - No  to difcil assim... - Emily percebeu o quanto ela ficou lisonjeada.
        Eles entraram numa conversinha sobre escola, o Perseguidor de Rosewood, o atropelamento de Hanna e depois a Califrnia - Carolyn queria saber se Maya conhecia 
algum dos garotos que tinham ido para Stanford, que era para onde ela pretendia ir, no prximo ano. Topher riu de uma histria que Maya contou sobre sua antiga vizinha 
em So Francisco, que tinha oito periquitos e fez Maya de bab deles. Emily olhou para todos eles, aborrecida. Se Maya era to facilmente gostvel, por que no tinham 
dado uma chance a ela antes? O que era toda aquela conversa sobre Emily dever se afastar de Maya? Ela realmente precisava ter se afastado para que eles levassem 
sua vida a srio?
        - Ah, esqueci de dizer - falou o pai de Emily assim que todos receberam seus pratos -, reservei a casa em Duck para o Dia de Ao de Graas novamente.
        - Oh, que maravilha - disse a sra. Fields, radiante. - A mesma casa?
        - A mesma. - O sr. Fields cortou uma minicenoura.
        - Onde fica Duck? - perguntou Maya. 
        Emily arrastou seu garfo pelo pur de batatas.
        -   uma pequena cidade litornea nos Outer Banks da Carolina do Norte. Sempre alugamos uma casa l em todo feriado de Ao de Graas. A gua ainda  quente 
o suficiente para um mergulho se voc tiver o traje de neoprene apropriado.
        - Talvez Maya queira vir conosco - disse a sra. Fields, depois de secar sua boca com um guardanapo. - Afinal voc sempre leva alguma amiga.
        Emily ficou boquiaberta. Ela sempre levava um namorado, ou algum prximo disso - ano passado ela levara Ben. Carolyn havia levado Topher.
        Maya colocou a mo contra o peito.
        - Mas  claro! Isso parece timo!
        As paredes do falso set de filmagens pareciam se fechar em volta dela. Emily puxou a gola da camiseta e se levantou. Sem explicao, ela deu a volta em torno 
de um punhado de garons e garonetes vestidos como personagens do musical Rent. Apoiando-se numa cabine do banheiro, ela se inclinou contra a parede azulejada e 
fechou os olhos.
        A porta do banheiro se abriu. Emily viu o sapato Mary Jane de bico quadrado de Maya embaixo da porta da sua cabine.
        - Emily? - chamou Maya, suavemente.
        Emily espiou atravs da abertura na porta metlica. Maya estava com a bolsa de croch atravessada sobre o peito, seus lbios apertados de preocupao.
        -Voc est bem? - perguntou Maya.
        - S me senti um pouco tonta - balbuciou Emily, dando descarga desajeitadamente e depois andando at a pia. Ela ficou de costas para Maya, seu corpo rgido 
e tenso. Se Maya a tocasse agora, Emily tinha certeza de que explodiria.
        Maya esticou a mo e depois recuou, como que sentindo o estado de nimo de Emily.
        -  No foi fofo seus pais terem me convidado para Ir a Duck com vocs? Ser to divertido!
        Emily encheu as mos de sabonete lquido. Quando Iam a Duck, Emily e Carolyn sempre passavam pelo menos trs horas no mar todo dia, pegando ondas. Mais tarde, 
assistiam a maratonas de desenho animado no Cartoon Network, ento se reabasteciam e iam para a gua de novo. Ela sabia que Maya no ia curtir aquilo.
        Emily voltou-se para encar-la.
        - Isso  tudo meio... esquisito. Quero dizer, meus pais me odiavam semana passada. E agora gostam de mim. Esto tentando me ganhar, chamando voc para um 
jantar surpresa e depois a convidando para os Outer Banks.
        Maya franziu a testa.
        - E isso  ruim?
        - Bem,  sim - Emily deixou escapar. - Ou no. Claro que no.
        Isso estava saindo totalmente errado. Ela limpou a garganta e encontrou os olhos de Maya no espelho.
        - Maya, se voc pudesse ser qualquer tipo de doce, que tipo gostaria de ser?
        Maya tocou a ponta de uma caixa dourada de lenos, que ficava no meio da penteadeira do banheiro.
        - Hein?
        - Assim... gostaria de ser confeitos Mike and Ike? Balas Laffy Taffy? Uma barra de chocolate Snickers? O qu?
        Maya a encarou.
        - Est bbada?
        Emily analisou Maya no espelho. Ela tinha a pele brilhante e cor de mel. Seu brilho labial sabor amora cintilava. Emily tinha se apaixonado por Maya no momento 
em que pusera os olhos nela, e seus pais estavam fazendo um esforo gigantesco para aceit-la. Qual era o problema, ento? Por que, quando Emily tentava pensar em 
beijar Maya, em vez disso se imaginava beijando Trista?
        Maya inclinou-se de costas para o balco.
        - Emily, acho que sei o que est acontecendo.
        Emily desviou o olhar rapidamente, tentando no corar.
        - No, voc no sabe.
        Os olhos de Maya suavizaram.
        -  sobre sua amiga Hanna, no ? O acidente? Voc estava l, certo? Ouvi dizer que quem a atropelou a estava perseguindo.
        A bolsa de lona Banana Republic de Emily escorregou de suas mos e caiu no cho com um estrondo.
        - Onde ouviu isso? - sussurrou ela. 
        Maya recuou um passo, perplexa.
        - Eu... eu no sei. No consigo me lembrar - disse ela, confusa e desconcertada. -Voc pode falar comigo, Em. Podemos contar qualquer coisa uma para a outra, 
certo?
        Trs longos compassos da cano de Gershwin que saa dos alto-falantes se passaram. Emily pensou no bilhete que A tinha enviado quando ela e suas trs antigas 
amigas se encontraram com o policial Wilden na semana anterior: no contem a NINGUM sobre mim, ou vo se arrepender.
        - Ningum est perseguindo Hanna - sussurrou ela. - Foi um acidente. Fim de papo.
        Maya correu os dedos pela cermica da bacia na pia.
        - Acho que vou voltar para a mesa agora. Eu... eu vejo voc l.
        Ela se afastou do banheiro vagarosamente. Emily ouviu a porta se fechar, balanando.
        Agora tocava uma msica da trilha de Aida. Emily se sentou  penteadeira, jogando a bolsa no colo.
        - Ningum disse nada - disse ela a si mesma. - Ningum sabe exceto ns. E ningum vai contar a A.
        De repente, Emily reparou num bilhete dobrado em sua bolsa aberta. Estava escrito EMILY na frente, em letras cor-de-rosa redondas. Emily o abriu. Era um 
formulrio de adeso ao PALG-Pais e Amigos de Lsbicas e Gays. Algum havia abastecido os pais de Emily com informao. No rodap havia uma caligrafia pontiaguda 
familiar.
        Feliz dia de sair do armrio, Em! Seu pessoal deve estar to 
        orgulhoso! Agora que os Fields esto repletos do som do 
        amor e da aceitao, seria uma pena se algo acontecesse 
        com sua pequena lsbica. Ento fique quieta... e eles fica-
        ro com voc! - A
        A porta do banheiro ainda estava balanando aps a sada de Maya. Emily olhou novamente para o bilhete, suas mos tremendo. De repente um aroma familiar 
tomou o ar. Cheirava a...
        Emily franziu a testa e farejou novamente. Finalmente, ela colocou o bilhete de A diretamente em seu nariz. Quando aspirou o ar, suas entranhas viraram pedra. 
Emily reconheceria esse cheiro em qualquer lugar. Era o perfume sedutor do chiclete de banana de Maya.
22
SE AS PAREDES DO W FALASSEM...
Quinta-feira  noite, depois do jantar no Smith & Wollensky, um restaurante famoso que o pai de Spencer frequentava, ela seguiu sua famlia pelo carpete cinza do 
corredor do Hotel W. Fotografias brilhantes em preto e branco de Amue Leibovitz cobriam as paredes e o ar cheirava a uma mistura de baunilha e toalhas limpas.
        Sua me estava ao celular.
        - No, ela vai ganhar - murmurou ela. - Por que ns j no reservamos agora? - Ela parou, como se a pessoa do outro lado estivesse dizendo algo muito importante. 
- Bom. Falo com voc amanh. - Ela fechou o telefone.
        Spencer puxou a lapela de seu terno Armani cinza claro - ela tinha usado uma roupa profissional para jantar e assim entrar no modo ensasta ganhadora de 
prmio. Ela se perguntou com quem sua me falava ao telefone. Talvez estivesse planejando algo extraordinrio para Spencer caso ela ganhasse o Orqudea Dourada. 
Uma viagem fabulosa? Um dia com um comprador da Barney s? Uma reunio com a amiga da famlia que trabalhava no New York Times? Spencer tinha implorado para seus 
pais deixarem que ela fizesse um estgio de vero no Times, mas sua me no havia deixado.
        - Nervosa, Spence? - Melissa e Ian apareceram atrs dela, carregando malas iguais. Infelizmente, os pais de Spencer insistiram para que Melissa fosse junto, 
e ela tinha levado Ian. Melissa segurou uma garrafinha com uma etiqueta que dizia MARTNI PARA VIAGEM! - Voc quer uma destas? Eu posso arranjar uma para voc, se 
voc precisar de algo para se acalmar.
        - Eu estou bem - retrucou Spencer.
        A presena da irm fazia Spencer ter a sensao de que havia baratas andando debaixo de seu suti Malizia. Sempre que Spencer fechava os olhos, via Melissa 
inquieta, enquanto Wilden perguntava a ela e a Ian onde eles estavam na noite do desaparecimento de Ali e ouvia a voz de Melissa dizendo: S uma pessoa muito mpar 
consegue matar, e essa no  voc.
        Melissa parou, sacudindo a minigarrafa de martni.
        -  Sim,  melhor voc no beber. Voc pode esquecer o ponto principal do seu artigo do Orqudea Dourada.
        -   verdade - murmurou a sra. Hastings. Spencer ficou arrepiada e se virou.
        O quarto de Ian e Melissa era ao lado do de Spencer e eles entraram rapidinho, gargalhando. Quando sua me pegou a chave do quarto de Spencer, uma menina 
bonita, da idade de Spencer, passou. De cabea abaixada, ela estava olhando para um carto de cor creme que era muito parecido com o convite para o caf da manh 
que Spencer tinha enfiado em sua bolsa Kate Spade de tweed.
        A menina viu que Spencer a estava encarando e abriu um sorriso brilhante.
        - Oi! - disse ela, animada. Ela tinha aparncia de uma apresentadora da CNN: cheia de pose, altiva e agradvel. Spencer ficou de boca aberta e sua lngua 
passeava desajeitada l dentro. Antes que ela pudesse responder, a menina deu de ombros e olhou para o outro lado.
        Aquela taa de vinho que seus pais tinham permitido que ela bebesse no jantar borbulhou em seu estmago. 
        Ela se virou para sua me.
        - H muitos concorrentes inteligentes no Orqudea Dourada - sussurrou Spencer, depois de a menina ter virado a esquina no corredor. - Eu no estou com a 
vitria garantida, nem nada assim.
        - Absurdo. - A voz da sra. Hastings foi cortante. -Voc vai ganhar - Ela lhe estendeu a chave do quarto. - Esta  a sua. Ns pegamos uma sute para voc. 
- Com isso, ela acariciou o brao de Spencer e continuou pelo corredor at o seu quarto.
        Spencer mordeu o lbio, abriu a porta de sua sute e acendeu a luz. O quarto cheirava a canela e a carpete novo, e sua cama king size estava coberta por 
doze travesseiros. Ela arrumou os ombros e arrastou a mala at o guarda-roupa de mogno. Pendurou o terno Armani da entrevista imediatamente e colocou seu conjunto 
de calcinha e suti rosa Wolford da sorte na gaveta superior da cmoda ao lado. Depois de vestir o pijama, deu uma volta na sute e se certificou de que todas as 
molduras grossas estivessem alinhadas e de que todos os enormes travesseiros azuis da cama estivessem afofados simetricamente. No banheiro, ela arrumou as toalhas 
para que ficassem alinhadas nos suportes. Ela arrumou o sabonete lquido Bliss, o xampu e o condicionador no frasco em formato de diamante em volta da pia. Quando 
voltou para o quarto, olhou sem interesse para um exemplar da revista Time Out New York. Na capa havia um Donald Trump com olhar confiante parado em frente  Trump 
Tower.
        Spencer fez a respirao de fogo que aprendem na ioga, mas ainda no se sentia melhor. Finalmente, pegou seus cinco livros de economia e uma cpia do artigo 
de Melissa com seus comentrios e os espalhou pela cama. Voc vai ganhar, a voz de sua me ressoava em seu ouvido.
        Depois de uma hora quebrando a cabea e ensaiando algumas partes do artigo de Melissa em frente ao espelho, Spencer ouviu uma batida na porta que ligava 
seu quarto  outra sute. Ela sentou, confusa. A porta dava no quarto de Melissa.
        Outra batida.
        Spencer escorregou para fora da cama e rastejou em direo  porta. Ela olhou seu telefone celular, mas estava mudo e apagado.
        - Oi? - disse Spencer, baixinho.
        - Spencer? - chamou Ian, com voz rouca. - Oi. Acho que nossos quartos so ligados. Posso entrar?
        - Hum - hesitou Spencer. A porta que ligava os quartos fez alguns barulhos e ento se abriu. Ian tinha trocado sua camisa e a cala cqui por uma camiseta 
e jeans Ksubi. Spencer encolheu os dedos, de medo e animao.
        Ian olhou em volta da sute de Spencer.
        - Seu quarto  enorme comparado ao nosso.
        Spencer segurou as mos atrs das costas, tentando no mostrar sua animao. Esta provavelmente era a primeira vez que tinha um quarto melhor do que Melissa. 
Ian olhou para os livros espalhados na cama de Spencer, ento, os empurrou para o lado e sentou-se.
        - Estudando, no?
        - Mais ou menos. - Spencer ficou grudada  mesa, com medo de se mover.
        - Que pena. Eu pensei que poderamos dar uma volta ou algo assim. Melissa est dormindo, depois de apenas um daqueles coquetis para viagem. Ela  to fraca 
para bebida! - Ian deu uma piscadinha.
        Do lado de fora, vrios txis buzinavam e uma luz neon piscava. O olhar no rosto de Ian era o mesmo de anos atrs, pelo que Spencer se lembrava, quando ele 
parou na entrada de carros da sua casa, prestes a beij-la. Spencer encheu um copo com gua gelada da jarra da mesa e tomou um gole, uma ideia se formava em sua 
cabea. Ela tinha mesmo umas perguntas para Ian... Sobre Melissa, sobre Ali, sobre os pedaos que faltavam em sua memria e sobre a suspeita perigosa, quase tabu, 
que estava crescendo em sua mente desde domingo.
        Spencer apoiou seu copo, o corao batendo forte. Ela puxou sua camiseta enorme da Universidade da Pensilvnia para que casse em um dos ombros.
        - Ento, eu sei um segredo sobre voc - murmurou ela.
        - Sobre mim? - Ian apontou para seu peito. - Qual?
        Spencer empurrou seus livros para o lado e sentou-se perto de Ian. Quando ela sentiu seu creme facial de abacaxi com mamo da Kiehl's - Spencer conhecia 
toda a linha de cremes da Kiehl's de cor -, gostou tanto daquilo tudo que ficou tonta.
        - Eu sei que voc e uma certa loirinha eram mais que apenas amigos.
        Ian sorriu, preguioso.
        - E essa loirinha seria... Voc?
        - No... - Spencer fez biquinho. - Ali. 
        A boca de Ian tremeu.
        -Ali e eu ficamos uma ou duas vezes, s isso. - Ele cutucou o joelho de Spencer. Arrepios subiram pelas costas dela. - Eu gostava mais de beijar voc.
        Spencer se reclinou para trs, perplexa. Em sua ltima briga, Ali tinha contado a Spencer que ela e Ian estavam juntos e que Ian a beijara porque Ali o tinha 
obrigado. Por que ento Ian sempre parecia flertar com Spencer?
        - Minha irm sabia que voc tinha ficado com Ali? 
        Ian desdenhou.
        - Claro que no. Voc sabe como ela  ciumenta. 
        Spencer olhou para a avenida Lexington, contou dez txis em uma fila.
        -  Ento, voc e Melissa realmente ficaram juntos a noite toda no dia em que Ali desapareceu?
        Ian se apoiou nos cotovelos, dando um suspiro exagerado.
        -Vocs Hastings so demais. Melissa andou falando daquela noite tambm. Eu acho que ela est apreensiva, com medo de que o policial descubra que estvamos 
bebendo, j que ramos menores naquela poca. Mas e da? Foi h mais de quatro anos. Ningum vai nos prender por aquilo agora.
        -  Ela tem estado... nervosa? - sussurrou Spencer, com os olhos arregalados.
        Ian baixou os olhos de maneira sedutora.
        - Por que voc no esquece um pouco todas essas coisas de Rosewood? - Ele tirou o cabelo de Spencer da testa. -Vamos dar uns beijos em vez disso.
        O desejo tomou conta dela. O rosto de Ian chegava cada vez mais perto, bloqueando a viso de Spencer dos prdios que ficavam do outro lado da rua. A mo 
dele apertou o joelho dela.
        -  Ns no deveramos fazer isso - sussurrou ela. - No  certo.
        - Claro que  - Ian sussurrou de volta.
        E ento, houve outra batida na porta que ligava os quartos.
        - Spencer? - a voz de Melissa estava rouca. -Voc est a? 
        Spencer pulou da cama, jogando seus livros e suas anotaes no cho.
        - S-sim.
        -Voc sabe onde o Ian foi? - quis saber a irm.
        Quando Spencer ouviu Melissa virando a maaneta da porta, gesticulou feito louca para Ian sair pela porta da frente. Ele pulou da cama, arrumou suas roupas 
e saiu do quarto, bem na hora em que Melissa abriu a porta.
        Melissa tinha subido sua venda de seda para a testa e estava vestindo calas de pijama listradas Kate Spade.Ela arrebitou um pouquinho, o nariz quase como 
se estivesse cheirando o creme de abacaxi e papaia da Kiehl.
        - Por que seu quarto  bem maior que o meu? - disse Melissa finalmente.
        Elas duas ouviram o barulho da chave de Ian passando na porta. Melissa se virou, seu cabelo balanou.
        - Ah, a est voc. Onde voc foi?
        - At as mquinas de refrigerante. - A voz de Ian era doce e suave. Melissa fechou a porta sem nem mesmo dizer tchau.
        Spencer se jogou de volta na cama.
        - Por pouco - ela rosnou alto, embora esperasse que no alto o suficiente para Melissa e Ian escutarem.
23
A PORTAS FECHADAS
Quando Hanna abriu os olhos, estava atrs da direo de seu Toyota Prius, Mas os mdicos no disseram que ela no deveria dirigir com o brao quebrado? Ela no deveria 
estar na cama, com seu pinscher, Dot, ao seu lado?
        -  Hanna - uma figura borrada sentou-se ao seu lado no banco do passageiro. Hanna s sabia que era uma menina de cabelos loiros, sua vista estava embaada 
demais para enxergar qualquer outra coisa. - Oi, Hanna - a voz falou de novo. Soava como...
        - Ali? - grunhiu Hanna,
        -  Isso mesmo. - Ali se inclinou para perto do rosto de Hanna. As pontas de seus cabelos tocaram o queixo dela. - Eu sou A - sussurrou ela.
        - O qu? - gritou Hanna, de olhos esbugalhados. 
        Ali se sentou direito.
        - Eu disse estou bem. - Ento, ela abriu a porta do carro e correu noite adentro.
        A viso de Hanna voltou a ficar normal. Ela estava sentada no estacionamento do planetrio da Hollis. Um pster grande que dizia o BIG BANG balanava com 
o vento.
        Hanna levantou ofegante. Ela estava em seu quarto cavernoso, aconchegada debaixo de seu cobertor de cashmere. Dot estava enrolado como se fosse uma bolinha 
em sua bolsinha canina da Gucci.  sua direita, estava o closet, com prateleiras e mais prateleiras de coisas lindas e caras. Ela respirou profundamente vrias vezes, 
tentando se orientar.
        - Cus - disse ela alto.
        A campainha tocou. Hanna gemeu e se sentou, com a sensao de que sua cabea estava cheia de palha. Com o que ela estivera sonhando? Ali? O Big Bang? A?
        A campainha tocou de novo. Dessa vez, Dot saiu de sua cama canina, dando pulinhos na frente da porta fechada de Hanna. Era sexta-feira de manh, ela percebeu 
que j passava das dez horas. Sua me tinha sado fazia tempo, se  que ela tinha voltado para casa ontem  noite. Hanna havia cado no sono no sof e Mona a tinha 
ajudado a subir e ir para a cama.
        - J vai! - disse Hanna, pegando seu roupo azul-escuro, prendendo seu cabelo em um rabo de cavalo e verificando o rosto no espelho. Ela estremeceu. Os pontos 
em seu queixo ainda estavam espetados e escuros. Eles a lembravam da costura em uma bola de futebol americano.
        Quando ela espiou pelos painis laterais da porta da frente, viu Lucas parado na varanda. O corao de Hanna disparou imediatamente. Ela olhou seu reflexo 
no espelho da entrada e acertou alguns fios de cabelo. Sentindo-se como a gorda do circo em seu roupo de seda inchado, ela pensou em correr de volta para cima e 
colocar uma roupa de verdade.
        Ento, se refreou. Soltando uma gargalhada.
        O que estava fazendo?
        Ela no podia gostar de Lucas. Ele era... Lucas.
        Hanna girou os ombros, soltou o ar e abriu a porta de uma vez.
        - Oi - disse ela, tentando parecer entediada.
        - Oi - respondeu Lucas.
        Eles se entreolharam pelo que pareceram dcadas. Hanna tinha certeza de que Lucas podia ouvir seu corao batendo. Ela queria faz-lo parar. Dot estava danando 
entre as pernas dos dois, mas Hanna estava paralisada demais para mand-lo para dentro.
        - No  uma boa hora? - perguntou Lucas, com cautela.
        - Hum, no - disse Hanna rapidamente. - Entre. 
        Quando ela entrou de volta, quase tropeou em um aparador de porta em formato de Buda que estava na entrada h dez anos. Ela tentou se equilibrar, abrindo 
os braos, para no cair. De repente, sentiu os braos fortes de Lucas envolverem sua cintura. Quando ele colocou Hanna de p novamente, seus olhares se encontraram. 
O canto da boca de Lucas se curvou em um sorriso. Ele se inclinou at ela e sua boca tocou a dela. Hanna se encaixou nele. Eles danaram at o sof e caram nas 
almofadas, Lucas manobrando a tipoia dela com cuidado. Depois de vrios minutos de nada mais que barulhos de beijos e lambidas, Hanna se virou, tentando recuperar 
o flego. Ela deu um gemido e cobriu o rosto com as mos.
        - Desculpe. - Lucas se sentou. - Eu no deveria ter feito isso?
        Hanna balanou a cabea. Ela certamente no podia contar que pelos dois ltimos dias estivera fantasiando que isso aconteceria mais uma vez. Ou que ela teve 
uma sensao horripilante de que j tinha beijado Lucas antes daquela vez na quarta-feira - s que, como isso seria possvel? 
        Ela tirou as mos do rosto.
        - Eu achei que voc tivesse dito que estava no clube de Percepo Extrassensorial da escola - disse ela baixinho, lembrando-se de algo que Lucas havia dito 
a ela no salo de baile. - Voc no deveria saber telepaticamente se era para ter feito aquilo ou no?
        Lucas deu um sorrisinho e cutucou o joelho dela.
        - Bem, ento vou adivinhar que voc queria que eu tivesse feito. E que quer que eu faa de novo.
        Hanna passou a lngua nos lbios, tendo a sensao de que as milhares de borboletas que ela vira no Museu de Histria Natural alguns anos atrs estavam voando 
ao redor de seu estmago. Quando Lucas estendeu o brao e tocou de leve a parte de dentro de seu cotovelo, onde todos os acessos endovenosos haviam estado, Hanna 
achou que ia derreter e virar mingau. Ela baixou a cabea e solto um grunhido.
        - Lucas... eu no sei. 
        Ele se sentou.
        - O que voc no sabe?
        - Eu s... Quer dizer... Mona... - Ela acenava com as mos sem resultado. Isso definitivamente no estava saindo do jeito certo, no que ela tivesse ideia 
do que estava tentando dizer.
        Lucas levantou uma sobrancelha.
        - O que tem a Mona?
        Hanna pegou o cachorro de pelcia que seu pai lhe dera no hospital. Era para ser Cornelius Maximillian, um personagem que eles inventaram quando Hanna era 
mais nova.
        - Ns acabamos de voltar a ser amigas - disse ela com uma vozinha abafada, na esperana de que Lucas soubesse o que ela queria dizer sem que ela tivesse 
que explicar.
        Lucas se recostou.
        - Hanna... Eu acho que voc deveria tomar cuidado com Mona.
        Hanna deixou Cornelius Maximillian cair em seu colo.
        - O que voc quer dizer com isso?
        - Eu s quero dizer... Eu no acho que ela queira o melhor para voc.
        Hanna ficou boquiaberta.
        - Mona ficou ao meu lado no hospital o tempo todo! E voc sabe, se isso tem alguma coisa a ver com a briga na festa, ela me contou tudo. Eu j superei. Est 
tudo bem.
        Lucas observou Hanna atentamente.
        - Est tudo bem?
        - Sim - retrucou Hanna.
        - Ento... Para voc est tudo bem o que ela fez com voc? - Lucas parecia chocado.
        Hanna desviou o olhar. Ontem, depois de falarem sobre A e de entrevistar os modelos, quando as outras meninas foram embora, Hanna achou uma garrafa de vodca 
Stoli Vanil no mesmo armrio em que sua me escondia a porcelana que ganhara de casamento. Ela e Mona desceram at o estdio, puseram o DVD Um amor inesquecvel 
e fizeram o jogo Mandy Moore de bebida. Todas as vezes que Mandy parecia gorda, elas bebiam. Todas as vezes que Mandy fazia bico, elas bebiam. Toda vez que Mandy 
soava como um rob, elas bebiam. Elas no falaram sobre a mensagem que A tinha mandado para Mona - aquela sobre a briga delas. Hanna estava certa de que elas tinham 
discutido por alguma coisa boba, como fotos da festa ou se Justin Timberlake era um idiota. Mona sempre achara que sim, e Hanna sempre afirmou que no. 
        Lucas piscou furioso.
        - Ela no contou para voc, contou? 
        Hanna expirou forte pelo nariz.
        - No tem importncia, est bem?
        - Tudo bem - disse Lucas, levantando as mos como se estivesse se rendendo.
        - Tudo bem - afirmou Hanna novamente, ajeitando os ombros. Mas, quando fechou os olhos, viu-se em seu Prius mais uma vez. A bandeira do planetrio da Hol1is 
balanou ' atrs dela. Seus olhos ardiam de tanto chorar. Alguma coisa - talvez seu BlackBerry - fez um bip no fundo de sua bolsa. Hanna tentou guardar tudo na memria, 
mas no havia como.
        Ela podia sentir o calor irradiando do corpo de Lucas, ele estava sentado bem perto. Ele no cheirava a perfume, desodorante chique, nem outras coisas com 
as quais os meninos costumam se borrifar, mas apenas a pele e pasta de dentes. Ah, se eles ao menos vivessem em um mundo onde Hanna pudesse ter as duas coisas - 
Lucas e Mona. Mas ela sabia que, se quisesse continuar a ser o que era, isso no era possvel.
        Hanna esticou o brao e segurou a mo de Lucas. Um soluo veio at sua garganta, por razes que ela no conseguia explicar, nem mesmo entender completamente. 
Quando ela se inclinou para a frente para beij-lo, tentou outra vez acessar sua memria do que realmente tinha acontecido na noite de seu acidente. Mas, como sempre, 
no havia nada l.
24
SPENCER VAI PARA A GUILHOTINA
Na manh de sexta-feira, Spencer entrou no restaurante Daniel, na rua Sessenta e Cinco, entre as avenidas Madison e Park, um quarteiro quieto e bem cuidado entre 
o centro de Manhattan e o Upper East Side. Parecia que ela tinha entrado no set de filmagens de Maria Antonieta. As paredes do restaurante eram feitas de mrmore 
esculpido, e faziam Spencer pensar em chocolate branco cremoso. Cortinas luxuosas, de um vermelho escuro, farfalhavam por toda parte, e pequenas e elegantes esculturas 
em plantas decoravam a entrada para a sala de jantar principal. Spencer decidiu que depois que ganhasse seus milhes, projetaria uma casa para que ficasse exatamente 
daquele jeito.
        Toda a sua famlia estava bem atrs dela, inclusive Melissa e Ian.
        -Voc est com todas as suas anotaes? - murmurou sua me, remexendo com nervosismo em um dos botes do terninho Chanel rosa de pied-de-poule. Ela se vestira 
como se fosse ela a entrevistada. Spencer assentiu com a cabea. Ela no apenas estava com as anotaes, mas as havia organizado em ordem alfabtica.
        Spencer tentou ignorar a sensao de estmago vazio, embora o aroma de ovos mexidos e azeite de trufas que vinha da sala de jantar no estivesse ajudando.
        Havia uma placa acima da mesa da hostess que dizia:
CHECK-IN PARA AS ENTREVISTAS
DO PRMIO ORQUDEA DOURADA
        - Spencer Hastings - disse ela para a garota de cabelos lustrosos, a cara da atriz Parker Posey, que estava anotando os nomes.
        A garota encontrou o nome de Spencer na lista, sorriu e entregou a ela um crach laminado.
        - Voc est na mesa seis - disse ela, fazendo um gesto na direo da entrada para a sala de jantar. Spencer viu garons atarefados, arranjos de flores enormes 
e alguns adultos andando para um lado e para o outro, conversando ou tomando caf.
        - Ns a chamaremos quando estiver tudo pronto - assegurou-lhe a garota do check-in.
        Melissa e Ian examinavam uma estatueta de mrmore perto do bar. O pai de Spencer havia ido para a rua e falava com algum no telefone. Sua me tambm estava 
ao celular, meio escondida atrs de uma das cortinas vermelho-sangue do restaurante.
        Spencer a ouviu dizer:
        - Ento ns temos a reserva? Fantstico. Ela vai adorar.
        Eu vou adorar o qu?, Spencer quis perguntar. Mas ela imaginou que sua me quisesse manter a surpresa at que Spencer vencesse.
        Melissa escapuliu para o banheiro, e Ian se jogou na chaise perto de Spencer.
        - Animada? - Ele sorriu. -Voc deveria estar. Isto aqui  uma coisa e tanto.
        Spencer desejou que, ao menos uma vez, Ian cheirasse a verduras podres ou bafo de cachorro - tornaria muito mais fcil para ela ficar perto dele.
        -Voc no contou para Melissa que esteve no meu quarto ontem  noite, contou? - sussurrou ela.
        O rosto de Ian assumiu uma expresso sria.
        - Claro que no.
        - E ela no pareceu desconfiada, nem nada?
        Ian colocou os culos escuros de aviador, escondendo seus olhos.
        - A Melissa no  to assustadora assim, sabia? Ela no vai morder voc.
        Spencer fechou a boca. Naqueles dias, parecia que Melissa no apenas iria mord-la, mas tambm transmitiria raiva para ela.
        - S no diga nada - grunhiu ela.
        - Spencer Hastings? - chamou a garota do check-in. - Est tudo pronto para voc.
        Quando Spencer se levantou, seus pais foram para perto dela, como abelhas voando ao redor da colmeia.
        - No se esquea de falar sobre aquela vez em que voc, gripada, interpretou Eliza Doolittle em Minha bela dama - cochichou a Sra. Hastings.
        - No se esquea de mencionar que eu conheo o Donald Trump - completou seu pai.
        Spencer franziu a testa.
        -Voc o conhece? 
        Seu pai assentiu.
        - Sentei perto dele no Cipriani uma vez, e trocamos cartes de visitas.
        Spencer praticou a respirao de ioga da forma mais discreta possvel.
        A mesa seis era pequena e ficava num cantinho nos fundos do restaurante. Trs adultos j estavam reunidos l, bebericando caf e beliscando croissants.
        Quando viram Spencer, todos se levantaram.
        -  Seja bem-vinda - disse um homem quase careca, com cara de beb. - Jeffrey Love. Orqudea Dourada de 1987. Eu' trabalho na Bolsa de Valores de Nova York.
        - Amanda Reed. - Uma mulher alta e esbelta apertou a mo de Spencer.- Orqudea Dourada de 1984. Eu sou editora-chefe da revista Barrons.
        - Quentin Hugues. - Um homem negro, vestindo um lindo terno da Turnbull & Asher, fez um gesto de cabea para ela. - 1999. Sou um dos diretores do Goldman 
Sachs.
        - Spencer Hastings. - Ela tentou se sentar da forma mais elegante possvel.
        - Foi voc quem escreveu o artigo sobre a Mo Invisvel.
- Amanda Reed deu um sorriso radiante, acomodando-se novamente em sua cadeira.
        - Ns todos ficamos muito impressionados com ele - murmurou Quentin Hughes.
        Spencer dobrou e desdobrou seu guardanapo de linho branco. Naturalmente, todos naquela mesa trabalhavam na rea financeira. Ah, se eles tivessem enviado 
algum historiador, ou bilogo, ou cineasta para entrevist-la... algum com quem ela pudesse discutir um outro assunto. Ela tentou imaginar seus entrevistadores 
com as roupas de baixo. Ela tentou imaginar seus dois labradores, Rufus e Beatrice, esfregando-se nas pernas deles. E depois ela imaginou a si mesma contando-lhes 
a verdade: que ela no entendia nada sobre economia, que ela na verdade odiava economia, e que havia roubado o artigo da irm porque tinha ficado com medo de abaixar 
sua mdia.
        Inicialmente, os entrevistadores fizeram perguntas bsicas para Spencer - que escola ela frequentava, o que gostava de fazer, e sobre suas experincias com 
voluntariado e liderana. Spencer passou pelas perguntas facilmente, enquanto os entrevistadores sorriam, assentiam e tomavam notas nos caderninhos com o logotipo 
do Orqudea Dourada. Ela contou a eles sobre seu papel em A tempestade, que ela havia sido a editora do livro do ano da escola, e que havia organizado uma viagem 
ecolgica para a Costa Rica no segundo ano do ensino mdio. Depois de alguns minutos, ela pensou: Estou indo bem. Tudo est correndo bem.
        E ento seu celular tocou.
        Os entrevistadores olharam para ela; a interrupo quebrara o ritmo deles.
        -Voc deveria ter desligado o telefone antes de comear a entrevista - disse Amanda, num tom severo.
        - Desculpe, eu pensei que tinha desligado - Spencer remexeu a bolsa, procurando o celular para coloc-lo em modo silencioso. Ento a tela chamou-lhe a ateno. 
Ela havia recebido uma mensagem de algum chamado AAAAAA.
        Uma dica til para os que no so muito espertos:
        Voc no est enganando ningum.
        Os juzes podem ver que voc  mais falsa que uma bolsa
        Vuitton pirata.
        P.S.: Foi ela, voc sabe. E ela no vai pensar duas vezes 
        antes de fazer o mesmo com voc.
        Spencer desligou rapidamente o telefone, mordendo o lbio com fora. Ser que A estava sugerindo o que Spencer achava que estava?
        Foi ela, voc sabe.
        Quando ela olhou novamente para seus entrevistadores, eles pareciam pessoas completamente diferentes - tensos e srios, prontos para partir para as perguntas 
de verdade. Spencer comeou a dobrar o guardanapo de novo.
        Eles no sabem que eu sou uma fraude, disse ela a si mesma.
        Quentin cruzou as mos ao lado de seu prato.
        -Voc sempre se interessou por economia, srta. Hastings?
        - Hum,  claro - a voz de Spencer estava soando arranhada e seca. - Eu sempre achei... hum... economia, dinheiro, tudo isso muito fascinante.
        - E quem voc considera seus mentores filosficos? - perguntou Amanda.
        A mente de Spencer parecia ter se esvaziado. Mentores filosficos? Que diabos aquilo queria dizer? Apenas uma pessoa lhe veio  cabea.,
        - Donald Trump?
        Os entrevistadores ficaram atordoados por um momento. Ento, Quentin comeou a rir. E depois Jeffrey, e depois Amanda. Todos estavam sorrindo, e ento Spencer 
sorriu tambm. At que Jeffrey disse:
        -Voc est brincando, certo?
        Spencer piscou.
        - Claro que eu estou brincando! - Os entrevistadores riram de novo.
        Spencer estava com uma vontade enorme de reorganizar os croissants no centro da mesa em uma pirmide mais perfeita. Ela fechou os olhos, tentando se concentrar, 
mas tudo o que viu foi a imagem de um avio despencando do cu, com o nariz e a cauda em chamas.
        - Mas a respeito de inspiraes... bem, eu tenho tantas.  difcil falar de apenas uma - ela conseguiu dizer.
        Os entrevistadores no pareciam particularmente impressionados.
        - Depois da faculdade, qual seria o seu primeiro emprego ideal? - perguntou Jeffrey.
        Spencer falou antes de pensar.
        - Trabalhar como reprter no The New York Times. 
        Os entrevistadores pareciam confusos.
        - Reprter no setor de economia, certo? - Amanda quis esclarecer.
        Spencer piscou de novo.
        - No sei. Talvez?
        Ela no se sentia to estranha e nervosa desde... bem, ela nunca tinha se sentido assim. Suas anotaes para a entrevista permaneciam em uma pilha organizada 
em suas mos. Sua mente parecia um quadro-negro recm-apagado. Uma exploso de risos se ouviu da mesa dez. Spencer olhou para l e viu a garota morena da W com um 
sorriso tranquilo no rosto, seus entrevistadores sorrindo de volta alegremente. Atrs dela havia uma parede de janelas; e do lado de fora, na rua, Spencer viu uma 
garota olhando para dentro. Era... Melissa. Ela estava simplesmente parada l, olhando para Spencer sem expresso alguma.
        E ela no vai pensar duas vezes antes de fazer o mesmo com voc.
        - Ento - Amanda adicionou mais leite ao seu caf. - O que voc diria que foi a coisa mais significativa que lhe aconteceu durante os tempos de escola?
        - Bem... - Os olhos de Spencer se desviaram novamente para a janela, mas Melissa havia desaparecido. Ela respirou fundo, muito nervosa, e tentou se controlar. 
O Rolex de Quentin brilhava sob a luz do candelabro. Algum tinha exagerado no perfume. Uma garonete com ar francs serviu outra rodada de caf na mesa trs. Spencer 
sabia qual era a resposta certa: competir no concurso de matemtica financeira na nona srie. O estgio de vero no departamento de comrcio exterior do escritrio 
da J. P. Morgan na Filadlfia. S que aquelas no eram as conquistas dela, eram as de Melissa, a vencedora de direito daquele prmio. As palavras estavam na ponta 
da lngua de Spencer, mas de repente, algo completamente diferente e inesperado saiu de sua boca.
        - Minha melhor amiga desapareceu na stima srie - Spencer soltou. - Alison DiLaurentis. Vocs devem ter ouvido falar dela. Durante anos, eu tive que conviver 
com a dvida sobre o que teria acontecido com ela, para onde ela teria ido. Em setembro do ano passado, encontraram o corpo dela. Ela foi assassinada. Eu acho que 
a minha maior conquista foi ter passado por isso. Eu no sei como todas ns conseguimos, como continuamos a ir para a escola, vivemos nossas vidas, e seguimos em 
frente. Eu e ela podemos ter tido nossas diferenas, mas ela era tudo para mim.
        Spencer fechou os olhos, lembrando da noite em que Ali desapareceu, de quando ela empurrara Ali com fora, e como Ali escorregara. Um rudo horrvel cortara 
o ar. E de repente, a memria de Spencer se abriu um ou dois centmetros a mais. Ela viu algo diferente... algo novo. Logo depois de ter empurrado Ali, ela ouvira 
um som engasgado, baixo, quase feminino. O som viera de perto, como se a pessoa que o emitira estivesse parada bem atrs dela, respirando em seu pescoo.
        Foi ela, voc sabe.
        Os olhos de Spencer se abriram de uma vez. Seus entrevistadores pareciam ter feito uma pausa. Quentin examinava um croissant a dois centmetros do rosto. 
A cabea de Amanda estava inclinada em um ngulo estranho. Jeffrey segurava o guardanapo perto da boca. Spencer se perguntou, de repente, se no havia falado sobre 
sua recm-recuperada lembrana em voz alta.
        - Bem - disse Jeffrey, finalmente. - Obrigado, Spencer. 
        Amanda se levantou, colocando o guardanapo no prato.
        - Isto foi realmente muito interessante.
        Spencer estava bastante convencida de que aquilo era um eufemismo para Voc no tem a menor chance de vencer.
        Os outros entrevistadores se afastaram, como a maioria dos outros candidatos. Quentin foi o nico que permaneceu sentado. Ele a observou cuidadosamente, 
com um sorriso orgulhoso no rosto.
        - Voc  como um sopro de ar fresco, nos dando uma resposta honesta como essa - disse ele em tom baixo, meio confidencial. - Eu tenho acompanhado o caso 
da sua amiga por algum tempo.  realmente terrvel. A polcia tem algum suspeito?
        A sada do ar-condicionado acima da cabea de Spencer atirava ar gelado sobre ela com fora total, e a imagem de Melissa decepando a cabea de uma Barbie 
apareceu em sua mente.
        - No, no tem - murmurou ela. 
        Mas pode ser que eu tenha.
25
DESGRAA POUCA  BOBAGEM
Na sexta-feira aps as aulas, Emily torceu seu cabelo ainda molhado do treino de natao e foi para a sala do Livro do Ano, que estava forrada com fotos do melhor 
de Rosewood Day. Havia Spencer no ano anterior, na cerimnia de graduao aceitando o prmio de "Aluno de Matemtica do Ano". E havia Hanna comandando o desfile 
beneficente de Rosewood Day no ano passado, quando ela mesma deveria estar desfilando. 
        Duas mos fecharam-se sobre os olhos de Emily.
        - Ol - sussurrou Maya em seu ouvido -, como foi o treino? - perguntou de uma forma provocante, quase como um acalanto.
        - Bem. - Emily sentiu os lbios de Maya roando contra os dela, mas no pde beij-la de volta.
        Scott Chin, o fotgrafo do Livro do Ano que se fazia de enrustido entrou na sala.
        - Pessoal! Parabns! - Ele cumprimentou as duas beijando o ar e depois estendeu a mo para virar a gola de Emily e tirar um cabelo rebelde do rosto de Maya.
        - Perfeito - disse ele.
        Scott encaminhou Maya e Emily em direo ao fundo branco na parede distante.
        -  Estamos tirando as fotos dos "provavelmente" ali. Pessoalmente, eu adoraria ver vocs duas contra um fundo de arco-ris. No seria demais? Mas temos que 
ser coerentes.
        Emily franziu a testa.
        - "Provavelmente"... O qu? Pensei que tivssemos sido eleitas o casal do ano.
        O bon xadrez de Scott escorregou sobre um de seus olhos quando ele se inclinou sobre o trip da cmera.
        - No, vocs foram votadas como "Casal que provavelmente continuar junto no quinto aniversrio de formatura".
        Emily ficou de queixo cado. No quinto aniversrio? No era um pouco demais?
        Ela massageou a parte de trs do pescoo, tentando se acalmar. Mas no se sentia calma desde que encontrara o bilhete de A no banheiro do restaurante. Sem 
saber o que fazer com ele, o guardara no bolso da frente da sua bolsa. Ela o tirava de vez em quando durante as aulas, pressionando-o contra o nariz toda vez para 
sentir o aroma de chiclete de banana.
        - Digam xiiiiiis! - gritou Scott, e Emily se moveu em direo a Maya tentando sorrir. O flash da cmera de Scott ofuscou os olhos delas e deixou a sala de 
repente cheirando a aparelhos eletrnicos queimados. Na foto seguinte, Maya beijou Emily no rosto; e, na seguinte, Emily permitiu-se beijar os lbios de Maya.
        - Quente! - estimulou Scott.
        Ele olhou a prvia da foto pelo visor da cmera.
        - Esto liberadas - disse ele. Depois fez uma pausa, olhando com curiosidade para Emily. - Na verdade, antes de irem, h algo que talvez queiram ver.
        Ele mostrou a Emily uma enorme prancheta e apontou algumas fotos diagramadas em duas pginas. Saudade Eterna, dizia o ttulo no topo do esboo. Uma foto 
familiar do stimo ano olhava para Emily - ela no s tinha uma cpia na gaveta de cima do seu criado-mudo, mas tambm a vira quase todas as noites nos noticirios 
h alguns meses.
        - A escola nunca fez nenhuma pgina para Alison quando ela desapareceu - explicou Scott -, e agora que ela... Bem... Ns achamos que era nosso dever. Devemos 
ter tambm um evento comemorativo para mostrar todas essas fotos antigas de Ali. Algo como uma retrospectiva dela, por assim dizer.
        Emily tocou a borda de uma das fotos. Ela, Ali, Spencer, Aria e Hanna estavam numa mesa do refeitrio. Na foto, todas estavam agarradas s suas Diet Cokes, 
com as cabeas jogadas para trs num riso histrico.
        Perto dessa, havia uma foto somente de Ali e Emily andando pelo corredor com seus livros apertados contra o peito. Emily inclinada sobre a pequena Ali, e 
Ali se apoiando nela, cochichando algo em seu ouvido. Emily mordeu o n dos dedos. Mesmo achando muitas coisas sobre Ali, coisas que ela desejava que Ali tivesse 
dividido com ela h anos, ela ainda sentia tanta falta da amiga que chegava a doer.
        Havia algo mais em segundo plano na foto, que a princpio Emily no havia notado. Ela tinha longos e negros cabelos compridos e um rosto familiar com mas 
salientes. Seus olhos eram arredondados e verdes e seus lbios eram cor-de-rosa e arqueados. Jenna Cavanaugh.
        A cabea de Jenna estava virada na direo de algum ao lado dela, mas Emily s podia ver a extremidade do brao plido e fino da outra garota. Era estranho 
ver Jenna... quando ainda era capaz de enxergar. Emily olhou para Maya, que j estava vendo a foto seguinte, obviamente no percebendo a relevncia dessa foto em 
particular. Havia muita coisa que Emily no tinha contado a ela.
        -  Essa  Ali? - perguntou Maya, apontando para uma foto de Ali e seu irmo, Jason, abraados no refeitrio de Rosewood Day.
        - Hum, . - Emily no conseguia controlar a irritao em sua voz.
        - Ah - Maya fez uma pausa -,  que no parece com ela.
        - Parece com todas as outras fotos de Ali aqui - Emily se controlou para no revirar os olhos diante da viso da foto. Ali parecia impossivelmente jovem, 
talvez somente dez ou onze anos. Havia sido tirada antes de elas se tornarem amigas. Era difcil acreditar que algum dia Ali j havia sido a lder de uma turma completamente 
diferente: Naomi Zeigler e Riley Wolfe haviam sido suas subordinadas. Elas haviam at mesmo provocado Emily e as outras garotas de tempos em tempos, zombando do 
cabelo de Emily, que ficava verde graas s horas passadas na gua clorada.
        Emily estudou o rosto de Jason. Ele parecia to contente por estar dando um abrao de urso em Ali. O que, pelo amor de Deus, ele quisera dizer na entrevista 
do dia anterior quando afirmara que sua famlia era problemtica?
        - O que  isso? - Maya apontou para as fotos na mesa ao lado.
        - Ah,  o projeto de Brenna. - Scott mostrou a lngua e Emily no conseguiu conter o riso. A amarga rivalidade entre Scott e Brenna Richardson, outra fotgrafa 
do Livro do Ano, era coisa de programa de televiso. - Mas desta vez achei uma boa ideia. Ela tirou fotos do interior das bolsas das pessoas para mostrar o que um 
tpico aluno do Rosewood carrega por a todo dia. Spencer ainda no viu, em todo o caso, ento talvez ela no aprove.
        Emily se inclinou sobre a mesa. O comit do anurio havia escrito o nome do dono de cada bolsa prximo s fotos. Dentro da bolsa de lacrosse de Noel Kahn 
havia uma toalha que era um foco de bactrias, o esquilo de pelcia da sorte, do qual ele sempre falava, e desodorante Axe. Eca. A sacola xadrez cinza-elefante de 
Naomi Zeigler continha um iPod Nano, um estojo de culos Dolce & Gabbana e um objeto quadrado que podia ser uma cmera ou uma lupa de joalheiro. Mona Vanderwaal 
carregava por a brilho labial da marca M.A.C., um pacote de lenos de papel e trs organizadores diferentes. Parte de uma foto mostrando um brao magro com uma 
manga puda no punho aparecia do nada. A mochila de Andrew Campbell continha oito livros didticos, uma agenda com capa de couro e o mesmo modelo de celular Nokia 
que Emily tinha. A foto mostrava o comeo de uma mensagem de texto que ele estava recebendo ou enviando, mas Emily no conseguiu ler o que estava escrito.
        Quando Emily olhou para cima, viu Scott mexendo em sua cmera, mas no viu Maya em parte alguma na sala. Logo em seguida, seu celular comeou a vibrar. Ela 
tinha uma nova mensagem de texto.
        Tsc, tsc, Emily! Sua namorada sabe sobre sua fraqueza 
        por loiras? Eu guardarei o seu segredo... se voc guardar 
        o meu. Beijos! - A
        O corao de Emily martelava. Fraqueza por loiras? E... Aonde Maya tinha se metido?
        - Emily?
        Uma garota estava na porta da sala, vestindo uma batinha transparente, como se fosse impermevel ao frio do meio de outubro. Seu cabelo loiro chicoteava 
pelo ar como o de uma modelo de biquni em frente a um ventilador.
        - Trista? - Emily deixou escapar.
        Maya reapareceu no corredor, franzindo a testa e depois sorrindo.
        - Em! Quem  essa?
        Emily virou sua cabea para Maya.
        - Onde voc estava ainda agora? 
        Maya levantou a cabea.
        - Eu estava... no saguo.
        - O que voc estava fazendo? - quis saber Emily.
        Maya olhou para ela como se dissesse: E dai, o que isso importa? Emily piscou com fora. Ela sentiu como se estivesse ficando maluca, suspeitando de Maya. 
Ela olhou para trs, para Trista, que estava caminhando pela sala.
        -  Que bom encontrar voc! - gritou Trista. Ela deu um enorme abrao em Emily. - Acabei de saltar do avio! Surpresa!
        -  - grunhiu Emily, sua voz era praticamente um sussurro. Por sobre o ombro de Trista, Emily pode ver Maya olhando para ela. - Surpresa.
26
DELICIOSAMENTE PEGAJOSO,
AINDA QUE NO REFINADO
Depois da aula, na sexta-feira, Aria dirigiu pela avenida Lancaster passando pela frente de uma fileira de lojas: Fresh Fields, A Pea in the Pod e Home Depot. A 
tarde estava nublada, fazendo as rvores coloridas que margeavam a estrada parecerem desbotadas e simples.
        Mike estava sentado ao lado dela, de mau humor, abrindo e fechando a tampa automtica da sua garrafa Nalgene.
        - Estou perdendo o treino de lacrosse - resmungou ele. -Quando voc vai me contar o que estamos fazendo?
        - Estamos indo a um lugar para acertar as coisas - disse Aria firmemente. - E no se preocupe, voc vai amar.
        Enquanto ela parava num cruzamento, um fluxo de prazer corria atravs dela. As dicas de A sobre Meredith - que ela tinha um segredinho sujo sobre o Hooters 
- faziam todo sentido. Meredith estava agindo de forma estranha desde que Aria a havia visto em Hollis outro dia, dizendo que tinha que ir a algum lugar, mas no 
contando onde era. E apenas duas noites atrs, Meredith tinha comentado que o aluguel da casa de Hollis tinha aumentado e ela no estava conseguindo ganhar muito 
com sua arte ultimamente, ento ela precisaria arrumar um segundo emprego para remediar a situao. As garotas do restaurante Hooters provavelmente ganhavam timas 
gorjetas.
        Hooters. Aria apertou os lbios para no cair na gargalhada. Ela mal podia esperar para revelar tudo a Byron.Toda vez que eles passavam em frente a esse 
lugar, Byron dizia que somente homens que mais pareciam macacos, brutamontes abobados, o frequentavam. Na noite anterior, Aria havia dado a Meredith a chance de 
ela mesma admitir seus pecados perante Byron, dizendo:
        - Sei o que est escondendo. E sabe do que mais? Contarei tudo para Byron se voc no contar.
        Meredith havia recuado, derrubando o pano de prato de suas mos. Ento, ela se sentia culpada a respeito de alguma coisa! Ainda assim, ela ainda no havia 
dito nada claramente a respeito para Byron. Naquela manh mesmo eles haviam compartilhado a mesa do caf da manh, to felizes quanto antes.
        Ento, Aria decidiu fazer justia com as prprias mos.
        Mesmo sendo meio de tarde, o estacionamento do Hooters estava quase lotado. Aria notou quatro carros de polcia alinhados - o lugar era notoriamente um ponto 
de encontro de policiais, j que era vizinho do posto de polcia. A coruja na placa Hooters sorriu para eles e Aria j podia ver as garotas em camisetas coladas 
e minishorts cor de laranja atravs das janelas coloridas. Mas quando ela olhou para Mike, ele no estava babando nem ficando excitado ou qualquer coisa que os garotos 
normalmente faziam quando paravam naquele lugar. Pelo contrrio, ele parecia irritado.
        - Que diabos ns estamos fazendo aqui? - esbravejou ele.
        -  Meredith trabalha aqui - explicou Aria -, e eu queria que voc viesse comigo para que pudssemos confront-la juntos.
        A boca de Mike se abriu tanto que Aria conseguiu enxergar um chiclete alojado entre os molares dele. 
        -Voc quer dizer... a Meredith do papai...?
        - Isso mesmo.
        Aria procurou pelo seu celular Treo na bolsa - ela queria tirar fotos de Meredith para provar - mas no o encontrou no lugar de sempre. O estmago dela se 
revirou. Ela tinha perdido? Tinha esquecido seu telefone na mesa depois de ter recebido o bilhete de A na aula de artes, correndo para fora da sala e despindo a 
mscara na entrada do banheiro da Hollis. Ela tinha se esquecido de peg-lo? Fez um lembrete mental para passar na sala de aula mais tarde e procurar por ele.
        Quando Aria e Mike entraram pela porta dupla, foram saudados por uma barulhenta msica dos Rolling Stones. As narinas de Aria foram invadidas pelo cheiro 
de frango frito. Uma garota loura, superbronzeada os recepcionou:
        - Ol! - disse ela alegremente. - Bem-vindos ao Hooters! 
        Aria deu seu nome e a garota se virou para procurar uma mesa disponvel, rebolando enquanto se afastava. Aria cutucou Mike.
        -Voc viu os peitos dela? Gigantes!
        Ela no podia acreditar nas coisas que estavam saindo de sua boca. Mike, no entanto, no deu nem mesmo um sorriso. Ele estava agindo como se Aria o tivesse 
arrastado para um sarau de poesia em vez de um paraso de peitudas. A recepcionista voltou e os levou para a mesa. Quando se sentaram diante dos talheres prateados, 
Aria viu diretamente atravs da camiseta da garota o suti fcsia que ela usava. Os olhos de Mike permaneciam fixos no carpete laranja, como se esse tipo de coisa 
fosse contra a sua religio.
        Depois que a recepcionista saiu, Aria olhou em volta. Reparou num grupo de policiais do outro lado da sala, empurrando pratos enormes de costelas e batatas 
fritas, olhando alternadamente para o jogo de futebol americano na televiso e para as garonetes que passavam pela mesa. Entre eles estava o policial Wilden. Aria 
escorregou no assento. No que ele no pudesse estar ali - o Hooters sempre insistira na propaganda de que era um restaurante familiar - mas ela tambm no se sentia 
 vontade para ver Wilden neste momento.
        Mike olhava com azedume para o cardpio enquanto mais seis garonetes passavam por eles, cada uma mais rebolativa que a outra. Aria imaginou se, de alguma 
forma, instantaneamente, Mike tinha virado gay. Ela se afastou - se ele ia agir assim, tudo bem. Ela procuraria por Meredith sozinha.
        Todas as garotas estavam vestidas da mesma maneira, suas camisetas e shorts em tamanho mnimo e seus tnis do mesmo tipo que as garotas do time de torcida 
organizada haviam usado no jogo daquele dia. Todas elas tinham um rosto semelhante, tambm, o que deveria facilitar a busca por Meredith entre elas. S que ela no 
via nenhuma morena ali, muito menos uma com tatuagem de teia de aranha. No momento em que a garonete trouxe uma enorme travessa de batatas fritas, Aria finalmente 
tomou coragem de perguntar.
        - Voc sabe se algum chamada Meredith Gates trabalha aqui?
        A garonete piscou.
        -  No reconheo esse nome. Apesar que muitas vezes as garotas daqui usam outros nomes. Voc sabe, coisas mais... - ela parou, procurando por um adjetivo.
        - Hooter-escas? - sugeriu Aria, brincando.
        - Sim! - A garota sorriu. Quando ela se afastou rebolando novamente, Aria torceu o nariz e cutucou Mike com uma batata.
        -  Que nome voc acha que Meredith usa aqui? Randy? Fifi? J sei! Que tal Caitlin? Isso  realmente ousado, no ?
        -  Quer parar com isso? - Mike explodiu. - No quero ouvir nada sobre... sobre ela, est bem?
        Aria piscou e se recostou no assento.
        O rosto de Mike ficou afogueado.
        -Voc pensa que essa  a grande coisa que vai consertar tudo? Esfregar o fato de que o papai est com outra mulher na minha cara, outra vez? - Ele enfiou 
um punhado de batatas fritas na boca de uma vez s e desviou o olhar. - No importa. J superei isso.
        -  Eu quero compensar tudo para voc - gritou Aria. - Quero fazer tudo melhorar.
        Mike soltou uma gargalhada.
        - No h nada que voc possa fazer, Aria. Voc arruinou a minha vida.
        - Eu no arruinei nada! - Aria arfou.
        Os olhos azuis e frios de Mike se estreitaram. Ele jogou seu guardanapo na mesa, se levantou e enfiou o brao na manga do bluso.
        - Preciso voltar para o treino de lacrosse.
        - Espere! -Aria o agarrou pela cintura. 
        De repente, ela sentiu vontade de chorar.
        - No v - Aria gemeu. - Mike, por favor. Minha vida est arruinada tambm. E no s por causa do papai e de Meredith. Por causa de... uma outra coisa.
        Mike olhou para ela sobre o ombro.
        - Do que voc est falando?
        -  Sente-se - disse Aria, desesperada. Um longo tempo se passou. Mike resmungou, depois se sentou. Aria olhou para a travessa de batatas, reunindo coragem 
para falar. Ela escutou dois homens conversando sobre a defesa ttica dos Eagles ao fundo. Um comercial de loja de carros usados na TV de tela plana sobre o bar 
mostrava um homem fantasiado de galinha tagarelando qualquer coisa sobre os preos deles serem canja de galinha.
        - Tenho recebido ameaas de algum - sussurrou Aria. - Algum que conhece tudo sobre mim. A pessoa que est me ameaando foi inclusive quem contou a Ella 
sobre o relacionamento entre Byron e Meredith. Algumas das minhas amigas tambm esto recebendo mensagens e ns achamos que a pessoa por trs delas tambm est por 
trs do atropelamento de Hanna. Eu mesma recebi uma mensagem avisando sobre Meredith estar trabalhando aqui. No sei como essa pessoa sabe todas essas coisas mas, 
simplesmente... sabe. - Ela encolheu os ombros.
        Mais dois comerciais passaram antes que Mike falasse. 
        -Voc tem um perseguidor? 
        Aria assentiu, miseravelmente.
        Mike piscou, confuso. Ele apontou para a mesa dos policiais.
        -Voc contou a algum deles? 
        Aria sacudiu a cabea.
        - No posso.
        -  claro que pode. Podemos falar com eles agora mesmo.
        - Est tudo sob controle - disse Aria entre os dentes, apertando os dedos contra suas tmporas. - Talvez eu no devesse ter contado a voc.
        Mike se inclinou para a frente.
        -Voc no se lembra de todas as coisas esquisitas que aconteceram nessa cidade? Voc precisa contar a algum.
        -  Por que voc se importa? - Aria rangeu os dentes, seu corpo se enchendo de raiva. - Achei que voc me odiasse. Pensei que tinha arruinado a sua vida.
        O rosto de Mike ficou relaxado. Seu pomo de ado balanou quando ele engoliu e quando ele se levantou, parecia mais alto do que Aria se lembrava. E mais 
forte, tambm. Talvez fosse todo o lacrosse que ele vinha jogando, ou talvez porque ele estava sendo o homem da casa nos ltimos tempos. Ele pegou Aria pelo pulso 
e a ergueu.
        -Voc vai contar a eles.
        O lbio de Aria tremeu.
        - Mas e se no for seguro?
        - Inseguro  no contar - argumentou Mike. - E... eu vou mant-la segura. Est bem?
        O corao de Aria parecia um brownie recm-sado do forno - todo quente, grudento e um pouco derretido. Ela sorriu desajeitadamente, ento olhou para o letreiro 
de neon abaixo do nome do restaurante. Dizia DELICIOSAMENTE PEGAJOSO, AINDA QUE NO REFINADO. Mas o letreiro estava quebrado; todas as letras estavam escuras exceto 
o A de pegajoso em letra minscula, que piscava ameaadoramente. Quando Aria fechou os olhos o A permaneceu, brilhando como o sol.
        Ela inspirou profundamente.
        - Tudo bem - sussurrou ela.
        Enquanto ela se afastava de Mike e caminhava em direo aos policiais, a garonete voltou com a conta. Assim que a garota se virou para sair, Mike ficou 
com um ar sorrateiro, estendeu as duas mos e apertou o ar, como se estivesse apertando o traseiro da garota no short de seda cor de laranja. Ele percebeu o olhar 
de Aria e piscou.
        Parecia que o verdadeiro Mike Montgomery estava de volta.
        Aria tinha sentido saudades.
27
TRINGULO AMOROSO BIZARRO
Sexta-feira  noite, logo antes de a limusine que deveria escolt-la  sua festa chegar, Hanna estava em seu quarto dando voltas com seu vestido Nieves Lavi, brilhantemente 
estampado. Finalmente, ela cabia perfeitamente no tamanho 36, graas a uma dieta de alimentao intravenosa e pontos em seu rosto, o que tornava dolorido demais 
mastigar alimentos slidos.
        - Isso fica timo em voc - falou uma voz. - Exceto por eu achar que voc est magra demais.
        Hanna virou-se. Em seu terno de l preta, gravata de um tom roxo escuro e camisa listrada de roxo, seu pai parecia George Clooney em Onze homens e um segredo.
        - Eu no estou to magra - respondeu ela rapidamente, tentando esconder sua empolgao. - Kate  muito mais magra que eu.
        O rosto de seu pai se anuviou, talvez pela meno  sua perfeita, equilibrada - e ainda assim incrivelmente m - quase enteada.
        - O que voc est fazendo aqui, afinal? - inquiriu Hanna.
        - Sua me me deixou entrar. - Ele entrou no quarto da filha e se sentou na cama dela. O estmago de Hanna se revirou. Seu pai no havia estado em seu quarto 
desde que ela tinha doze anos, logo depois de se mudar.
        -  Ela disse que eu poderia me trocar aqui antes da sua grande festa.
        -  Voc vai? - guinchou Hanna.
        - Posso? - perguntou ele.
        - Eu... Eu acho que sim. - Os pais de Spencer iam, assim como alguns professores e funcionrios do colgio Rosewood Day. - Mas, quero dizer, acho que voc 
vai querer voltar para Annapolis... E para Kate e Isabel. Afinal de contas, voc est longe delas h quase uma semana.
        Ela no conseguia esconder a amargura em sua voz.
        - Hanna... - seu pai comeou. Hanna se afastou. De repente, ela sentiu tanta raiva por seu pai ter deixado a famlia, por ele estar ali agora, por ele talvez 
amar mais a Kate do que ela... isso sem falar nas cicatrizes que tinha por todo o resto e no fato de sua memria sobre os acontecimentos da noite de sbado ainda 
no ter retomado. Ela sentiu lgrimas em seus olhos, o que a fez sentir ainda mais raiva.
        - Venha aqui. - Seu pai ps seus braos fortes em torno dela e quando ela apoiou sua cabea contra o peito dele, ela pde ouvir seu corao batendo.
        -Voc est bem? - perguntou ele.
        Uma buzina tocou do lado de fora. Hanna puxou o cortinado de bambu e viu a limusine que Mona havia arranjado esperando por ela na rua, seus limpadores de 
para-brisa movendo-se furiosamente para afastar a chuva.
        - Estou tima - disse ela repentinamente, o mundo parecia ter voltado ao lugar certo novamente. Ela deslizou sua mscara Dior sobre o rosto. - Eu sou Hanna 
Marin e sou fabulosa.
        Seu pai lhe entregou um enorme guarda-chuva preto. 
        -Voc certamente  - disse ele. E, pela primeira vez, Hanna achou que devia mesmo acreditar nele.
No que pareceram apenas alguns segundos depois, Hanna estava empoleirada sobre uma liteira, tentando evitar que as bodas da ornamentao arrancassem sua mscara 
Dior. Quatro escravos maravilhosos a haviam iado e agora estavam comeando seu lento desfile em direo  tenda da festa no dcimo quinto buraco do campo de golfe 
do Contry Clube de Rosewood.
        - Apresentando... No seu grande retorno a Rosewood... A fabulosa Hanna Marin! - gritou Mona num microfone.
        Enquanto a multido aplaudia loucamente, Hanna acenava cheia de excitao. Todos os convidados estavam usando mscaras e Mona e Spencer haviam transformado 
a tenda em um Salon de l'Europe at Le Casino de Monte Carlo, Mnaco. Tinha falsas paredes de mrmore, afrescos dramticos, roletas e mesas de jogos. Elegantes e 
lindos rapazes circulavam pela sala com bandejas de canaps, ocupavam os dois bares da tenda e agiam como crupis nas mesas de apostas. Hanna havia exigido que ningum 
da equipe da festa fosse mulher.
        O DJ tinha passado para a nova msica da dupla White Stripes e todos comearam a danar. Uma mo magra e plida pegou Hanna pelo brao e Mona a arrastou 
pela multido lhe dando um grande abrao.
        -Voc adorou? - Mona gritou por trs da sua mscara sem expresso, que era bem parecida com a obra-prima da Dior, de Hanna,
        - Claro! - Hanna bateu seu quadril contra o de Mona. - E adorei as mesas de jogos. Algum ganha alguma coisa?
        - Eles ganham uma noite quente com uma garota quente: voc, Hanna! - gritou Spencer, empinando-se atrs delas. Mona agarrou a mo dela tambm e a as trs 
deram pulinhos de alegria. Spencer parecia uma Audrey Hepburn loira no seu vestido trapzio de cetim e adorveis sapatos baixos de bico redondo. Quando Spencer colocou 
seu brao em torno dos ombros de Mona, o corao de Hanna pulou. Por mais que ela no quisesse dar crdito a A por nada, os bilhetes para Mona haviam feito com que 
ela aceitasse as antigas amigas de Hanna, No dia anterior, entre rodadas do jogo de beber da Mandy Moore, Mona dissera  Hanna:
        - Sabe, Spencer  legal mesmo. Acho que ela pode ser das nossas. - Hanna havia esperado que Mona dissesse algo assim por anos.
        - Voc est tima - disse uma voz no ouvido de Hanna. Um garoto estava atrs delas, vestido num terno de risca de giz alugado com camisa de manga longa combinando 
e uma mscara de ave com bico longo. O cabelo louro claro de Lucas, que o denunciava, escapava pelo alto da mscara. Quando ele estendeu sua mo e apertou a dela, 
o corao de Hanna acelerou. Ela a segurou por um segundo, apertou e soltou antes que algum pudesse ver.
        - A festa est excelente - disse Lucas.
        -  Obrigada, no  nada de mais - intrometeu-se Mona. Ela cutucou Hanna, - Apesar de que, eu no sei, Han, Voc acha que essa coisa horrorosa que Lucas est 
usando se qualifica como mscara?
        Hanna olhou para Mona, desejando que ela pudesse ver seu rosto. Ela olhou sobre os ombros de Lucas, fingindo estar distrada com algo que estava acontecendo 
na mesa de vinte e um.
        - E a, Hanna, posso falar com voc um minuto? - perguntou Lucas. - A ss?
        Mona agora estava conversando com um dos garons.
        - Hum, tudo bem - murmurou Hanna.
        Lucas a levou para um canto recluso e tirou sua mscara. Hanna tentou conter a tempestade de nervos que se formava em suas entranhas, evitando olhar para 
qualquer coisa prxima dos lbios super-rosa e superbeijveis de Lucas.
        - Posso tirar a sua tambm? - perguntou ele.
        Hanna assegurou-se que estavam mesmo a ss e de que ningum mais poderia ver seu rosto cheio de cicatrizes e ento ela deixou que ele levantasse sua mscara. 
Lucas beijou suavemente seus pontos.
        - Senti sua falta - murmurou ele.
        - Faz apenas duas horas que voc me viu - riu Hanna. 
        Lucas deu um sorriso torto.
        - Isso parece que foi h muito tempo.
        Eles se beijaram por alguns minutos a mais, se aconchegando juntos sobre uma almofada de poltrona, alheios  cacofonia de rudos da festa. Depois Hanna ouviu 
seu nome atravs das cortinas transparentes da tenda.
        - Hanna? - chamou a voz de Mona. - Han? Cad voc? 
        Hanna surtou.
        - Preciso voltar pra l. - Ela pegou a mscara de Lucas pelo bico e enfiou de novo nele. - E voc precisa colocar isso de volta.
        Lucas franziu a testa.
        -  Est quente debaixo desta coisa. Acho que vou ficar sem.
        Hanna amarrou sua mscara bem apertada.
        -   um baile de mscaras, Lucas. Se Mona vir que voc tirou a sua, ela pe voc para fora, e isso  srio.
        O olhar de Lucas endureceu. 
        -Voc sempre faz o que Mona diz? 
        Hanna ficou tensa.
        - No.
        - Bom. Voc no devia.
        Hanna brincou com as franjas de uma das almofadas. Ela olhou para Lucas novamente.
        - O que voc quer que eu diga, Lucas? Ela  minha melhor arruga.
        - Ela j disse o que fez com voc? - cutucou Lucas. - Quero dizer, na festa dela.
        Hanna se levantou, contrariada.
        - Eu j te disse, no importa. 
        Ele baixou os olhos.
        - Eu me importo com voc, Hanna. No acho que ela se importe com algum. No deixe a peteca cair, certo? Pea a ela para lhe contar a verdade. Acho que voc 
merece saber.
        Hanna o encarou duramente por algum tempo. Os olhos de Lucas estavam brilhando e seus lbios tremeram um pouco. Havia um vergo roxo em seu pescoo da sesso 
de beijos que acontecera mais cedo. Ela queria estender a mo e toc-lo com seu polegar.
        Sem dizer mais nada, ela abriu a cortina e correu de volta para a pista de dana. O irmo de Aria, Mike, estava demonstrando sua melhor dana ertica para 
uma garota da escola Quaker. Andrew Campbell e seus amigos nerds dos torneios de cincias estavam conversando sobre contar cartas no vinte e um. Hanna sorriu ao 
ver seu pai conversando com sua antiga treinadora da torcida organizada, uma mulher que ela e Mona apelidaram secretamente de The Rock, por causa da sua semelhana 
com o lutador profissional.
        Ela finalmente encontrou Mona recostada em uma liteira. O irmo mais velho de Eric Kahn, Noel, se inclinava sobre ela, sussurrando em seu ouvido. Mona reparou 
em Hanna e se sentou.
        - Graas a Deus voc se livrou do otrio do Lucas - vociferou ela. - Por que ele estava rondando voc, afinal?
        Hanna coou seus pontos sob a mscara, seu corao subitamente palpitando. De repente, ela sentiu necessidade de perguntar a Mona. Ela precisava ter certeza.
        - Lucas disse que eu no deveria confiar em voc. - Ela forou uma risada. - Ele disse que h algo que voc no me contou, como se houvesse algo que algum 
dia voc no fosse me contar. - Ela revirou os olhos. - Quero dizer, ele est mentindo descaradamente para mim.  to ridculo.
        Mona cruzou as pernas e suspirou.
        - Acho que sei do que ele est falando.
        Hanna engoliu em seco. A sala subitamente cheirava fortemente a incenso e grama recm-cortada. Houve uma exploso de aplausos na mesa de blackjack; algum 
havia ganhado. Mona chegou perto dela, falando diretamente no ouvido de Hanna.
        - Eu nunca contei isso a voc, mas Lucas e eu samos no vero entre o stimo e o oitavo ano. Eu fui o primeiro beijo dele. Eu o dispensei quando voc e eu 
ficamos amigas. Ele continuou me ligando por mais ou menos uns seis meses depois disso. No tenho certeza se ele j superou.
        Hanna sentou-se, atordoada. Ela de repente se sentia como num daqueles balanos de parque de diverses, que mudavam bruscamente de direo no meio do passeio.
        -Voc e Lucas... saram?
        Mona baixou os olhos e tirou um cacho de cabelo dourado para fora da mscara.
        - Sinto muito por no ter contado nada a respeito antes.  s que... Lucas  um perdedor, Han. Eu no queria que voc pensasse que eu era perdedora tambm.
        Hanna correu as mos pelo cabelo, pensando na sua conversa com Lucas no balo de ar quente. Ela tinha contado tudo a ele, e ele tinha parecido to franco 
e inocente. Ela pensou em como o beijo deles tinha sido intenso e nos gemidos que ele deu quando ela passou seus dedos pelo pescoo dele.
        - Quer dizer que ele estava tentando ser meu amigo para dizer coisas ruins sobre voc... E se vingar por voc t-lo dispensado? - balbuciou Hanna.
        - Acho que sim - disse Mona, tristemente. -  nele que voc no deve confiar, Hanna.
        Hanna se levantou. Ela se lembrou de como Lucas havia dito que ela era to bonita e como tinha sido bom ouvir isso. Como ele leu para ela os desabafos no 
blog DoceDirio enquanto as enfermeiras trocavam suas bolsas de soro. Como, depois dele t-la beijado na cama do hospital, seu ritmo cardaco se elevou por meia 
hora completa - ela olhou no monitor que media a frequncia. Hanna havia contado a Lucas sobre seus problemas com comida. Sobre Kate. Sobre sua amizade com Ali. 
Sobre A! Por que ele nunca tinha contado a ela sobre Mona?
        Lucas agora estava sentado em outro sof, conversando com Andrew Campbell. Hanna foi diretamente em direo a ele, e Mona a seguiu, segurando seu brao.
        - Deixe isso para depois. Por que eu simplesmente no o expulso? Voc deveria estar curtindo sua grande noite.
        Hanna afastou Mona. Ela cutucou Lucas nas costas do seu terno risca de giz. Quando Lucas se virou, parecia genuinamente feliz em v-la, abrindo um sorriso 
doce, maravilhado.
        - Mona me contou a verdade sobre voc - sibilou Hanna, colocando as mos nos quadris.-Vocs j saram juntos.
        Os lbios de Lucas estremeceram. Ele fechou os olhos com fora, abriu sua boca e depois a fechou novamente. 
        -Oh.
        - Era disso que voc falava, no era? - inquiriu ela. -  por isso que voc quer que eu a odeie.
        - Claro que no - Lucas olhou para ela, suas sobrancelhas se enrugaram. - No foi nada srio.
        - Certo - zombou Hanna.
        - Hanna no gosta de garotos que mentem - completou Mona, aparecendo atrs da amiga.
        Lucas ficou boquiaberto. Um fluxo de rubor subiu do seu pescoo at as faces.
        -  Mas suponho que ela goste de garotas que mentem, no ?
        Mona cruzou os braos contra o peito.
        - No estou mentindo sobre nada, Lucas.
        - No? Ento voc contou a Hanna o que realmente aconteceu na sua festa?
        - Isso no importa - guinchou Hanna.
        - Claro que eu contei a ela - disse Mona ao mesmo tempo.
        Lucas olhou para Hanna, seu rosto cada vez mais avermelhado.
        - Ela fez algo horrvel com voc. 
        Mona se colocou na frente dele.
        - Ele est com cime.
        - Ela humilhou voc - completou Lucas. - Eu fui o nico que a defendeu.
        - O qu? - grunhiu Hanna baixinho.
        - Hanna... - Mona tomou as mos dela. -  tudo um mal-entendido.
        O DJ mudou para uma msica da cantora Lexi. Era uma msica que Hanna no ouvia com frequncia e a princpio no tinha muita certeza de quando fora a ltima 
vez. Ento, de repente, ela se lembrou. Lexi tinha sido a atrao especial da festa de Mona.
        Uma lembrana subitamente incendiou a mente de Hanna. Ela se viu usando um vestido colado de cor champanhe, lutando para andar pelo planetrio sem que seu 
traje arrebentasse como parecia que estava prestes a acontecer. Ela viu Mona rindo dela e depois sentiu seu joelho e o cotovelo atingindo o duro cho de mrmore. 
Houve um longo e doloroso som de tecido se rasgando enquanto seu vestido cedia e todos se juntaram ao redor dela, gargalhando. Mona foi a que mais riu.
        Sob sua mscara a boca de Hanna se escancarou e seus olhos se arregalaram. No. No podia ser verdade. Sua memria estava bagunada desde o acidente. E, 
mesmo que fosse verdade, isso importava agora? Ela olhou para o seu novssimo bracelete Paul & Joe, uma delicada corrente de ouro com o pingente na forma de uma 
linda borboleta. Mona havia comprado para ela como presente de boas-vindas do hospital, presenteando-a logo aps A ter enviado aquele ameaador carto-postal eletrnico.
        -  No quero que briguemos nunca mais - Mona havia dito enquanto Hanna abria a caixa da joia.
        Lucas a encarou com expectativa. Mona tinha as mos na cintura, esperando. Hanna fez um n mais forte no lao que prendia a mscara.
        -Voc est apenas com cime - disse ela a Lucas, colocando seu brao em torno de Mona - Ns somos melhores amigas. E sempre seremos.
        O rosto de Lucas se contorceu.
        - Tudo bem. - Ele se virou e saiu correndo porta afora.
        -  Que babaca - disse Mona, escorregando o brao at a curva do cotovelo de Hanna.
        -  - disse Hanna, mas sua voz saiu to baixa que ela duvidou de que Mona tivesse ouvido.
28
POBRE MENININHA MORTA
O cu estava escurecendo na noite de sexta-feira, quando a sra. Fields deixou Emily e Trista na entrada principal do Country Clube
        - Agora, vocs conhecem as regras - disse a sra. Fields, em tom severo, esticando um brao por sobre o banco de Emily. - Nada de beber. Estejam em casa  
meia-noite. Carolyn vai dar uma carona para vocs at em casa. Entendido?
        Emily assentiu. Era at um alvio que sua me estivesse impondo aquelas regras. Seus pais andavam to condescendentes desde que voltara para casa que ela 
estava comeando a pensar que os dois tinham tumores no crebro ou tinham sido substitudos por clones.
        Enquanto o carro da me de Emily se afastava rapidamente, ela ajeitou o vestido preto de jrsei, que pegara emprestado no closet de Carolyn, e tentou se 
equilibrar nos sapatos de salto alto de couro vermelho. A distncia, ela conseguia ver a enorme e iluminada tenda da festa. Os alto-falantes tocavam uma msica da 
Fergie em som altssimo, e Emily ouviu a inconfundvel voz de Noel Kahn comentando, aos gritos:
        - Isto aqui  demais!
        - Eu estou to animada para esta noite - disse Trista, agarrando o brao de Emily.
        - Eu tambm. - Emily abotoou melhor a jaqueta, observando o esqueleto de pano danar ao vento, pendurado na entrada principal do clube. - Se voc pudesse 
ser qualquer personagem do Dia das Bruxas, qual seria? - perguntou ela. Ultimamente, Emily andava pensando tudo em termos de "Tristismos", tentando imaginar com 
que tipo de macarro ela se identificaria mais, que tipo de montanha-russa, que espcie de rvore antiga de Rosewood.
        - Mulher-gato - respondeu Trista, prontamente. - E voc? 
        Emily desviou o olhar. Naquele momento, ela se sentia como algum tipo de bruxa. Depois que Trista a havia surpreendido na sala do livro do ano, ela tinha 
explicado que, como seu pai era piloto da US Air, conseguia timos descontos, mesmo comprando as passagens na ltima hora. Depois da mensagem de Emily na noite anterior, 
ela tinha decidido pegar um avio, acompanhar Emily ao baile de mscaras de Hanna e acampar no cho do quarto de Emily. Emily no sabia como dizer "Voc no deveria 
ter vindo", e tambm no tinha a menor vontade de dizer aquilo.
        - Quando  que a sua amiga vem encontrar a gente? - perguntou Trista.
        - Hum, ela provavelmente j est aqui. - Emily comeou a atravessar o estacionamento, passando por oito carros BMW Srie 7 em seguida.
        - Legal - disse Trista, passando gloss ChapStick nos lbios. Ela o passou para Emily, e seus dedos se tocaram suavemente. Emily sentiu arrepios correndo 
por seu corpo, e quando olhou nos olhos de Trista, a expresso amorosa em seu rosto indicou que ela sentia algo parecido.
        Emily parou perto da cabine do manobrista.
        - Escute. Eu tenho que confessar uma coisa. Maya , tipo, minha namorada.
        Trista dirigiu um olhar sem expresso para ela.
        - E eu, tipo, disse para ela... e para os meus pais... que voc era minha amiga por correspondncia - continuou Emily. - E que ns escrevemos uma para a 
outra j faz alguns anos.
        -  Oh,  mesmo? - Trista lhe deu um empurrozinho de brincadeira. - E por que voc simplesmente no contou a verdade para ela?
        Emily engoliu em seco, esmagando algumas folhas secas com o p.
        -  Bem... Quero dizer, se eu tivesse contado a ela o que realmente aconteceu... Em Iowa... Ela poderia no entender.
        Trista arrumou o cabelo com as mos.
        - Mas no aconteceu nada. Ns s danamos. - Ela cutucou o brao de Emily. - Caramba, ela  to possessiva assim?
        - No. - Emily olhou fixamente para o espantalho no jardim de entrada do Country Clube. Era um dos trs espantalhos espalhados pelo terreno, e mesmo assim 
havia um corvo pousado em um mastro de bandeira perto dali, nem um pouco assustado. - No exatamente.
        -   um problema eu estar aqui? - perguntou Trista, de forma direta.
        Os lbios de Trista eram exatamente do mesmo tom de rosa da saia de bal preferida de Emily, quando ela danava. O vestido dela, de um azul plido, contornava 
seu busto bem-feito e acentuava a cintura fina e o quadril redondo. Ela era como uma fruta madura e suculenta, e Emily sentia vontade de mord-la.
        -  claro que no  um problema voc estar aqui - sussurrou Emily.
        -  Que bom! - Trista colocou a mscara sobre o rosto. - Ento eu vou guardar o seu segredo.
        Quando elas entraram na tenda, Maya viu Emily imediatamente, tirou a mscara de coelhinho e puxou Emily contra si para um beijo superapaixonado. Emily abriu 
os olhos no meio do beijo e percebeu que Maya estava olhando diretamente para Trista, parecendo jogar na cara da garota o que ela e Emily estavam fazendo.
        - Quando  que voc vai se livrar dela? - sussurrou Maya no ouvido de Emily. Emily desviou o olhar, fingindo no ter ouvido.
        Enquanto elas andavam pela tenda da festa, Trista no parava de agarrar o brao de Emily e comentar:
        - Isto aqui  to bonito! Olhem para todas essas almofadas! E... tem tantos gatos aqui na Pensilvnia! E... tantas meninas usam diamantes aqui! - Sua boca 
estava escancarada como a de uma criana na primeira viagem para a Disney. Quando elas foram separadas por um grupo de garotos perto do bar, Maya tirou a mscara.
        -  Essa garota foi criada em uma estufa hermeticamente fechada? - Os olhos de Maya se arregalaram. - Sinceramente, por que ela acha tudo to incrvel?
        Emily olhou para Trista, que estava debruada sobre o balco do bar. Noel Kahn tinha se aproximado dela, e agora estava passando a mo pelo seu brao de 
modo sedutor.
        - Ela s est animada por estar aqui - resmungou Emily. -As coisas so meio tediosas em Iowa.
        Maya inclinou a cabea e deu um passo para trs.
        -  mesmo uma grande coincidncia que voc tenha uma amiga por correspondncia exatamente na mesma cidade de Iowa para onde voc foi banida na semana passada.
        - No exatamente - grunhiu Emily, olhando para a bola luminosa que decorava o teto no centro da tenda. - Ela  da mesma cidade dos meus primos, e Rosewood 
Day fez um intercmbio com a escola dela. Ns comeamos a nos corresponder h uns dois anos.
        Maya apertou os lbios, o maxilar tenso.
        - Ela  terrivelmente linda. Vocs escolheram as parceiras de correspondncia por fotos?
        - No era nada parecido com o Match.com. - Emily deu de ombros, tentando parecer indiferente.
        Maya lanou para Emily um olhar de quem sabe das coisas.
        - Faria todo sentido. Voc era apaixonada pela Alison DiLaurentis, e Trista se parece muito com ela.
        Emily ficou tensa, seus olhos se voltando para um lado e para o outro.
        - No, no parece.
        Maya olhou para o outro lado.
        - Como quiser.
        Emily ponderou o que falaria em seguida com muito cuidado.
        - Aquele chiclete de banana que voc gosta, Maya. Onde voc compra?
        Maya pareceu confusa.
        - Meu pai comprou uma caixa para mim em Londres.
        -  D para achar aqui nos Estados Unidos? Voc conhece algum que saiba? - O corao de Emily estava martelando.
        Maya olhou para ela.
        - Por que diabos voc est me perguntando sobre chiclete de banana? - Antes que Emily pudesse responder, Maya se virou. - Olha, eu vou ao banheiro, t? No 
v a lugar nenhum sem mim. Ns podemos conversar quando eu voltar.
        Emily observou Maya se afastar por entre as mesas de baccarat, sentindo-se como se tivesse carvo quente no estmago. Quase imediatamente, Trista emergiu 
por entre a multido, segurando trs copos de plstico.
        -Tem lcool nas bebidas - sussurrou ela, excitada, apontando para Noel, que ainda estava parado perto do bar. - Aquele garoto tinha uma garrafinha com alguma 
coisa, e me deu um pouco! - Ela olhou em volta. - Cad a Maya?
        Emily deu de ombros.
        - Por a, de mau humor.
        Trista havia tirado a mscara, e sua pele brilhava sob as luzes da pista de dana. Com os lbios cor-de-rosa fazendo biquinho, os enormes olhos azuis e as 
mas do rosto altas, talvez ela se parecesse mesmo um pouco com Ali. Emily sacudiu a cabea e pegou um dos copos - primeiro ela iria beber, depois tentaria entender 
as coisas. O dedo de Trista acariciou o pulso de Emily, sedutoramente. Emily tentou manter o rosto impassvel, mesmo que se sentisse prestes a derreter.
        - Ento, se voc fosse uma cor agora, que cor voc seria? - sussurrou Trista.
        Emily desviou os olhos.
        - Eu seria vermelho - sussurrou Trista. - Mas no um vermelho de raiva. Um vermelho profundo, escuro, bonito. Um vermelho sexy.
        - Acho que eu tambm - admitiu Emily.
        O ritmo da msica pulsava. Emily deu um gole grande na bebida, seu nariz coando com o sabor forte do rum. Quando Trista segurou a mo de Emily, o corao 
dela deu um pulo. Elas se aproximaram, e chegaram ainda mais perto, at que seus lbios estavam quase se tocando.
        - Talvez ns no devssemos fazer isso - murmurou Trista. 
        Mas Emily chegou mais perto assim mesmo, seu corpo tremendo de excitao. 
        Uma mo bateu nas costas de Emily.
        - Que diabos...
        Maya estava parada atrs delas, as narinas tremendo. Emily se afastou rapidamente de Trista, abrindo e fechando a boca como um peixinho dourado.
        - Eu pensei que voc tinha ido ao banheiro. - Foi tudo o que Emily conseguiu dizer.
        Maya piscou, o rosto vermelho de raiva. Ento, ela se virou e saiu da tenda, empurrando as pessoas para fora de seu caminho.
        - Maya! - Emily a seguiu na direo da porta. Mas pouco antes de sair, sentiu uma mo lhe tocando o ombro. Era um homem, que ela no reconheceu, vestindo 
um uniforme da polcia. Ele tinha cabelos muito curtos e arrepiados, e era alto e magro. Sua plaquinha de identificao dizia SIMMONS.
        -Voc  Emily Fields? - perguntou o policial. 
        Emily assentiu lentamente, seu corao acelerando de repente.
        - Eu preciso lhe fazer algumas perguntas - O policial colocou a mo gentilmente no ombro de Emily. -Voc... Voc tem recebido algumas mensagens ameaadoras?
        O queixo de Emily caiu. As luzes estroboscpicas da tenda a deixavam tonta.
        - P-por qu?
        - Sua amiga, Aria Montgomery, nos contou sobre elas esta tarde - disse o policial.
        - O qu? - gritou Emily.
        - Vai ficar tudo bem - tranquilizou-a o policial. - Eu s quero saber o que voc sabe, certo? Provavelmente  algum que voc conhece, algum que est bem 
debaixo do seu nariz. Se voc cooperar conosco, talvez possamos descobrir juntos.
        Emily olhou para fora da entrada da tenda. Maya estava correndo pela grama, os saltos altos afundando na terra fofa. Uma sensao horrvel se apoderou de 
Emily. Ela pensou em como Maya havia olhado para ela quando dissera Eu ouvi dizer que a pessoa que atropelou Hanna a est perseguindo. Como Maya podia saber sobre 
aquilo?
        - Eu no posso falar agora - sussurrou Emily, um n se formando em sua garganta. - Eu preciso cuidar de uma coisa primeiro.
        - Eu estarei aqui - disse o policial, afastando-se para que Emily pudesse passar. - Leve o tempo que precisar. Eu preciso falar com outras pessoas, de qualquer 
forma.
        Emily mal podia ver a silhueta de Maya correndo em direo ao prdio principal do Country Clube. Saiu correndo atrs dela, passando por duas portas francesas 
e um longo corredor. Ela olhou pela ltima porta para o final do corredor, que levava at a piscina coberta. A janela estava embaada, e Emily mal podia ver o pequenino 
corpo de Maya andando em direo  borda da piscina, olhando para o prprio reflexo.
        Ela empurrou a porta e contornou uma parede azulejada que separava a entrada e a rea da piscina. A gua da piscina estava parada, e o ar estava denso e 
mido. Embora Maya certamente tivesse ouvido Emily entrar, no se virou. Se as coisas tivessem sido diferentes, Emily poderia empurrar Maya na gua de brincadeira, 
e depois pular tambm. Ela limpou a garganta.
        - Maya, esse lance com a Trista no  o que parece.
        - No? - Maya olhou por sobre os ombros. - Pareceu bem bvio para mim.
        -  que... ela  divertida - admitiu Emily. - Ela no me pressiona.
        - E eu pressiono voc? - gritou Maya, virando-se. Lgrimas escorriam por seu rosto.
        Emily engoliu em seco, reunindo foras.
        -  Maya... Voc anda me mandando... torpedos? Bilhetes? Voc anda    me espionando?
        A sobrancelha de Maya se franziu.
        - Por que eu espionaria voc?
        - Bem, eu no sei - comeou Emily. - Mas se voc estiver... a polcia sabe.
        Maya sacudiu a cabea lentamente.
        - O que voc est dizendo no faz sentido.
        - Eu no vou contar, se for voc - implorou Emily. - Eu s quero saber por qu.
        Maya deu de ombros e deixou escapar um pequeno suspiro de frustrao.
        - Eu no tenho a menor ideia do que voc est falando. - Uma lgrima escorreu pelo rosto dela. Ela sacudiu a cabea, enojada. - Eu te amo - disse ela, de 
sbito. - E pensei que voc me amasse tambm. - Ela se virou, abriu a porta de vidro que dava para a piscina de uma vez, e ento, a bateu com fora.
        As luzes da piscina diminuram, transformando o reflexo que vinha da gua de branco-dourado para amarelo-alaranjado. Gotas de umidade se acumulavam em cima 
do trampolim. De repente, a ficha caiu para Emily, como o choque de mergulhar em gua gelada em um dia j muito frio.  claro que Maya no era A. Isso tudo fora 
planejado por A para que Maya parecesse suspeita, e para que as coisas entre as duas fossem arruinadas para sempre.
        O celular dela tocou. Emily o agarrou, as mos tremendo.
        Emilinda: Tem uma garota esperando por voc na banheira 
        de hidromassagem. Divirta-se! - A.
        Emily deixou o celular cair para o lado, o corao disparando. A banheira de hidromassagem estava separada da piscina apenas por uma diviso, e tinha uma 
porta particular que levava para o corredor. Emily se dirigiu silenciosamente para a banheira. Ela borbulhava como um caldeiro, e vapor subia da superfcie da gua. 
De repente, ela viu alguma coisa vermelha na gua borbulhante e recuou aterrorizada. Olhando novamente, ela percebeu que era apenas uma boneca, flutuando com o rosto 
para baixo, o longo cabelo ruivo espalhado ao seu redor.
        Ela esticou o brao e pegou a boneca. Era uma Ariel, do desenho A Pequena Sereia. A boneca tinha escamas verdes e guelras roxas, mas em vez de um biquni 
feito de conchinhas do mar, Ariel vestia um uniforme de corrida que dizia TUBARES DE ROSEWOOD DAY no peito. Havia dois X nos olhos dela, como se ela tivesse se 
afogado, e havia algo escrito com um pilot preto e grosso, em sua testa.
        Abra a boca e voc morre. - A
        As mos de Emily comearam a tremer, e ela deixou a boneca cair no cho de azulejos escorregadios. Enquanto se afastava da borda da banheira, uma porta bateu.
        Emily se assustou e seus olhos se arregalaram.
        - Quem est a? - sussurrou ela.
        Silncio.
29
NINGUM PODE OUVIR VOC GRITAR
Aria conduziu seu Subaru amassado at o prdio de artes da Hollis. Uma tempestade estava se formando no horizonte, e a chuva j havia comeado a cair. Ela tinha 
acabado de contar aos policiais sobre A, poucos minutos antes, e apesar de ter tentado ligar para suas velhas amigas do telefone de Wilden, nenhuma delas havia atendido 
- provavelmente porque no reconheceram o nmero. Agora, ela estava no prdio de artes da Hollis, indo verificar se havia deixado seu Treo em algum lugar por ali; 
sem ele, no tinha nada de concreto para provar o que A estava fazendo com ela. Mike havia se oferecido para ir ao prdio com ela, mas ela lhe dissera que o encontraria 
mais tarde, na festa de Hanna.
        Enquanto Aria apertava o boto para chamar o elevador, jogou seu blazer de Rosewood Day nos ombros - ela ainda no havia tido tempo de se trocar. A insistncia 
de Mike para que ela contasse a Wilden sobre A havia sido uma sacudidela para que acordasse, mas ser que tinha feito a coisa certa? Wilden quisera saber os detalhes 
das ltimas mensagens de texto, e-mails e bilhetes que A tinha enviado. Ele perguntou repetidas vezes:
        - Existe algum que vocs quatro tenham magoado? H algum que poderia querer machucar vocs?
        Aria havia feito uma pausa, balanado sua cabea, sem querer responder. Quem elas no tinham machucado, no passado, com Ali no comando? Mas havia uma claramente 
na liderana da "categoria mgoas"... Jenna.
        Ela pensou nos bilhetes de A: Eu sei de TUDO. Estou mais perto do que voc pensa. Ela pensou em Jenna mexendo com nervosismo em seu celular, toda "eu sou 
to sensitiva que at consigo enviar mensagens de texto!". Mas Jenna seria realmente capaz de fazer algo assim? Ela era cega - e A obviamente no era.
        A porta do elevador deslizou e abriu, e Aria entrou. Enquanto era levada ao terceiro andar, ela pensou na lembrana que Hanna havia mencionado logo que acordara 
do coma -aquela sobre a tarde anterior ao desaparecimento de Ali. Ali havia agido de uma forma muito estranha aquele dia, primeiro lendo um dirio que no podia 
mostrar s outras, e em seguida aparecendo no andar inferior momentos depois, completamente desorientada. Aria havia permanecido sozinha na varanda de Ali por alguns 
minutos depois que as outras tinham sado, tricotando as ltimas carreiras de um dos braceletes que ela estava planejando dar a cada uma delas como presente de primeiro-de-todos-os


-dias-do-vero. Enquanto andava em volta da casa para pegar sua bicicleta, ela viu Ali de p no meio do jardim da frente, paralisada. Os olhos de Ali ardiam indo 
da janela, protegida por uma cortina da sala de jantar do DiLaurentis, em direo  casa dos Cavanaugh, do outro lado da rua.
        - Ali? - sussurrara Aria. -Voc est bem?
        Ali no se moveu.
        - s vezes - disse ela, com uma voz ausente -, eu apenas gostaria que ela sasse da minha vida para sempre.
        - O qu? - sussurrou Aria. - Quem?
        Ali parecia atordoada, como se Aria a tivesse acertado com alguma coisa. Havia um lampejo de algo na janela dos DiLaurentis - ou talvez fosse apenas um reflexo. 
E quando Aria olhou para o ptio dos Cavanaugh, viu algum espreitando atrs do grande arbusto da antiga casa na rvore de Toby. Isso fez Aria se lembrar do vulto 
que jurava ter visto parado no ptio dos Cavanaugh, na noite em que elas haviam deixado Jenna cega.
        O elevador fez ding, e Aria saltou. Sobre quem Ali estaria se referindo quando dissera: Eu apenas gostaria que ela sasse da minha vida para sempre? Naquela 
poca, ela havia pensado que Ali se referia a Spencer, j elas brigavam constantemente. Agora, no estava mais to certa disso. Havia muitas coisas que ela no sabia 
sobre Ali.
        O corredor que levava at o ateli de arte conceitual estava escuro, salvo por um breve instante quando o zigue-zague de um relmpago chegou perigosamente 
perto da janela. Quando Aria conseguiu abrir a porta de sua sala de aula, acendeu a luz e piscou com a sbita claridade. Os armrios abertos, onde o material era 
guardado, ficavam ao longo da parede do fundo da sala, e por mais incrvel que pudesse parecer, o Treo de Aria estava dentro de um escaninho vazio, parecendo intocado. 
Ela correu at ele e o embalou em seus braos, deixando escapar um suspiro de alvio.
        Ento, ela notou as mscaras que sua classe havia terminado, secando em um dos armrios vazados. O armrio de Aria, com o nome dela escrito em fita crepe 
na parte de baixo, estava vazio, mas o de Jenna no. Algum tinha que ter ajudado Jenna a fazer sua mscara, porque ela estava ali, virada para cima e perfeitamente 
moldada, o espao vazio, a cavidade dos olhos encarando fixamente o teto do armrio. Aria a ergueu devagar. Jenna havia pintado sua mscara com a aparncia de uma 
floresta encantada.Videiras em espiral ao redor do nariz, uma flor exuberante acima de seu olho esquerdo, e havia uma maravilhosa borboleta em sua face direita. 
A pintura detalhada era impecvel - talvez impecvel demais. Ela no parecia ter sido feita por algum que no podia enxergar.
        O estrondo de um trovo soou como se fosse partir a terra ao meio. Aria gritou, deixando a mscara cair na mesa. Quando ela olhou para a janela, viu a silhueta 
de alguma coisa girando a manivela na parte de cima da janela. Ela parecia com uma pequena... pessoa.
        Aria chegou mais perto. Era uma boneca de pelcia da Rainha M da Branca de Neve. Ela usava um longo manto negro e uma coroa dourada na cabea, e seu rosto 
carrancudo era fantasmagoricamente plido. Ela pendia de uma corda ao redor de seu pescoo, e algum havia traado negros e grandes X's sobre seus olhos. Havia um 
bilhete pregado com alfinete no longo vestido da boneca.
        Espelho, espelho meu, quem  a mais desobediente de to-
        das? Voc contou. Ento, voc  a prxima. - A
        Galhos de rvores batiam violentamente contra a janela. Mais relmpagos formavam crculos de fogo no cu. Enquanto outro estrondo de trovo soava, a luz 
do estdio apagou.
        Aria gritou.
        As luzes da rua tambm haviam se apagado e, em algum lugar ao longe. Aria ouviu um alarme de incndio tocando. Fique calma, disse a si mesma. Ela agarrou-se 
ao seu Treo e discou o nmero da polcia rapidamente. Quando algum atendeu, a luz de um relmpago que mais parecia uma faca pareceu explodir do lado de fora da 
janela. O telefone de Aria escorregou de seus dedos e caiu em cheio no cho. Ela o apanhou, e ento tentou ligar novamente. Mas o telefone j no estava mais dando 
sinal.
        Outro relmpago clareou a sala novamente, iluminando o contorno das carteiras, das cabines, a Rainha M na janela e, finalmente, a porta. Aria arregalou 
os olhos, um grito preso em sua garganta.
        Havia algum l.
        - O-Ol? - gritou ela.
        Com outro claro de um relmpago, o estranho se fora. 
        Aria apertou as articulaes de seus dedos, seus dentes batendo.
        - Ol? - chamou ela.
        Um relmpago reluziu novamente. Uma garota estava de p a poucos centmetros de seu rosto. Aria se sentiu tonta de medo. Era...
        - Ol - disse a garota. 
        Era Jenna.
30
TRS PALAVRINHAS
PODEM MUDAR TUDO
Spencer sentou em frente  mesa da roleta, mudando as fichas de plstico brilhante de mo, nervosa. Enquanto colocava algumas fichas sobre os nmeros 4, 5, 6 e 7, 
ela sentiu os empurres da multido que agora se aglomerava s suas costas. Parecia que toda Rosewood estava l nesta noite - todo mundo do colgio Rosewood Day 
e mais o pessoal dos colgios particulares rivais, que era pblico cativo das festinhas de Noel Kahn. Havia at mesmo um policial l, patrulhando o permetro. Spencer 
se perguntou por qu.
        Quando a roleta parou de girar, a bolinha estacionou no nmero 6. Era a terceira vez seguida que ela ganhava.
        - Bom trabalho! - disse algum em seu ouvido. Spencer olhou em volta, mas no soube dizer quem tinha feito o comentrio. Parecia com a voz de sua irm. S 
que... por que Melissa estaria aqui? No havia ningum da faculdade ali e, antes da entrevista com os jurados do Prmio Orqudea Dourada, Melissa tinha dito que 
a festa de Hanna era ridcula.
        Foi ela, voc sabe.
        Spencer no conseguia tirar a mensagem de A da cabea.
        Ela olhou pela tenda com ateno. Algum com cabelo louro na altura do queixo estava se esgueirando na direo do palco, mas quando Spencer se levantou, 
a pessoa desapareceu na multido. Ela esfregou os olhos. Talvez estivesse ficando louca.
        De repente, Mona Vanderwaal agarrou seu brao.
        - Ei, queridinha.Voc tem um segundo para mim? Tenho uma surpresa para voc!
        Ela guiou Spencer atravs da multido at um lugar mais tranquilo e estalou os dedos, o que fez um garom aparecer num passe de mgica e lhe servir uma taa 
longa cheia de um lquido borbulhante.
        -  champanhe de verdade - disse Mona. - Eu queria propor um brinde para agradec-la, Spencer. Por planejar essa festa incrvel comigo... E tambm por ficar 
ao meu lado. Naquele... Voc sabe, naquele assunto. As mensagens.
        - Ah, mas claro! - disse Spencer, baixinho.
        Elas brindaram e deram um gole no champanhe.
        - A festa est mesmo demais - continuou Mona. - E eu no poderia ter feito nada disso sem voc.
        Spencer fez um gesto de modstia.
        - Ah, imagine. Foi voc que bolou tudo. Tudo o que eu fiz foram algumas ligaes. Voc tem talento para organizar festas.
        -  Ns duas temos - disse Mona, girando a bebida na taa. - Ns deveramos montar uma empresa de promoo de eventos.
        - E ns ainda poderamos nos exibir para os rapazes dos Country Clubes de toda parte - brincou Spencer.
        - Claro! - concordou Mona, dando uma batidinha com seu quadril no de Mona.
        Spencer passou o dedo pela borda de sua taa. Ela queria contar a Mona tudo sobre a mensagem mais recente de A - aquela sobre Melissa. Mona entenderia. Mas 
o DJ trocou a msica para uma de ritmo acelerado da banda OK GO e, antes que Spencer pudesse dizer uma palavra, Mona deu um gritinho e saiu correndo para a pista 
de dana. Ela deu uma olhadinha por cima do ombro para Spencer, como se dissesse Voc vem? Spencer sacudiu a cabea.
        Aqueles poucos goles de champanhe deixaram Spencer tonta. Depois de alguns minutos abrindo caminho atravs da multido, ela conseguiu sair da tenda para 
respirar o ar fresco da noite. Exceto pelos spots de luz que circundavam a festa, o gramado de golfe estava s escuras. Os montinhos artificiais de grama e os bancos 
de areia no estavam visveis, e Spencer s conseguia enxergar as silhuetas das rvores l longe. Seus galhos oscilavam como dedos esquelticos. Em algum lugar, 
grilos cantavam.
        Na verdade, A no sabe coisa alguma sobre o assassino de Ali, disse Spencer a si mesma, olhando para trs para observar as sombras das pessoas da festa projetadas 
na tenda. E, de qualquer forma, no fazia sentido: Melissa no arruinaria todo o seu futuro matando algum por causa de um garoto. Essa foi apenas mais uma estratgia 
de A para fazer Spencer acreditar em uma mentira.
        Ela suspirou e foi at o banheiro, que ficava em um trailer fora da tenda. Spencer subiu a rampa para deficientes fsicos e empurrou a porta fina de plstico. 
Das trs cabines que havia ali, uma estava ocupada e duas estavam vazias. Enquanto ela dava descarga e arrumava o vestido, a porta do banheiro bateu com fora. Sapatos 
prateados Loeffer Randall abriram caminho at a pia minscula. Spencer tapou a boca com a mo. Ela j havia visto aqueles sapatos muitas e muitas vezes antes - aquele 
era o par favorito de Melissa.
        - Ah... Oi? - disse Spencer quando saiu da cabine. Melissa estava encostada contra a pia, as mos nos quadris, um sorrisinho nos lbios. Ela usava um vestido 
preto longo e justo, com uma abertura do lado. Spencer tentou respirar devagar. - a que voc est fazendo aqui?
        Sua irm no disse nada, s continuou encarando. Uma gota de gua bateu contra a pia, o que fez Spencer dar um pulinho.
        - O que foi? - Spencer perdeu a calma. - Por que voc est me olhando assim?
        - Por que voc mentiu para mim de novo? - rosnou Melissa.
        Spencer pressionou as costas contra a porta de uma das cabines. Ela olhava em volta tentando encontrar algo que pudesse servir de arma. A nica coisa que 
ela pde pensar em usar foi o salto de seu sapato, e bem devagarzinho ela comeou a escorregar o p para fora do sapato.
        - Menti?
        -  Ian me disse que ele estava em seu quarto de hotel na noite passada - sussurrou Melissa, as narinas acompanhando sua respirao. - Eu bem que avisei a 
voc que ele no era muito bom em guardar segredos.
        Spencer arregalou os olhos.
        - Ns no fizemos nada. Eu juro.
        Melissa deu um passo na direo dela. Spencer protegeu o rosto com uma de suas mos e com a outra tirou o sapato do p.
        -  Por favor! - implorou ela, segurando o sapato como se fosse um escudo.
        Melissa parou a milmetros do rosto da irm.
        - Depois de tudo que voc me confessou na praia, pensei que tnhamos um acordo. Mas, pelo jeito, no temos. - Ela deu meia-volta e saiu do banheiro com passadas 
firmes. Spencer ouviu seus passos descendo a rampa e se dirigindo para o gramado.
        Spencer se inclinou sobre a pia e encostou a testa no espelho frio. De repente, um barulho de descarga. Depois de uma pausa, a porta da terceira cabine se 
escancarou e Mona Vanderwaal apareceu. Ela estava horrorizada.
        - Aquela era a sua irm? - sussurrou ela.
        - , era - balbuciou Spencer, virando-se. 
        Mona agarrou Spencer pelos pulsos.
        - O que est acontecendo? Voc est legal?
        -Acho que sim. - Spencer recuou. - Preciso ficar um pouco sozinha, s isso.
        - Claro - disse Mona, os olhos arregalados de susto. -Vou estar l fora se voc precisar de mim.
        Spencer sorriu para Mona com gratido. Depois de certo tempo, ela ouviu o barulhinho de um isqueiro, e o som de fascas e da tragada que Mona deu em seu 
cigarro. Spencer olhou para o espelho e tentou dar um jeito no cabelo. Suas mos tremiam enquanto ela vasculhava dentro da bolsinha de festa, rezando para haver 
Aspirinas l dentro. Suas mos tateavam s cegas, sentido os objetos dentro da bolsa, sua carteira, o gloss, suas fichas de pquer... E ento, ela percebeu que havia 
outra coisa, algo quadrado e liso. Spencer tirou o objeto da bolsa com cuidado.
        Era uma fotografia. Ali e Ian estavam de p, bem prximos um do outro, com os braos enlaados. Atrs deles havia um prdio circular de pedras e atrs da 
construo havia uma fila de nibus escolares amarelos. Pelo modo como o cabelo de Ali estava bagunado e pela camiseta estampada de manga comprida J. Crew que ela 
usava, Spencer tinha certeza que aquela foto havia sido tirada durante a viagem da classe para assistir a Romeu e Julieta no teatro People's Light, que ficava a 
algumas cidadezinhas de distncia. Um grupo de alunos de Rosewood Day havia comparecido junto - Spencer, Ali, suas outras amigas e um punhado de alunos das mais 
variadas turmas de ensino mdio, como Ian e Melissa. Algum havia escrito algo com letras grandes e bem desenhadas sobre o sorriso de Ali.
        Voc est morta, sua vaca.
        Spencer identificou a caligrafia que via no mesmo instante. No havia muitas pessoas no mundo que faziam seus 'as' minsculos parecidos com um nmero 2 enroladinho. 
Caligrafia era praticamente a nica matria na qual Melissa j tirara um B na vida. A professora dela no ensino mdio estava sempre tirando pontos por isso, mas 
fazer 'as' minsculos engraadinhos era um hbito que Melissa nunca conseguira abandonar.
        Spencer deixou a foto escorregar de suas mos e deu um gemido e dor e de descrena.
        - Spencer? - chamou Mona l de fora. - Tudo bem a?
        - Tudo bem - disse Spencer depois de uma longa pausa. Ento, ela olhou para o cho. A foto tinha cado com a imagem virada para baixo. Na parte de trs, 
havia algo escrito.
         melhor voc se cuidar... Caso contrrio, ser uma vaca 
        morta tambm. - A
31
ALGUNS SEGREDOS VO MAIS ALM
Quando Aria abriu os olhos, alguma coisa molhada e malcheirosa estava lambendo seu rosto. Ela tentou afastar a coisa e sua mo tocou num pelo fofo e quentinho. Por 
alguma razo, ela agora estava no cho do ateli. Um relmpago iluminou a sala, e ela viu Jenna Cavanaugh e seu co sentados ali no cho, perto dela.
        Aria se levantou um pouco e gritou.
        - Est tudo bem! - gritou Jenna, pegando em seu brao. -No se preocupe! Est tudo bem!
        Aria recuou, afastando-se de Jenna e batendo a cabea no p de uma mesa que estava prxima.
        - No me machuque - disse ela. - Por favor.
        - Voc est a salvo - tranquilizou-a Jenna. - Acho que voc teve um ataque de pnico. Eu vim apanhar meu caderno de esboos, mas ouvi voc e, quando me aproximei, 
voc caiu. - Aria podia ouvir a si mesma engolindo em seco no escuro.
        - Uma mulher no curso de treinamento de ces-guias que eu frequento tem ataques de pnico, ento eu entendo um pouco do assunto. Tentei chamar ajuda, mas 
meu telefone celular estava sem sinal, ento eu fiquei aqui ao seu lado.
        Uma brisa soprava pela sala, trazendo at ela o cheiro do asfalto recm-molhado pela chuva, um cheiro que costumava acalmar Aria. Bem, era certo que Aria 
sentia mesmo como se tivesse acabado de ter um ataque de pnico - ela estava coberta de suor e desorientada, e seu corao batia descontroladamente.
        - Quanto tempo fiquei desacordada? - resmungou ela, alisando sua saia plissada do uniforme para que cobrisse suas coxas.
        - Mais ou menos meia hora - disse Jenna. -Voc pode ter batido a cabea.
        -  Ou, talvez, eu s precisasse tirar um cochilo - brincou Aria, mas, logo em seguida, achou que fosse cair no choro. Jenna no tinha tentado machuc-la. 
Jenna tinha sentado ao lado dela, uma estranha completa, enquanto ela estava jogada no cho como um pano molhado. At onde Aria sabia, ela havia babado no colo de 
Jenna e falado enquanto dormia. De repente, ela se sentiu enjoada de tanta culpa e vergonha.
        - Tenho que contar uma coisa para voc - falou Aria sem pensar. - Meu nome no  Jessica.  Aria. Aria Montgomery.
        O cachorro de Jenna espirrou.
        - Eu sei - admitiu Jenna. 
        -Voc... sabe?
        - Eu simplesmente... Podia saber que era voc, Pela sua voz -Jenna usou um tom de quem pedia desculpas.- Mas por que voc simplesmente no disse quem era?
        Aria fechou os olhos com bastante fora e escondeu o rosto nas mos. Outro claro iluminou a sala e Aria viu Jenna sentada de pernas cruzadas no cho, as 
mos em tornos dos tornozelos. Aria respirou fundo, talvez o mais profundamente que j respirara em sua vida.
        - Eu no contei nada a voc porque... H mais uma coisa que voc deve saber sobre a noite do seu acidente. Algo que nunca contaram a voc. Eu acho que voc 
no se lembra direito do que aconteceu naquela noite, mas...
        - Isso  mentira - interrompeu Jenna. - Eu me lembro de tudo.
        Um trovo ecoou a distncia. Mais perto dali, o alarme de um carro disparou e comeou a fazer uma barulheira, uma sequncia alta e irritante de sirenes. 
Aria mal podia respirar.
        - O que voc quer dizer com isso? - sussurrou Aria, atnita.
        - Eu me lembro de tudo - repetiu Jenna. Ela sentiu a sola de seu sapato com o dedo. - Alison e eu combinamos tudo juntas.
        Cada msculo do rosto de Aria perdeu a fora.
        - O qu?
        - Meu meio-irmo costumava soltar fogos de artifcio do telhado de sua casa na rvore o tempo todo - explicou Jenna, franzindo a testa. - Meus pais viviam 
dizendo a ele que isso era muito perigoso, que ele podia fazer alguma bobagem e mandar um rojo direto para a nossa casa, causando um incndio. Eles diziam que da 
prxima vez em que ele brincasse com fogos de artifcio, seria mandado para um colgio interno. E que no haveria discusso.
        "Ento, Ali concordou em roubar fogos de artifcio do estoque que Toby mantinha escondido e fazer parecer que ele havia soltado alguns do telhado da casa 
na rvore. Eu queria que ela fizesse isso naquela noite porque meus pais estavam em casa, e eles j estavam loucos da vida com Toby por algum outro motivo. Eu o 
queria fora da minha vida o mais rpido possvel - sua voz falhou. - Ele... Ele no era um bom meio-irmo. 
        Aria abriu e fechou o punho.
        - Ah, meu Deus.
        Ela tentou entender tudo o que Jenna estava contando.
        -  S que... as coisas deram errado - continuou Jenna, a voz oscilando. - Eu estava na casa da rvore com Toby naquela noite. E logo antes de tudo acontecer, 
ele olhou l para baixo e disse com raiva: "Tem algum no nosso gramado". Eu olhei para baixo tambm, fingindo surpresa... E ento houve um flash de luz e depois... 
Eu senti uma dor horrvel. Meus olhos... meu rosto.... senti como se estivessem derretendo. Acho que desmaiei. Mais tarde, Ali me disse que obrigou Toby a assumir 
a culpa.
        -  verdade - a voz de Aria era pouco mais que um sussurro.
        - Ali pensou rpido. - Jenna se ajeitou, fazendo o cho debaixo dela estalar. - Estou feliz que ela tenha feito o que fez. Eu no queria que ela arrumasse 
confuso. E a coisa toda meio que acabou funcionando como eu queria. Toby foi embora. Ele saiu da minha vida.
        Aria mexeu o maxilar devagar. Mas... Voc ficou cega! Aria queria gritar. Realmente valeu a pena!? A cabea dela doa, tentando processar tudo que Jenna 
havia acabado de contar. Todo o seu mundo parecia estar dilacerado. Era como se algum tivesse acabado de declarar que os animais podiam falar, e que os ces e as 
aranhas agora estavam encarregados de dirigir o planeta. Depois, ela se deu conta de mais uma coisa: Ali tinha feito tudo de modo que as amigas achassem que toda 
a armao fora ideia delas para pregar uma pea em Toby, mas na verdade Ali e Jenna haviam planejado tudo juntas. Ali no havia apenas preparado uma armadilha para 
Toby, ela havia enganado as amigas tambm. Aria se sentiu enjoada.
        - Ento voc e Ali eram amigas - a voz de Aria estava fraca com a descrena.
        - Bem, no exatamente - disse Jenna. - No at esse... No at que eu contasse a ela o que Toby estava fazendo comigo. Eu sabia que Ali ia entender. Ela 
tambm tinha problemas com o irmo.
        Um claro exps o rosto de Jenna, exibindo sua expresso de calma e resignao. Antes que Aria pudesse perguntar a Jenna o que ela queria dizer com aquilo, 
a outra acrescentou:
        -  H mais uma coisa que voc deve saber. Outra pessoa estava l naquela noite. Algum mais viu.
        Aria engasgou. Uma imagem daquela noite passou pela sua cabea. A exploso dos fogos de artifcio dentro da casa na rvore, iluminando todo o quintal. Aria 
sempre pensara que ela havia visto uma figura escura rastejando perto da varanda de trs dos Cavanaugh - mas Ali insistira inmeras vezes que tudo no passara da 
sua imaginao.
        Eu ainda estou aqui, suas vacas. E eu sei de tudo. - A
        -Voc sabe quem era? - sussurrou Aria, seu corao batendo acelerado.
        Jenna se afastou rispidamente.
        - Eu no posso contar.
        - Jenna! -Aria deu um grito agudo. - Por favor! Voc tem que me contar! Eu preciso saber!
        De repente, a luz voltou. O ateli foi inundado por uma luz to brilhante que feriu os olhos de Aria. As lmpadas fluorescentes zuniram. Aria viu que tinha 
um pouco de sangue na mo e sentiu um corte na testa. O contedo de sua bolsa estava todo espalhado pelo cho, e o cachorro de Jenna tinha comido a metade de uma 
barra Balance.
        Jenna havia tirado os culos escuros. Seus olhos parados encaravam o vazio, e havia cicatrizes enrugadas das queimaduras sobre o osso do seu nariz e na base 
de sua testa. Aria estremeceu e desviou o olhar.
        - Por favor, Jenna, voc no entende - disse Aria baixinho. - Alguma coisa horrvel est acontecendo. Voc tem que me contar quem mais estava l!
        Jenna se levantou, apoiando-se nas costas de seu co para ter equilbrio.
        - Eu j falei demais - disse, com a voz baixa e spera, meio insegura. - Preciso ir embora.
        -Jenna, por favor! - implorou Aria. - Quem mais estava l? 
        Jenna fez uma pausa para recolocar os culos escuros.
        - Desculpe - sussurrou ela, puxando a coleira de seu co. Ela bateu sua bengala uma, duas, trs vezes, tateando para encontrar a porta. E ento, se foi.
32
O INFERNO NO CONHECE 
FRIA IGUAL...
Depois de pegar Trista ficando com Noel, Emily saiu correndo da rea das piscinas, procurando por Spencer ou Hanna. Ela precisava contar a algum que Aria havia 
contado  polcia sobre A... E mostrar a elas a boneca que acabara de encontrar. Conforme ela dava a volta nas mesas de jogos de dados pela segunda vez, Emily sentiu 
que algum colocava uma mo fria em seu ombro e gritou, assustada. Spencer e Mona estavam ali, logo atrs dela. Spencer segurava uma fotografia pequena com firmeza.
        - Emily, precisamos conversar.
        - Eu preciso falar com vocs tambm - balbuciou Emily. 
        Spencer a levou em silncio atravs da pista de dana. Mason Byers estava no centro da pista, fazendo papel de idiota. Hanna estava conversando com o pai 
e com a sra. Cho, sua professora de fotografia. Ela ergueu o rosto quando Spencer, Mona e Emily se aproximaram e sua expresso se anuviou. 
        -Voc tem um segundo? - perguntou Spencer.
        Elas encontraram uma cabine vazia e se enfiaram nela. Sem dizer uma palavra, Spencer mexeu em sua bolsa de lantejoulas e tirou de l uma fotografia que mostrava 
Ali e Ian Thomas. Algum tinha feito um X sobre o rosto de Ali e escrito:
        Voc est morta, sua vaca.
        Emily tampou a boca com a mo. Havia alguma coisa muito familiar naquela fotografia. Onde ela a vira antes?
        -  Encontrei isso em minha bolsa quando estava no banheiro. - Spencer virou a foto. " melhor voc se cuidar... Caso contrrio, ser uma vaca morta tambm. 
-A" Emily reconheceu a letra pontiaguda na hora em que a viu. Ela a havia visto no formulrio de inscrio da PALG - Pais e Amigos de Lsbicas e Gays - fazia poucos 
dias.
        -  Isso estava na sua bolsa? - espantou-se Hanna. - Ento quer dizer que A est aqui?
        - A definitivamente est aqui - disse Emily, olhando em volta. Os modelos-garons circulavam. Um bando de garotas usando minivestidos passou correndo, sussurrando 
que Noel Kahn havia contrabandeado bebida alcolica para a festa.
        - Eu acabei de receber uma mensagem, um tipo de mensagem, dizendo isso - continuou Emily. - E... meninas. Aria contou aos policiais tudo sobre A. Um policial 
veio at mim, dizendo que queria fazer umas perguntas. Ento, acho que A tambm sabe disso.
        - Ah, meu Deus - sussurrou Mona de olhos arregalados. Ela olhou de uma garota para a outra. - Isso  ruim, certo?
        - Isso pode ser realmente muito ruim - disse Emily. Algum abrindo caminho s cotoveladas a acertou na nuca e ela esfregou a cabea, irritada. - Esta festa 
no  exatamente o melhor lugar para falar sobre isso.
        Spencer passou as mos pelo assento de veludo do sof.
        - Tudo bem. No vamos entrar em pnico. A polcia est aqui, certo? Ento estamos a salvo.Vamos ver onde esto os policiais e ficar junto deles. Mas isso... 
- Ela mostrou o X enorme sobre o rosto de Ali na fotografia e depois a frase "Voc est morta, sua vaca". Eu sei quem escreveu esta frase aqui - ela olhou em volta 
e deu um longo suspiro. - Melissa.
        - Sua irm? - perguntou Hanna, com um gritinho. 
        Spencer concordou, sria, as luzes estroboscpicas da festa fazendo seu rosto brilhar.
        - Eu acho... Eu acho que Melissa matou Ali. Fazia sentido. Ela sabia que Ali e Ian estavam juntos. E ela no ia aguentar isso.
        - Espera a um pouquinho. - Mona colou sua lata de Red Bull sobre a mesa. - Alison e... Ian Thomas? Eles estavam ficando? - Ela estalou a lngua, fazendo 
um barulhinho de desaprovao. - Eca. Vocs sabiam disso, meninas?
        -  Ns s nos demos conta dias atrs - murmurou Emily. Ela estreitou o casaco em torno de seu corpo. De repente estava com muito frio.
        Hanna comparou com ateno a assinatura de Melissa em seu gesso com a letra da foto.
        - A caligrafia  parecida.
        Mona olhou para Spencer com cara de medo.
        - E ela estava agindo de uma forma to estranha agora h pouco, no banheiro.
        -  Ela ainda est aqui? - Hanna esticou o pescoo. Atrs dela, um garom derrubou uma bandeja cheia de taas. Um bando de garotos aplaudiu com entusiasmo.
        - Procurei por ela em todo canto - disse Spencer. - E no encontrei em lugar nenhum.
        -  Bem, ento, o que vamos fazer? - perguntou Emily, o corao cada vez mais acelerado.
        - Eu vou contar a Wilden sobre essa histria da Melissa -disse Spencer, muito decidida.
        - Mas, Spencer - argumentou Emily -, A sabe o que ns estamos fazendo. E A sabe que Aria falou com a polcia. E se isso tudo no passa de um jogo psicolgico?
        - Ela tem razo - concordou Mona, cruzando as pernas. - Pode ser uma armadilha.
        Spencer balanou a cabea.
        -   Melissa. Tenho certeza. Tenho que entreg-la. Temos que fazer isso por Ali. - Ela remexeu em sua bolsa de lantejoulas e pegou seu telefone. -Vou ligar 
para a polcia.  provvel que consiga falar com Wilden. - Ela digitou e colocou o telefone contra a orelha.
        Atrs delas, o DJ gritou:
        - Esto todos tendo uma grande noite!!?? 
        E a multido na pista de dana berrou:
        - Sim!!!
        Emily fechou os olhos. Melissa. Desde que a polcia havia considerado a morte de Ali como assassinato, Emily no tinha conseguido parar de pensar em como
o assassino tinha feito aquilo. Ela imaginava uma cena onde Toby Cavanaugh agarrava Ali por trs, batia na cabea dela e a atirava no buraco que havia sido cavado
para o gazebo dos DiLaurentis. Ela tentara imaginar Spencer fazendo o mesmo com Ali, louca de cime por causa do namoro de Ali com Ian Thomas. E agora, ela podia 
ver Melissa Hastings agarrando Ali pela cintura, e a arrastando at o buraco. S que... Melissa era to magrinha que Emily no podia acreditar que ela tivesse fora 
suficiente para coagir Ali a fazer o que ela mandasse. Talvez ela tivesse uma arma, como uma faca de cozinha ou um estilete. Emily estremeceu, imaginando um estilete 
encostado contra a garganta delicada de Ali. 
        -Wilden no est atendendo.- Spencer jogou seu telefone de volta na bolsa. - Eu vou at a delegacia. - Ela fez uma pausa e deu um tapa em sua testa. - Droga. 
Meus pais me trouxeram. Ns viemos direto de Nova York. Estou sem carro.
        - Eu levo voc at l. - Mona se levantou. 
        Emily ficou em p.
        - Eu tambm vou.
        -Vamos todas juntas - disse Hanna. 
        Spencer sacudiu a cabea.
        - Hanna, esta  a sua festa. Voc deveria ficar.
        -  mesmo - disse Mona. 
        Hanna ajeitou a tipoia.
        - A festa est uma delcia, mas isso  mais importante. 
        Mona mordeu o lbio inferior, aflita.
        - Eu acho que voc deveria ficar por aqui mais um pouco. 
        Hanna ergueu a sobrancelha.
        - Por qu?
        Mona oscilou para a frente e para trs sobre seus calcanhares.
        - Porque ns contratamos o Justin Timberlake para cantar na sua festa.
        Hanna colocou a mo no peito, como se Mona tivesse atirado nela.
        - O qu?
        - Ele foi cliente do meu pai quando estava comeando a carreira, ento ele devia um favor ao meu velho. Acontece que ele est meio atrasado. Tenho certeza 
de que ele estar aqui logo e no quero que voc perca a apresentao. - Ela sorriu com doura.
        -  Uau! - Spencer arregalou os olhos. - Srio? Voc no contou isso nem para mim.
        - E voc detesta o Justin Timberlake, Mon! - Hanna estava sem flego.
        Mona deu de ombros.
        - Bom, a festa no  minha,  sua. Ele vai pedir para voc subir no palco para danar com ele, Han. Eu no quero que voc perca isso de jeito nenhum.
        Hanna adorava Justin Timberlake desde que Emily a conhecia. Sempre que Hanna dizia que Justin deveria estar com ela e no com qualquer outra garota, Ali 
dava uma risada escandalosa e respondia: "Bem, com voc ele teria duas garotas pelo preo de uma. Voc tem o dobro do tamanho!" Ento Hanna se afastava, magoada, 
at que Ali ia at l e insistia que ela no deveria ser to sensvel.
        - Eu fico com voc, Hanna - disse Emily, agarrando o brao da amiga. - Ns vamos ficar por Justin. Vamos ficar juntas, perto daquele policial ali. Certo?
        - Eu no sei - disse Hanna, insegura. Apesar de Emily saber que ela queria ficar. - Talvez ns devssemos ir.
        -  Fique! - disse Spencer. - Depois voc encontra com a gente l. Vocs ficaro bem aqui. A no pode machuc-las enquanto estiverem perto de um policial. 
 s tomar cuidado para no irem ao banheiro ou a qualquer outro lugar sozinhas.
        Mona pegou no brao de Spencer e elas abriram caminho pela multido, em direo  sada principal da tenda. Emily deu um sorriso encorajador para Hanna, 
com o corao apertado.
        - No me deixe - disse Hanna baixinho, aterrorizada.
        - Eu no deixarei - garantiu Emily. Ela pegou a mo de Hanna e a apertou com fora, mas no pde deixar de observar a multido, nervosa. Spencer tinha dito 
que encontrara Melissa no banheiro. Aquilo significava que a assassina de Ali estava ali na festa com elas, naquele instante.
33
UM MOMENTO DE CLAREZA
Ficar ali, de p, no meio do palco, onde estaria o verdadeiro Justin Timberlake - no um boneco de cera de Madame Tussaud ou um cover do Cassino Taj Mahal em Atlantic 
City - seria surreal. Seria a boca do Justin de verdade dando um grande sorriso para ela, seriam os olhos do Justin de verdade observando o corpo de Hanna enquanto 
ela danava, seriam as mos do Justin de verdade aplaudindo Hanna por ela ter tido a fora de superar um acidente to devastador.
        Infelizmente, Justin ainda no tinha aparecido. Hanna e Emily vigiavam uma das aberturas da tenda, mantendo os olhos  espreita de um comboio de limusines.
        - Isso vai ser to excitante - murmurou Emily.
        - Vai sim - disse Hanna. Mas ela se perguntava se sena capaz de curtir tudo. Ela sentia que alguma coisa estava muito, muito errada. Havia algo dentro dela 
lutando para sair, como uma mariposa que teimava em se libertar do casulo.
        De repente, Aria se materializou na multido, seu cabelo escuro estava emaranhado e ela tinha um machucado na bochecha. Ela ainda estava usando o blazer 
e a saia plissada de Rosewood Day, e parecia muito deslocada no meio daquele pessoal com roupa de festa.
        - Meninas - disse ela, sem flego -, preciso falar com vocs.
        - E ns precisamos falar com voc! - gritou Emily. -Voc contou a Wilden sobre A!
        Aria piscou.
        - Eu... contei sim. Foi isso mesmo. Achei que era a coisa certa a fazer.
        - No era no! - explodiu Hanna, cheia de dio. - A j sabe de tudo,Aria.A est atrs de ns. Que diabos h de errado com voc?
        - Eu sei que A sabe de tudo - disse Aria, parecendo distrada. - Eu tenho que contar mais uma coisa para vocs, Onde est Spencer?
        -  Spencer foi para a delegacia - disse Emily. As luzes da pista de dana as alcanando de novo, fazendo com que seu rosto ficasse rosa e depois azul. - 
Tentamos ligar para voc, mas voc no atendeu.
        Aria desabou em um sof prximo, parecendo trmula e confusa. Ela pegou uma garrafa de gua com gs e se serviu num copo grande.
        -  Ela foi para a delegacia por causa de... A? Os policiais queriam nos fazer mais perguntas.
        - No, no foi isso - disse Hanna. - Ela foi at l porque ela sabe quem matou Ali.
        Os olhos de Aria ficaram sem vida. Ela parecia no ter entendido o que Hanna dissera.
        -  Uma coisa muito estranha aconteceu comigo agora h pouco. - Ela bebeu toda a gua. - Tive uma longa conversa com Jenna Cavanaugh. E... Ela sabe o que 
aconteceu naquela noite.
        - No que voc estava pensando para conversar com a Jenna? - rosnou Hanna.
        Mas, ento, o resto da frase de Aria foi finalmente assimilado e entendido, da mesma forma que, como seu professor de fsica havia explicado, leva anos para 
que as ondas de rdio alcancem o espao sideral.
        O queixo de Hanna caiu e ela ficou branca como um fantasma.
        -  O que foi que voc acabou de dizer? 
        Aria pressionou a testa.
        - Eu estava tendo algumas aulas de arte e Jenna estava na turma. Hoje  noite eu fui at o ateli e... Jenna estava l. Quase morri de medo pensando que 
ela fosse A... E que ela fosse me machucar. Tive um ataque de pnico... Mas quando voltei a mim, Jenna ainda estava ali. Ela tinha me ajudado! Eu me senti pssima 
e comecei a falar sem pensar, eu ia contar a ela tudo o que fizemos. Mas, antes que eu pudesse comear a contar o que aconteceu, ela me interrompeu, dizendo que 
se lembrava de tudo sobre aquela noite. - Aria olhou para Hanna e para Emily. - Ela e Ali tramaram tudo juntas.
        Houve uma longa pausa. Hanna podia sentir a pulsao de seu sangue nas tmporas.
        - Isso  impossvel - disse Emily, finalmente, ficando em p de repente. - Isso no pode ser verdade.
        -  Isso no pode ser verdade - ecoou Hanna, com um fio de voz. O que Aria estava dizendo?
        Aria colocou uma mecha de cabelo atrs das orelhas.
        -Jenna disse que ela foi at Ali com um plano para machucar Toby. Ela queria que ele fosse embora. - Estou certa que ela queria isso porque ele estava... 
Vocs sabem. Abusando dela. Ali disse que a ajudaria. S que as coisas deram errado. Mas Jenna manteve a boca fechada de qualquer forma... Ela disse que as coisas 
saram do jeito que ela queria. Seu irmo foi mandado embora. S que... Ela disse que mais algum viu tudo o que aconteceu naquela noite. Alm de Ali, alm de ns. 
Uma outra pessoa.
        Emily engasgou.
        - No!
        - Quem? - Hanna quis saber, sentindo as pernas enfraquecerem.
        Aria balanou a cabea.
        - Ela no me disse.
        As meninas ficaram em silncio. A batida do contrabaixo de uma msica de Ciara pulsava ao fundo. Hanna olhou a agitao da festa, atnita por verificar que 
todos pareciam alegres e inconscientes sobre tudo o que acontecia. Mike Montgomery dando uns amassos em uma garota do colgio Quaker; os adultos todos conversando 
e se embebedando em volta do bar; e uma turma de meninas do ano dela fofocavam aos sussurros sobre como todas as garotas, menos elas mesmas, estavam horrorosas em 
seus vestidos. Hanna quase desejou mandar todo mundo embora, explicar que o universo tinha sido virado do avesso e que agora diverso estava fora de questo.
        - Por que Jenna foi pedir ajuda a Ali, entre todas as pessoas do planeta? - perguntou Emily meio alterada. - Ali a odiava.
        Aria passou os dedos pelo cabelo, que estava molhado por causa da chuva.
        - Ela disse que Ali a entenderia, pois tambm tinha problemas com o irmo.
        Hanna franziu a testa, confusa.
        - Problemas com o irmo? Voc quer dizer, com Jason?
        - Eu... Eu acho que sim - disse Aria, pensativa. - Talvez Jason estivesse fazendo com ela a mesma coisa que Toby fazia com Jenna.
        Hanna franziu o nariz, lembrando do rabugento irmo mais velho de Ali, que tinha um traseiro to bonito.
        - Jason sempre foi meio... esquisito.
        - Ah, meninas, no digam isso - as mos de Emily estavam em seu colo. - Jason era mal-humorado, mas no era um molestador. Ele e Ali sempre pareceram felizes 
um com o outro.
        - Toby e Jenna pareciam felizes quando estavam juntos tambm - lembrou Aria.
        - Eu ouvi que, tipo, um em cada quatro garotos abusam de suas irms - disse Hanna.
        -  Isso  ridculo - disse Emily perdendo a calma. - No acredite em tudo que voc ouve.
        Hanna ficou paralisada. Ela virou-se para olhar para Emily.
        - O que foi que voc acabou de dizer? 
        A boca de Emily tremeu.
        - Eu disse... No acredite em tudo que voc ouve.
        As palavras atingiram Hanna como os sinais de um radar. Hanna as ouvia de novo e ento de novo, colidindo para a frente e para trs em sua cabea.
        Os alicerces que davam sustentao ao seu crebro comearam a ruir. No acredite em tudo que ouve. Fora a ltima mensagem que ela havia recebido. De A. Em 
uma noite da qual ela no conseguia se lembrar.
        Hanna deve ter feito algum tipo de barulho, porque Aria se voltou para ela.
        - Hanna... O que foi?
        As lembranas comearam a vir de encontro a ela, como uma fileira de domins caindo um depois do outro. Hanna voltou a ver-se, insegura, indo para a festa 
de Mona em seu vestido da corte, quase louca porque o vestido no cabia nela. Mona havia rido na cara dela e depois a chamara de baleia. E Hanna percebeu que no 
havia sido Mona quem lhe enviara o vestido - tinha sido A.
        Ela se viu dando um passo para trs, seu tornozelo se dobrando e ela caindo no cho. O som apavorante do tecido se rasgando. Os sons de riso acima dela, 
a risada de Mona mais alta que as outras. Ento, Hanna viu a si mesma algum tempo depois, sentada sozinha em seu Toyota Prius no estacionamento do planetrio da 
Universidade de Hollis, vestindo moletom e shorts de ginstica, os olhos inchados de tanto chorar. Ela ouviu seu BlackBerry tocar e viu quando atendia ao telefone. 
Ops, acho que no era lipo! No acredite em tudo que ouve! -A
        Mas acontece que a mensagem no tinha vindo de A. Viera de um telefone celular com nmero comum. Um nmero que Hanna conhecia muito bem.
        Hanna soltou um grito agudo. Os rostos voltados para ela pareciam sem contorno, irreais, como se fossem hologramas.
        - Hanna... O que aconteceu? - gritou Emily, assustada.
        - Ah, no. Ah, meu Deus - sussurrou Hanna, a cabea rodando. - ... Mona.
        Emily franziu a testa.
        - O que  que tem a Mona?
        Hanna arrancou a mscara. O ar pareceu fresco e libertador. Sua cicatriz latejava, como se fosse algo separado de seu queixo. Ela nem sequer olhou em volta 
para ver quantas pessoas encaravam seu rosto machucado e feio, porque, naquele momento, nada importava.
        -  Eu me lembro que estava indo contar isso para vocs naquela noite, aquela em que marcamos de nos encontrar nos balanos de Rosewood Day - disse Hanna, 
com lgrimas brilhando em seus olhos. -A  Mona.
        Emily e Aria olharam para ela to sem expresso, que Hanna se perguntou se elas a haviam escutado. Finalmente, Aria disse:
        -Voc tem certeza?
        Hanna fez que sim com a cabea.
        - Mas Mona est com... Spencer - disse Emily devagar.
        - Eu sei - sussurrou Hanna. Ela jogou sua mscara no sof e ficou de p. -Temos que encontr-la. Agora.
34
VOU PEGAR VOCS, BELEZOCAS...
Levou quase dez minutos para que Spencer e Mona cruzassem o gramado do Country Clube, conseguissem chegar ao estacionamento, entrassem na picape Hummer de Mona, 
amarela como um txi de Nova York e sassem de l. Spencer deu uma olhada para a tenda da festa de Hanna. Ela havia sido erguida como um bolo de festa, e a vibrao 
produzida pela msica era quase visvel.
        - O que voc fez foi incrvel... Dispensar Justin Timberlake por Hanna - murmurou Spencer.
        - Hanna  minha melhor amiga - respondeu Mona. - Ela passou por tanta coisa. Quero que a festa dela seja especial.
        - Ela falava sobre Justin Timberlake o tempo todo quando ramos mais novas - disse Spencer, olhando pela janela, enquanto uma casa de fazenda antiga, que 
pertencera aos DuPonts, mas que agora era um restaurante, podia ser vista l fora. Algumas pessoas que tinham acabado de jantar estavam de p na varanda, conversando 
alegremente. - Mas eu no sabia que ela ainda gostava tanto dele.
        Mona deu um meio sorriso.
        - Eu sei um monte de coisas sobre Hanna. s vezes, acho que conheo Hanna melhor que ela mesma. - Ela deu uma olhada para Spencer. -Voc tem que tentar agradar 
as pessoas de que gosta, sabe?
        Spencer balanou a cabea um pouquinho, concordando enquanto roa as unhas. Mona diminuiu a velocidade por causa de uma placa em que se lia PARE e mexeu 
em sua bolsa, tirando de l um pacote de chicletes. Um cheiro artificial de banana invadiu o carro imediatamente.
        - Quer um pedao? - perguntou ela a Spencer, desembrulhando uma tira de chiclete comprida e enfiando-a na boca. -' Estou obcecada por essa coisa. Acho que 
s vendem na Europa, mas uma garota da minha turma de histria me deu uma caixa inteira. - Ela mastigou, pensativa. Spencer gesticulou para dizer que no queria. 
Ela no estava muito a fim de chiclete naquele momento.
        Quando Mona passou na frente da Hpica Fairview, Spencer deu um tapa na perna.
        - Eu no posso fazer isso! - lamentou-se ela. - Ns precisamos voltar, Mona. Eu no posso entregar Melissa.
        Mona olhou para ela, depois entrou no estacionamento da hpica. Elas entraram na vaga de deficientes e Mona virou a picape Hummer para estacionar.
        - Tudo bem...
        - Ela  minha irm! - Spencer olhou para a frente sem expresso nenhuma no rosto. Estava um breu l fora e o ar cheirava a feno. Ela ouviu um relincho ao 
longe. - Se Melissa fez mesmo tudo isso, eu no devia estar tentando proteg-la?
        Mona pegou sua bolsa e tirou um mao de Marlboro Light. Ela ofereceu um a Spencer, mas Spencer sacudiu a cabea. Enquanto Mona acendia seu cigarro, Spencer 
observou a ponta cor de laranja do cigarro brilhar e os anis de fumaa subirem, primeiro pela cabine da Hummer, depois pela abertura na parte de cima da janela 
do lado de Mona.
        - O que Melissa quis dizer com aquela histria no banheiro? - perguntou Mona, com calma. - Ela disse que, depois do que voc contou na praia, ela achou que 
vocs duas tinham se entendido. O que voc contou a ela?
        Spencer enfiou as unhas nas palmas das mos.
        - Eu me lembrei de uma coisa sobre a noite em que Ali desapareceu - admitiu ela. - Ali e eu tivemos uma briga... E eu a empurrei. A cabea dela bateu contra 
o muro de pedras. Mas eu bloqueei a cena por anos. - Ela olhou para Mona, mas a garota no tinha expresso nenhuma no rosto. - Eu contei tudo a Melissa naquele dia. 
Eu tinha que contar a algum.
        -  Opa! - sussurrou Mona, dando uma olhada cuidadosa para Spencer. -Voc acha que foi voc que matou Ali?
        Spencer colocou as mos na testa.
        - Olha, eu estava com muita raiva dela mesmo. 
        Mona se ajeitou no assento, soltando fumaa pelo nariz.
        - Foi A que colocou aquela foto de Ali e Ian na sua bolsa, certo? E se A forneceu alguma pista para Melissa tambm, e a convenceu a entregar voc? Melissa 
pode estar indo agora mesmo at a delegacia.
        Spencer arregalou os olhos. Ela se lembrava do que Melissa havia dito sobre elas no terem mais um "acordo".
        - Droga - falou, baixinho. -Voc acha mesmo?
        - Eu no sei - Mona pegou a mo de Spencer. - Eu acho que voc est fazendo a coisa certa. Mas se voc quiser que eu d meia-volta e leve a gente de volta 
para a festa, eu farei isso.
        Spencer brincou com as lantejoulas de sua bolsa. Isso era mesmo a coisa certa a fazer? Ela desejou no ter sido a pessoa a descobrir que Melissa era a assassina. 
Ela desejou que algum tivesse descoberto isso em vez dela. Depois, pensou em como havia percorrido toda a tenda, desesperada, procurando por Melissa. Aonde ela 
tinha ido? O que ela estava fazendo naquele momento?
        -Voc tem razo - sussurrou ela, numa voz contida. -  a coisa certa a fazer.
        Mona concordou, engatou a r e saiu do estacionamento da hpica. Ela jogou seu cigarro pela janela e Spencer olhou para aquilo enquanto elas se afastavam, 
uma pequena luz brilhando entre as placas de grama.
        Quando elas j tinham percorrido um bom pedao de estrada, o Sidekick de Spencer tocou. Ela abriu a bolsa e o apanhou.
        - Talvez seja Wilden - murmurou ela. Mas no era Wilden, era uma mensagem de Emily.
        Hanna se lembrou de tudo. Mona  A! Escreva de volta 
        para sabermos que voc leu.
        O telefone escorregou das mos de Spencer para o seu colo. Ela leu o texto de novo. E de novo. As palavras poderiam muito bem ter sido escritas em rabe, 
Spencer no conseguia processar o que havia acabado de ler. Ela perguntou:
        Tem certeza?
        Emily respondeu:
        Sim. D o fora da. AGORA!
        Spencer olhou para um outdoor do caf Wawa, a placa de uma construtora, e depois para uma igreja enorme em formato triangular. Ela tentou respirar o mais 
calmamente possvel, contando de um at cem, de cinco em cinco nmeros, torcendo para que isso a acalmasse. Mona dirigia prestando ateno na estrada, cuidadosa 
e prestativa. O corpete de seu vestido era pequeno para seus seios. Ela tinha uma cicatriz no ombro direito, provavelmente marca de catapora. Parecia impossvel 
que ela tivesse feito todas aquelas coisas ruins.
        - E ento, era Wilden? - perguntou Mona.
        - Ah... No... -A voz de Spencer saiu esganiada e abafada, como se ela estivesse falando atravs de uma lata. - Era... Era a minha me.
        Mona concordou brevemente, mantendo a mesma velocidade. O telefone de Spencer acendeu de novo. Outra mensagem de texto havia chegado. Depois outra, e outra, 
e mais outra.
        Spencer, o q t acontecendo? 
        Spencer, por favor, escreve de volta. 
        Spencer, vc t em PERIGO. 
        Por favor, avise se t td ok.
        Mona sorriu, seus dentes caninos brilhavam por causa da luz fraca do painel da Hummer.
        -Voc  mesmo muito popular. O que est acontecendo?
        Spencer tentou dar uma risada.
        -Ah... Nada.
        Mona deu uma olhada para a tela do telefone de Spencer.
        - Emily, hein? Justin j apareceu?
        - Ah... - Spencer engoliu em seco de forma audvel, sua garganta arranhava.
        O sorriso de Mona evaporou.
        - Por que voc no me conta o que est acontecendo?
        - N-no est acontecendo nada - gaguejou Spencer.
        A pele plida de Mona brilhava na escurido. Jogando o cabelo para trs, Mona zombou:
        - Que foi?  um segredo? Eu no sou boa o suficiente para saber de alguma coisa secreta?
        - Claro que no! No  isso - desafinou Spencer. -  s... Eu...
        Elas pararam num semforo vermelho. Spencer olhou para os lados, depois apertou o boto para destravar a porta bem devagar. Quando ela estava comeando a 
mover a maaneta para abrir a porta, Mona agarrou seu pulso.
        - O que  que voc est fazendo!? - Os olhos de Mona brilhavam com as luzes do semforo. Seus olhos iam do telefone de Spencer para o rosto em pnico da 
garota. Spencer podia ver Mona se dando conta do que estava acontecendo; era como assistir as imagens em preto e branco se tornarem coloridas em o MGICO DE oz. 
A expresso no rosto de Mona passou de confuso e choque para... felicidade. Ela pressionou o boto de trancar as portas de todo o carro. Quando a luz verde do semforo 
acendeu, engatou a primeira e fez uma curva fechada e repentina no cruzamento, para depois se enfiar por uma estradinha esburacada de duas pistas.
        Spencer observava o velocmetro mostrando que a velocidade ia de oitenta quilmetros por hora para noventa, e depois para mais de cem. Ela mexeu na maaneta 
com fora.
        -  Onde voc est indo? - perguntou ela, a voz abafada e trmula de terror.
        Mona olhou para Spencer, com um sorriso sinistro nos lbios.
        - Pacincia nunca foi o seu forte. - Ela piscou e soprou um beijo para Spencer. - Mas desta vez voc vai ter que esperar para ver.
35
COMEA A PERSEGUIO
Como Hanna tinha chegado  festa de limusine e a me de Emily a tinha levado de carro, o nico veculo disponvel era o desengonado e imprevisvel Subaru de Aria. 
Ela liderou as outras at o estacionamento, seus sapatos baixos de camura verde martelando pelo caminho. Destravou manualmente a porta e despencou no assento do 
motorista. Hanna se sentou na frente, no banco do passageiro e Emily afastou todos os livros de Aria, copos vazios de caf, mudas de roupa, novelos de l e um par 
de botas de salto alto, e sentou atrs. Aria estava com o celular enfiado entre o queixo e o ombro tentando ligar para Wilden, para saber se Spencer e Mona tinham 
aparecido no posto policial, mas depois de oito toques sem resposta, ela desligou, frustrada.
        -Wilden no est na mesa dele - disse ela -, e tambm no atende o celular.
        Elas ficaram quietas por um momento, perdidas em seus prprios pensamentos. Como Mona pode ser A? pensou Aria. Como Mona pode saber tanto sobre ns? Aria 
repassou tudo o que Mona havia feito: a ameaara com a boneca da Rainha M, enviara para Sean as fotos que causaram a priso de Ezra, e, para Ella, a carta que causou 
a separao da sua famlia. Mona tinha atropelado Hanna, fizera com que Emily fosse obrigada a sair da escola e fizera todas pensarem que Spencer havia assassinado 
Ali. Mona tinha um dedo na morte de Toby Cavanaugh... E talvez na de Ali, tambm.
        Hanna estava olhando o vazio, seus olhos arregalados, como se estivesse possuda. Aria tocou sua mo.
        - Est certa disso? 
        Hanna sacudiu a cabea.
        - Sim. - Seu rosto estava plido e seus lbios estavam secos.
        - Acha que foi uma boa ideia ter enviado uma mensagem para o celular de Spencer? - perguntou Emily, checando seu telefone pela bilionsima vez. - Ela ainda 
no escreveu de volta.
        - Talvez elas estejam na delegacia agora - respondeu Aria, tentando ficar calma. -Talvez Spencer tenha desligado o celular e  por isso tambm que Wilden 
no est atendendo.
        Aria olhou para Hanna. Havia uma enorme e brilhante lgrima descendo pelo seu rosto, passando pelas contuses e pelos pontos.
        - Se Spencer se machucar, vai ser minha culpa - murmurou Hanna. - Eu devia ter me lembrado antes.
        - No  culpa sua, de forma alguma - disse Aria, severamente. - Voc no pode controlar quando vai se lembrar das coisas.
        Ela colocou a mo no brao de Hanna, que se esquivou, cobrindo o rosto com as mos. Aria no sabia como consol-la. Como seria descobrir que sua melhor amiga 
era tambm sua pior inimiga? A melhor amiga de Hanna tinha tentado mat-la.
        De repente, Emily tambm arfou.
        - Aquela foto - sussurrou ela.
        - Que foto? - perguntou Aria, ligando o carro e deixando o estacionamento a toda velocidade.
        -Aquela... Aquela foto que Spencer nos mostrou, de Ali e Ian. Aquela que tinha algo escrito atrs? Eu sabia que j a tinha visto. Agora sei onde! - Emily 
soltou um riso de descrena. - Eu estava na sala do livro do ano h alguns dias, e l havia fotos do interior da bolsa das pessoas. Foi onde vi essa foto. - Ela 
levantou os olhos, olhando de uma para outra. - Na bolsa de Mona. Mas s vi o brao de Ali. A manga cor-de-rosa estava desgastada e tinha um pequeno rasgo.
        A delegacia ficava apenas a cerca de dois quilmetros adiante, bem ao lado do Hooters. Era incrvel que Aria e Mike tivessem estado ali h apenas algumas 
horas. Quando estacionaram, as trs se inclinaram sobre o painel.
        - Droga! - Havia quatro viaturas no estacionamento, e s. - Elas no esto aqui!
        - Calma. - Aria desligou o carro e as trs saltaram, em direo  entrada da delegacia. A luz fluorescente do interior era esverdeada e rida, e vrios policiais 
pararam e ficaram olhando para elas de boca entreaberta. Os bancos de espera verdes estavam vazios, exceto por alguns panfletos instrutivos espalhados neles.
        Wilden surgiu de um canto, com o telefone numa das mos e uma caneca de caf na outra. Quando viu Hanna e Emily em seus vestidos de festa, com as mscaras 
penduradas no pulso e Aria em seu uniforme da escola com um enorme hematoma na cabea, ficou desconcertado.
        - Oi, meninas - disse ele vagarosamente. - O que houve?
        - Voc precisa nos ajudar - disse Aria. - Spencer est em perigo.
        Wilden deu um passo adiante, gesticulando para que elas se sentassem.
        - Como assim?
        - As mensagens de texto que estvamos recebendo - explicou Aria. - Das quais eu falei mais cedo. Ns sabemos quem as enviou,
        Wilden se levantou, alarmado. 
        -Vocs sabem?
        -   Mona Vanderwaal - disse Hanna, sua voz embargada em um soluo. - Foi do que me lembrei.  minha maldita melhor amiga.
        -  Mona... Vanderwaal? - Os olhos de Wilden corriam de uma garota para a outra. -A menina que planejou a sua festa?
        - Spencer Hastings est no carro com Mona agora - disse Emily. - Elas deveriam ter vindo para c, porque Spencer tinha algo para contar a voc. Mas depois 
eu mandei uma mensagem para o celular dela, alertando-a sobre Mona... E agora no sabemos onde elas esto. O telefone de Spencer est desligado.
        -Voc tentou localizar Mona? - perguntou Wilden. 
        Hanna encarou o piso de linleo. Na base policial um telefone tocou, depois outro.
        - Tentei. Ela tambm no atendeu.
        De repente, o telefone de Wilden acendeu em sua mo. Aria viu a tela de relance e reconheceu o nmero que chamava.
        -  Spencer! - gritou ela.
        Wilden atendeu, mas no disse "al". Ele colocou no "viva voz" e olhou para as garotas, o indicador entre os lbios.
        - Shhh - murmurou ele.
        Aria e suas antigas melhores amigas se aglomeraram em torno do telefone. A princpio, s havia rudo, depois ouviram a voz de Spencer. Parecia muito distante.
        - Sempre achei a estrada Swedesford to bonita - disse ela. - Tantas rvores, especialmente nessa parte isolada da cidade.
        Aria e Emily trocaram olhares confusos. E ento, Aria compreendeu - ela tinha visto isso num seriado de TV Mona deve ter descoberto tudo e Spencer conseguiu 
dar um jeito de ligar para Wilden secretamente e dar pistas de aonde Mona a estava
levando
        - E... Por que estamos virando em direo  estrada Brainard? - perguntou Spencer, alta e claramente. - Este no  o caminho para a delegacia.
        - D, Spencer - eles ouviram Mona dizer em resposta. 
        Wilden abriu seu bloco de anotaes e escreveu Estrada Brainard. Alguns policiais se juntaram a eles. Emily explicou o que estava acontecendo quase sussurrando 
e um dos policiais desdobrou um enorme mapa da regio, assinalando o cruzamento entre as estradas Brainard e Swedesford com um marcador amarelo.
        - Ns vamos para o riacho? - a voz de Spencer soou novamente.
        - Talvez - cantarolou Mona.
        Os olhos de Aria se arregalaram. O riacho Morrel estava mais para um rio caudaloso.
        - Eu adoro o riacho - Spencer falou bem alto.
        Ento, houve um arfar e um grito. Eles ouviram alguns barulhos de solavanco, um guinchar de pneus e o tom dissonante de vrios botes de telefone apertados 
de uma s vez... E depois, mais nada. A tela do celular de Wilden piscou. Chamada encerrada.
        Aria olhou para os outros. Hanna tinha a cabea entre as mos, Emily parecia prestes a desmaiar. Wilden se levantou, ps o telefone no coldre e tirou as 
chaves do carro do bolso.
        - Vamos procurar em todas as entradas para o riacho naquela rea.
        Ele apontou para um policial corpulento sentado atrs de uma mesa:
        - Veja se consegue fazer um rastreamento por GPS dessa ligao. - Depois se virou em direo ao seu carro.
        - Espere - disse Aria, correndo atrs dele, que se virou. - Ns vamos junto.
        Wilden soltou os ombros.
        - Isso no ...
        -  Ns vamos junto - disse Hanna, atrs de Aria, sua voz forte e firme.
        Wilden levantou um ombro e suspirou. Ele apontou para a parte de trs da viatura.
        - Tudo bem, podem entrar.
36
UMA OFERTA IRRECUSVEL
PARA SPENCER
Mona arrancou o celular das mos de Spencer, apertou FIM e o atirou para fora da janela, tudo isso sem diminuir a velocidade da picape Hummer. Depois fez um retorno 
abrupto em U, voltando pela estreita e acidentada estrada Brainard, e pegou a rodovia em direo ao sul. Dirigiram por cerca de oito quilmetros e pegaram a sada 
prxima  clnica Bill Beach para queimados. Mais haras e casas em construo, ento a paisagem se transformou em florestas. Quando passaram voando pela velha e 
dilapidada igreja Quaker  que Spencer se deu conta de para onde estavam indo -  pedreira do Homem Flutuante.
        Spencer costumava brincar no grande lago na base da pedreira do Homem Flutuante. As crianas mergulhavam das rochas mais altas, mas no ltimo ano, durante 
um vero seco, um garoto da escola pblica tinha batido nas rochas ao mergulhar e morreu, o que fez com que o nome Homem Flutuante parecesse sinistro e proftico. 
Atualmente havia rumores de que o fantasma do garoto assombrava o permetro da pedreira, guardando o lago. Spencer tinha inclusive ouvido murmrios de que o perseguidor 
de Rosewood tinha seu covil aqui. Olhou de relance para Mona, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Ela tinha a impresso de que o perseguidor de Rosewood estava 
dirigindo o Hummer.
        As unhas de Spencer estavam cravadas to profundamente no apoio de brao que ela tinha certeza de que deixariam marcas permanentes. Ligar para Wilden e dar 
a sua localizao tinha sido seu nico plano, e agora ela estava completamente perdida.
        Mona deu uma olhada de canto de olho para Spencer.
        - Quer dizer que Hanna se lembrou, hein?
        Spencer balanou a cabea quase que imperceptivelmente.
        - Ela no deveria ter lembrado - cantarolou Mona. - Ela sabia que isso colocaria todas vocs em perigo. Assim como Aria no devia ter contado aos policiais. 
Mandei que ela fosse ao Hooters para test-la, para ver se ela realmente tinha prestado ateno aos meus avisos, afinal o Hooters  to perto da polcia. Os policiais 
esto sempre por l. Seria bem tentador contar tudo a eles. E obviamente foi o que ela fez.
        Mona agitou suas mos.
        -  Por que vocs meninas continuam fazendo coisas to estpidas?
        Spencer fechou os olhos, desejando que pudesse simplesmente desmaiar de medo.
        Mona suspirou dramaticamente.
        - Mas  claro, vocs vm fazendo coisas estpidas por anos, no? Comeando com a boa e velha Jenna Cavanaugh.
        A boca de Spencer se abriu em surpresa. Mona... Sabia? 
        Claro que sim. Ela era A.
        Mona viu o terror no rosto de Spencer e fez uma expresso de falsa surpresa como resposta. Depois puxou para baixo o zper lateral do seu vestido frente 
nica, revelando um suti de seda preta e boa parte da sua barriga. Havia uma enorme e enrugada cicatriz circulando a base de sua caixa torcica. Spencer a encarou 
por poucos segundos at que teve que desviar o olhar.
        - Eu estava l na noite em que vocs machucaram Jenna - sussurrou Mona, com uma voz rouca. - Jenna e eu ramos amigas, o que vocs saberiam se no fossem 
to egostas. Fui at a casa de Jenna para surpreend-la naquela noite. Eu vi Ali... Vi tudo... Ganhei at uma lembrancinha. - Ela acariciou suas cicatrizes de queimadura. 
- Eu tentei avisar s pessoas que tinha sido Ali, mas ningum acreditou em mim. Toby assumiu a culpa to rapidamente que meus pais pensaram que eu estava culpando 
Ali por ter inveja dela.
        Mona sacudiu a cabea, seu cabelo loiro indo de um lado para o outro. Assim que ela terminou o cigarro e o jogou pela janela, acendeu outro, tragando o filtro 
brutalmente.
        - Tentei at mesmo falar com Jenna a respeito, mas ela se recusou a ouvir. Ela continuava dizendo: "Voc est errada. Foi o meu meio-irmo." - Mona imitou 
a voz de Jenna num tom mais agudo.
        "Jenna e eu deixamos de ser amigas depois disso - continuou Mona -, mas toda vez em que estou na frente do espelho em casa e olho para o meu corpo, que antes 
era perfeito, me lembro do que vocs, suas vacas, fizeram. Eu sei o que vi. E eu... Jamais... vou... esquecer. - Sua boca se contorceu num sorriso misterioso.
        - Neste vero arrumei um jeito de dar o troco em vocs, vacas. Descobri o dirio de Ali no meio de todo aquele lixo que os novatos estavam jogando fora. 
Sabia que era de Ali assim que o vi. Ela escreveu toneladas de segredos sobre todas vocs. Prejudicando algumas para valer, na verdade.  como se ela quisesse que 
o dirio casse em mos inimigas.
        Uma lembrana ocorreu a Spencer: no dia anterior ao sumio de Ali, elas surpreenderam Ali em seu quarto, devorando um caderno, um divertido e vido sorriso 
em seu rosto.
        - Como os policiais no encontraram o dirio no dia em que ela desapareceu? - balbuciou ela.
        Mona conduziu o carro at um amontoado de rvores e parou. Havia apenas escurido diante delas, mas Spencer podia ouvir a gua corrente e sentir o cheiro 
do musgo e da relva molhada.
        - Quem diabos vai saber? Mas fico feliz que eles no o tenham encontrado e sim, eu. - Mona fechou o vestido e encarou Spencer, seus olhos brilhando. - Ali 
escreveu cada coisa horrvel que vocs fizeram. Como torturaram Jenna Cavanaugh, que Emily a beijou em sua casa da rvore, que voc, Spencer, beijou o namorado da 
sua irm. Foi to fcil para mim, simplesmente... Sei l, me tornar ela. Tudo o que me custou foi ter um segundo telefone com o nmero bloqueado. E a princpio eu 
realmente deixei voc achar que era Ali te chamando, no foi? - Mona agarrou a mo de Spencer e gargalhou.
        Spencer evitou o toque.
        - No acredito que era voc o tempo todo.
        - No  surpreendente?! E deve ter sido muito chato no saber! - Mona aplaudiu alegremente. - Era to divertido observar vocs ficando doidas... Ento o 
corpo de Ali apareceu e vocs ficaram realmente doidas. Enviar bilhetes para mim mesma, porm, foi pura genialidade... - Ela a alcanou e deu um tapinha em sua omoplata 
esquerda. - Tive uma trabalheira danada em antecipar seus movimentos, antes mesmo de vocs saberem quais seriam. Mas a coisa toda ficou to elegantemente bem-feita, 
quase como um vestido de alta-costura, voc no acha?
        Os olhos de Mona observaram Spencer  espera de uma reao. Ento, lentamente, ela estendeu a mo e a socou jocosamente no brao.
        - Voc parece to assustada agora. Como se eu fosse machucar voc, ou algo assim. Mas no tem que ser desse jeito.
        - Ser... de que jeito? - sussurrou Spencer.
        -  Quero dizer, no comeo eu odiava voc, Spencer, mais que todas. Voc era a mais prxima de Ali, e voc tinha tudo. - Mona acendeu outro cigarro. - Mas 
ento... Ficamos amigas. Foi to divertido planejar a festa para Hanna, passar tempo juntas. Voc no se divertiu flertando com aqueles meninos? Fala srio, no 
foi agradvel? Ento pensei... Talvez eu possa ser to filantrpica como a Angelina Jolie.
        Spencer piscou, abismada.
        - Decidi ajud-la - explicou Mona. - O lance do Orqudea Dourada foi um golpe de sorte, mas isso... Eu honestamente quero fazer sua vida melhor, Spencer. 
Porque eu verdadeira e honestamente me importo com voc.
        Spencer franziu a testa.
        - D-do que voc est falando?
        - Melissa, sua boba! - exclamou Mona. - Incrimin-la como assassina.  perfeito. No  o que voc sempre quis? Sua irm na cadeia, presa por assassinato 
e fora da sua vida para sempre. Voc pareceria to perfeita em comparao!
        Spencer a encarou:
        - Mas... Melissa tinha um motivo.
        - Tinha mesmo? - Mona sorriu. - Ou  nisso que voc quer acreditar?
        Spencer abriu a boca, mas no emitiu nenhum som. Mona tinha mandado a mensagem que dizia: O assassino de Ali est na sua frente. E a outra que dizia: Foi 
ela, voc sabe.
        Ela tinha plantado a foto na bolsa de Spencer.
        Mona deu a Spencer um olhar depravado.
        - Ns podemos virar isso a nosso favor. Podemos voltar  delegacia e dizer a Hanna que foi tudo um tremendo mal-entendido, que ela no est se lembrando 
das coisas corretamente. Podemos fazer com que A seja outra pessoa, algum de que voc no goste. Que tal Andrew Campbell? Voc sempre o odiou, no ?
        - E-eu... - gaguejou Spencer.
        - Podemos colocar sua irm na cadeia - sussurrou Mona -, e ns duas podemos ser A. Podemos controlar todo mundo. Voc  to minha cmplice quanto Ali era, 
Spence. E voc  mais bonita, esperta e rica. Voc deveria ser a lder do grupo, no ela. Estou lhe dando a chance, agora, de ser a lder que voc est destinada 
a ser. Sua vida em casa seria perfeita. Sua vida na escola seria perfeita.
        Seus lbios se abriram num sorriso.
        - E eu sei o quanto voc deseja ser perfeita.
        - Mas voc machucou minhas amigas - sussurrou Spencer.
         -Tem certeza de que so suas amigas? - Os olhos de Mona brilharam. -Voc sabe quem eu armei para ser a assassina antes de Melissa? Voc, Spencer. Alimentei 
sua boa amiga Aria com todo tipo de pista incriminando voc: que ouvi, atrs da parede, voc brigando com Ali na noite em que ela desapareceu. E o que fez Aria, 
sua melhor amiga? Ela acreditou. Ela estava pronta para entreg-la.
        - Aria no faria isso - gritou Spencer.
        - No? - Mona ergueu uma sobrancelha. - Ento por que eu a ouvi contar a Wilden exatamente isso no hospital, domingo de manh, no dia seguinte ao acidente 
da Hanna? - Ela gesticulou as aspas frisando "acidente". - Ela no perdeu tempo, Spence. Sorte sua que Wilden no acreditou. Agora, por que voc chamaria algum 
que fez isso com voc de amiga?
        Spencer inspirou profundamente algumas vezes, sem saber no que acreditar. Um pensamento se desenrolava em sua cabea.
        - Espere... se Melissa no matou Ali, ento voc matou. 
        Mona recostou em seu assento, o couro enrugando embaixo dela.
        - No. - ela sacudiu a cabea. - Mas sei quem foi. Ali escreveu a respeito na ltima pgina do seu dirio. Pobrezinha, a ltima coisa que ela escreveu antes 
de morrer - disse Mona, fazendo beicinho.
        - Estava escrito: "Ian e eu vamos ter um encontro supersecreto esta noite." Mona imitou a voz de Ali tambm, mas soou mais como uma boneca diablica num 
filme de terror: "E eu dei a ele um ultimato. Disse que era melhor que ele terminasse com Melissa antes que ela fosse para Praga ou eu contaria a ela e a todo mundo 
sobre ns" - Mona suspirou, soando entediada. -  bem bvio o que aconteceu: ela forou Ian at o limite e ele a matou.
        O vento levantou as pontas do cabelo de Mona.
        - Eu me inspirei em Ali. Ela era a vadia perfeita. Ningum estava a salvo de suas chantagens. E, se voc quisesse, ningum estaria a salvo das suas, tambm.
        Spencer balanou a cabea lentamente.
        - Mas... Mas voc atropelou Hanna. 
        Mona encolheu os ombros.
        - Eu precisei. Ela sabia demais.
        - Eu... Eu sinto muito - sussurrou Spencer - Sem chance de eu querer... Ser A com voc. Mandar na escola com voc. Ou qualquer coisa que voc esteja me oferecendo. 
Isso  loucura.
        A expresso desapontada de Mona se transformou em algo mais sinistro. Ela franziu o cenho, juntando as sobrancelhas.
        - Tudo bem. Como queira, ento.
        A voz de Mona pareceu uma faca cortando a pele de Spencer. Os grilos cantavam histericamente. A gua correndo abaixo soava como sangue correndo por uma veia. 
Em um rpido movimento, Mona voou para a frente e enrolou as mos em torno do pescoo de Spencer. Spencer gritou e jogou-se para trs, batendo para acertar o boto 
e destravar a porta de novo. Ela chutou o peito de Mona. Enquanto Mona gritava e recuava, Spencer puxou a maaneta da porta e a empurrou, rolando para fora do carro 
sobre a relva espinhosa. Imediatamente ficou de p e comeou a correr na escurido. Sentia a relva sob seus ps, depois cascalho, sujeira e ento lama. O barulho 
da gua ficava cada vez mais alto. Spencer podia sentir a proximidade dos limites da pedreira e ouvia os passos de Mona logo atrs dela. Logo depois os braos de 
Mona agarraram sua cintura. Ela caiu pesadamente no cho. Mona subiu em cima dela e agarrou seu pescoo com as mos. Spencer chutou, lutou e engasgou. Mona gargalhou, 
como se tudo fosse um jogo.
        -  Pensei que fssemos amigas, Spencer - falou, fazendo uma careta, tentando manter Spencer parada.
        Spencer lutava para respirar.
        - Parece que no! - gritou ela.
        Usando toda a sua fora, Spencer empurrou suas pernas contra o corpo de Mona, jogando-a para trs. Mona caiu sentada a poucos metros, seu chiclete amarelo 
voando de sua boca. Spencer rapidamente se ps de p. Mona se levantou tambm, enfurecida, os dentes cerrados. O tempo parecia ter ficado mais lento conforme Mona 
avanava sobre ela, sua boca um tringulo de fria. Spencer fechou os olhos e apenas... Reagiu. Ela agarrou Mona pelas pernas e seus ps saram do cho, ento ela 
comeou a cair. Spencer sentiu seus braos pressionando o estmago de Mona, empurrando o mximo que conseguiu. Ela viu o branco dos olhos de Mona se alargar e ouviu 
os gritos dela em seus ouvidos. Mona caiu para trs e, num piscar de olhos, sumiu.
        Spencer no percebeu a princpio, mas estava caindo tambm. Ento, atingiu o solo. Ouviu um grito ecoar pelo desfiladeiro e pensou por um momento que era 
o dela. Sua cabea acertou o cho e fez um crack... E seus olhos se fecharam.
37
VER  CRER
Hanna se espremeu na traseira da viatura de Wilden, junto de Aria e Emily. Era onde criminosos - no que Rosewood tivesse muitos - geralmente se sentavam. Mesmo 
mal podendo enxergar Wilden atravs das barras de metal atrs do banco da frente, ela percebia pelo tom da voz em seu rdio que ele estava to preocupado e tenso 
quanto ela.
        - Algum j encontrou alguma coisa? - perguntou ele no walkie-talkie. Eles estavam bem devagar, num sinal fechado enquanto Wilden decidia que caminho tomar. 
Eles tinham dirigido apenas em torno da principal desembocadura do riacho Morrel, mas encontraram somente alguns garotos da escola pblica estendidos no mato, chapados. 
No havia nem sinal da Hummer de Mona.
        - Nada - disse a voz no rdio.
        Aria pegou a mo de Hanna e a apertou com fora. Emily chorava silenciosamente em seu ombro.
        - Talvez ela quisesse dizer outro riacho - sugeriu Hanna.- Talvez seja o riacho na trilha Marwyn.
        E enquanto ela estava nessa, talvez Spencer e Mona estivessem s passando tempo e conversando. Talvez Hanna tivesse se enganado e Mona no fosse A.
        Outra voz estalou no rdio:
        -  Recebemos uma ligao informando uma perturbao na pedreira do Homem Flutuante.
        Hanna enterrou suas unhas na mo de Aria. Emily arfou.
        - A caminho - disse Wilden.
        -  Pedreira... Homem Flutuante? - repetiu Hanna. Mas a pedreira do Homem Flutuante era um lugar alegre: no muito depois da transformao delas, Hanna e 
Mona tinham encontrado garotos da Academia Drury ali. Elas tinham feito um desfile de roupa de banho para eles ao longo das pedras, considerando que era muito mais 
atraente provocar um garoto do que realmente beij-lo. Logo em seguida, tinham pintado HM + MV = MAPTS no teto da garagem de Mona, jurando que seriam prximas para 
sempre.
        Ento era tudo mentira? Mona tinha planejado isso desde o comeo? Mona estivera esperando pelo dia em que pudesse atropelar Hanna com seu carro? Hanna sentiu 
uma incontrolvel vontade de pedir a Wilden que parasse o carro para que ela pudesse vomitar.
        Quando chegaram  entrada da pedreira do Homem flutuante, a picape Hummer amarelo-brilhante de Mona era como a luz de um farol. Hanna agarrou a maaneta, 
ignorando o carro em movimento. A porta se abriu e ela se lanou para fora e foi correndo em direo ao Hummer, seus tornozelos danando no cascalho irregular.
        - Hanna, no! - gritou Wilden. - No  seguro!
        Hanna ouviu Wilden parar o carro e mais portas se escancararam, Folhas estalaram atrs dela. Ao chegar ao carro, ela notou algum encurvado prximo ao pneu 
dianteiro esquerdo. Hanna viu o cabelo loiro e seu corao ficou suspenso. Mona.
        S que era Spencer. Havia sujeira e lgrimas por todo o seu rosto e mos, e cortes pelos braos. Seu vestido de seda estava rasgado e ela estava descala.
        - Hanna! - gritou Spencer estendendo a mo em farrapos para ela.
        -Voc est bem? - Hanna arfou, agachando ao lado dela e tocando em seu ombro. Ela estava fria e mida. 
        Spencer chorava tanto que mal podia falar.
        - Sinto muito, Hanna. Sinto muito.
        - Por qu? - perguntou  Hanna, tomando  as  mos  de Spencer.
        - Porque... - Spencer apontou para a beirada da pedreira. - Acho que ela caiu.
        Quase instantaneamente a sirene de uma ambulncia soou atrs delas, seguida por outro carro de polcia. A equipe de resgate e mais policiais cercaram Spencer.
        Hanna se afastou entorpecida enquanto os paramdicos perguntavam a Spencer se ela podia mexer todos os membros, o que doa e o que tinha acontecido.
        - Mona estava me ameaando - Spencer repetia sem parar -, ela estava me estrangulando. Tentei fugir dela, mas lutamos. E depois ela... - e apontou novamente 
para a beirada da pedreira.
        Mona estava me ameaando. Os joelhos de Hanna tremeram. Isso era real.
        Os policiais haviam vasculhado a pedreira de cima a baixo com pastores alemes, lanternas e armas. Em poucos minutos um deles berrou:
        - Achamos algo!
        Hanna ficou em p e correu at o policial. Wilden, que estava prximo, segurou-a por trs.
        - Hanna - disse ele em seu ouvido -, no. Voc no deve.
        - Mas eu tenho que ver! - gritou Hanna. 
        Wilden a abraou.
        - Fique aqui, est bem? S fique comigo.
        Hanna assistiu a uma equipe de policiais desaparecer atrs da entrada da pedreira e na direo da gua corrente.
        - Precisamos de uma maca! - gritou um deles.
        Mais paramdicos chegaram com suprimentos. Wilden ficou acariciando o cabelo de Hanna, usando uma parte do corpo como escudo para que ela no visse o que 
acontecia. Mas ela podia ouvir. Ela os ouviu dizendo que Mona estava presa entre duas pedras. E que parecia ter quebrado o pescoo. E que precisavam ser muito, muito 
cuidadosos para tir-la de l. Ela ouviu gritos de encorajamento enquanto erguiam Mona para a superfcie e a colocavam na maca e, em seguida, na ambulncia. Ao passarem, 
Hanna teve um vislumbre do cabelo loiro claro de Mona. Ela se livrou de Wilden e comeou a correr.
        - Hanna! - gritou ele. - No!
        Mas ela no foi em direo  ambulncia. Foi para o outro lado do carro de Mona, abaixou-se e vomitou. Limpou suas mos na relva e se encurvou como uma bolinha. 
As portas da ambulncia se fecharam e o motor ligou, mas a sirene no soou. Hanna imaginou se era porque Mona j estava morta.
        Ela chorou at parecer que no havia mais lgrimas em seu corpo. Exausta, ela se virou de costas. Algo duro e quadrado pressionou sua coxa. Hanna se sentou 
e envolveu as mos em torno. Era um estojo de camura para celular, que Hanna no reconheceu. Ela o puxou para perto e sentiu seu perfume. Cheirava a Joy de Jean 
Patou, que havia sido o perfume favorito de Mona por anos.
        S que o telefone dentro dele no era o Sidekick edio limitada da Chanel que Mona tinha implorado ao pai para trazer do Japo, nem tinha o MV incrustado 
em cristais Swarovski atrs. Esse telefone era um comum e genrico BlackBerry, sem nenhum detalhe.
        O corao de Hanna afundou, compreendendo o que esse segundo telefone significava. Tudo de que ela precisava para provar a si mesma que Mona tinha realmente 
feito isso com elas era ligar o telefone e olhar. O aroma dos arbustos de framboesa da pedreira se fazia sentir, exatamente como h trs anos, quando ela e Mona 
desfilaram de biquni para os garotos. Era tudo um jogo. Se eles parecessem apenas levemente impressionados, elas perdiam. Se parecessem como ces famintos, cada 
uma daria  outra um tratamento de spa. Posteriormente, Hanna escolheu o banho de Algas e Jasmim e Mona o de jasmim, cenoura e gergelim.
        Hanna escutou passos se aproximando e tocou a vazia e inocente tela do BlackBerry, ento, o jogou dentro da sua bolsa de seda, andando desajeitadamente na 
direo dos outros. As pessoas falavam em volta dela, mas tudo o que ela ouvia era uma voz em sua cabea gritando: "Mona est morta."
38
A LTIMA PEA
Spencer foi mancando at a traseira da viatura com a ajuda de Aria e Wilden. Eles perguntaram vrias e vrias vezes se ela precisava de uma ambulncia. Spencer disse 
que tinha certeza que no - nada parecia quebrado e, por sorte, ela havia cado na relva, desmaiando por um momento, mas no tinha se machucado. Sentada no banco 
traseiro, ela balanava as pernas para fora da viatura pela porta aberta enquanto Wilden se agachava em sua frente, gravador e bloco de anotao nas mos.
        - Tem certeza de que quer fazer isso agora?
        Spencer assentiu vigorosamente.
        Emily,Aria e Hanna se reuniram atrs de Wilden enquanto ele apertava GRAVAR. AS luzes de outra viatura faziam um halo em torno deles, iluminando seus vultos 
em vermelho, o que fez Spencer se lembrar das fogueiras no acampamento de vero, iluminando as silhuetas de seus amigos. Se pelo menos ela estivesse num acampamento 
de vero, agora.
        Wilden inspirou profundamente.
        - Certo. Ento, voc tem certeza de que ela lhe disse que Ian Thomas assassinou Ali.
        Spencer assentiu.
        - Ali tinha dado um ultimato a ele na noite em que desapareceu. Ela queria que eles se encontrassem... E disse que se Ian no terminasse com Melissa antes 
da viagem dela para Praga, Ali contaria a todos o que estava acontecendo. - Ela tirou o cabelo sujo e cheio de barro do rosto. - Est escrito no dirio de Ali, que 
estava com Mona. No sei onde, mas...
        - Vamos dar uma busca na casa de Mona - interrompeu Wilden, colocando uma mo sobre o joelho de Spencer. - No se preocupe.
        Ele se afastou e falou no seu walkie-talkie, instruindo os outros policiais a localizar Ian para interrog-lo. Spencer ouviu, olhando entorpecidamente para 
a sujeira sob suas unhas.
        Suas amigas ficaram por perto durante um bom longo tempo, atnitas.
        -  Deus - sussurrou Emily -, Ian Thomas? Isso soa to... doido. Mas acho que faz sentido. Ele era to mais velho e se ela contasse a todos, bem...
        Spencer colocou os braos em volta do prprio corpo, sentindo arrepios. Para ela, Ian no fazia sentido. Spencer acreditava que Ali o havia ameaado e que 
ele ficara furioso, mas furioso o suficiente para mat-la? Era estranho, tambm, que durante todo aquele tempo que Spencer tinha passado com ele, ela nunca tivesse 
suspeitado nem um pouco de Ian. Ele no parecera nervoso, nem arrependido ou pensativo quando o assassinato de Ali veio  tona.
        Mas talvez ela no tivesse interpretado corretamente os sinais - ela j havia deixado passar muitos outros. Ela entrara no carro com Mona, afinal. Quem sabe 
o que mais estava diante de seu nariz sem que ela percebesse?
        Um bip veio do walkie-talkie de Wilden.
        - O suspeito no est em sua residncia - chamou uma voz de policial feminina. - O que quer que faamos?
        - Droga. -Wilden olhou para Spencer. - Consegue imaginar onde mais Ian pode estar?
        Spencer sacudiu a cabea, seu crebro parecendo preso num pntano. Wilden se jogou no banco dianteiro.
        -Vou lev-las para casa - disse ele. - Seus pais esto vindo do Country Clube, tambm.
        -  Queremos ir at a casa de Spencer com voc. - Aria pediu que Spencer desse lugar para que ela, Emily e Hanna se espremessem no banco traseiro. - No queremos 
deix-la sozinha.
        - Meninas, vocs no precisam - disse Spencer, suavemente. - E tambm tem o seu carro, Aria.
        Ela falava do Subaru de Aria, que mais parecia afundado na lama.
        - Posso deix-lo at amanh. -Aria fez uma careta. -Talvez eu tenha sorte e algum o roube.
        Spencer dobrou as mos sobre o colo, fraca demais para protestar. O carro ficou silencioso enquanto Wilden passava pela placa da pedreira do Homem Flutuante, 
depois pela trilha estreita que levava at a estrada principal. Era difcil acreditar que apenas uma hora e meia se passara desde que Spencer deixara a festa. As 
coisas estavam to diferentes agora.
        - Mona estava l na noite em que machucamos Jenna -murmurou Spencer, distraidamente.
        Aria balanou a cabea.
        -  uma longa histria, mas na verdade eu falei disso com Jenna esta noite. Jenna sabe o que fizemos. S que, adivinha s: ela e Ali armaram tudo juntas.
        Spencer endireitou-se. Por um momento, ela no conseguia respirar.
        - O qu? Por qu?
        - Ela disse que tanto ela como Ali tinham problemas com seus irmos ou algo assim - explicou Aria, sem soar muito confiante na resposta.
        - Eu simplesmente no entendo - sussurrou Emily -, eu vi Jason DiLaurentis no jornal outro dia. Ele disse que nem mesmo fala com seus pais depois daquilo 
e que sua famlia era problemtica. Por que ele diria isso?
        - H muita coisa que no se pode dizer sobre as pessoas julgando s pelas aparncias - murmurou Hanna entre lgrimas.
        Spencer cobriu seu rosto com as mos. Havia tanta coisa que ela no compreendia, tanta coisa que no fazia sentido. Ela sabia que as coisas deveriam pelo 
menos parecer resolvidas agora: A havia realmente desaparecido e o assassino de Ali seria preso logo. Mas ela se sentia mais perdida do que nunca. Ela retirou as 
mos, olhando para o brilho da lua no cu.
        -  Meninas - Spencer quebrou o silncio -, h algo que preciso contar a vocs.
        - Algo mais? - gemeu Hanna.
        - Algo... Sobre a noite em que Ali desapareceu.
        Spencer deslizava sua pulseira da sorte para cima e para baixo no brao, mantendo na voz o tom de sussurro.
        -Vocs se lembram de como corri atrs de Ali quando sa do celeiro? E que eu disse que no vi para onde ela tinha ido? Bem... Eu vi. Ela estava naquele caminho. 
Fui atrs dela e... Ns brigamos. Por causa do Ian. Eu... Eu tinha beijado Ian no muito tempo atrs e Ali me disse que ele s tinha me beijado porque ela o incentivou. 
E como sabia que me incomodava, ela me provocava dizendo que eles estavam realmente apaixonados.
        Spencer sentiu os olhares das amigas voltados para ela e reuniu foras para continuar.
        -  Fiquei enlouquecida... e a empurrei. Ela caiu contra as pedras e houve um barulho horrvel de algo se quebrando.
        Uma lgrima tremeu no canto do seu olho e se derramou pelo rosto. Ela baixou a cabea.
        -  Sinto muito, gente. Eu devia ter contado a vocs. Eu s... Eu no me lembrava e depois, quando me lembrei, fiquei muito assustada.
        Quando ela levantou os olhos, suas amigas estavam chocadas. At mesmo a cabea de Wilden balanara para trs, como se ele estivesse tentando ouvir. Se quisessem, 
elas podiam jogar a teoria de que fora Ian pela janela. Elas podiam fazer Wilden parar o carro e obrigar Spencer a repetir exatamente o que tinha acabado de dizer. 
As coisas podiam tomar um rumo terrvel a partir de ento.
        Emily foi a primeira a pegar a mo de Spencer, depois Hanna colocou as suas sobre a de Emily e Aria apoiou as dela sobre as de Hanna. Isso lembrava a Spencer 
de quando todas elas costumavam tocar a foto das cinco no saguo de Ali.
        - Sabemos que no foi voc - sussurrou Emily.
        - Foi Ian.Tudo faz sentido - disse Aria, firmemente, olhando dentro dos olhos de Spencer. Parecia que ela acreditava em Spencer total e completamente.
        Ao chegarem  rua de Spencer, Wilden estacionou na grande entrada circular para a casa da famlia. Os pais de Spencer ainda no haviam chegado e a casa estava 
s escuras.
        - Querem que eu fique com vocs at que seus pais cheguem? - perguntou Wilden enquanto as garotas saam.
        - Est tudo bem. - Spencer olhou para as outras, subitamente aliviada por estarem ali.
        Wilden voltou pela rua e se virou lentamente no fim da rua sem sada, passando primeiro pela antiga casa dos DiLaurentis, depois pela dos Cavanaugh e ento 
pela casa dos Vanderwaals, a grande monstruosidade com a garagem destacada na rua. No havia ningum na casa de Mona, obviamente. Spencer estremeceu.
        Um lampejo de luz no quintal chamou a ateno de Spencer. Ela ergueu a cabea, seu corao acelerando. Ela andou pelo cantinho de pedras que levava ao seu 
quintal e passou as mos pela parede, tambm de pedra, que cercava a propriedade. L, depois do deque, da piscina cercada de pedras, da borbulhante banheira de gua 
quente, do ptio amplo e mesmo do celeiro renovado, bem no fundo da propriedade, perto de onde Ali havia cado, Spencer viu dois vultos, iluminados somente pela 
luz da lua. Eles a lembraram de algo.
        O vento aumentou, percorrendo as costas de Spencer. Mesmo no sendo a estao certa, o ar de repente cheirava a madressilva, como naquela horrvel noite, 
quatro anos e meio atrs. Ela se lembrou de tudo, de uma s vez. Ela viu Ali cair para trs, batendo a cabea no muro de pedra. Um estalo soou pelo ar, to alto 
quanto sinos de igreja. Quando Spencer ouviu o suspiro feminino em seu ouvido, ela se virou. No havia ningum atrs dela. Ningum estava ali. E quando ela voltou, 
Ali ainda estava cada contra o muro, mas seus olhos estavam abertos. Ento, Ali grunhiu e se ps de p.
        Ela estava bem.
        Ali encarou Spencer, prestes a falar, mas algo no cantinho a distraiu. Ela saiu rapidamente, desaparecendo por entre um bosque de rvores. Em segundos, Spencer 
ouviu a risadinha tpica de Ali. Houve um sussurrar e, depois, duas formas distintas, Uma era Ali. Spencer no conseguia dizer quem era a outra pessoa, mas no parecia 
ser Melissa. Era difcil acreditar que, apenas alguns momentos depois, Ian empurraria Ali para o buraco do gazebo dos DiLaurentis. Ela tinha sido uma vadia, mas 
no merecia nada daquilo.
        - Spencer? - chamou Hanna suavemente, sua voz parecendo distante. - H algo errado?
        Spencer abriu os olhos e estremeceu.
        - No fui eu - disse ela num sussurro.
        Os vultos perto do celeiro ficaram sob a luz. A postura de Melissa era rgida e Ian tinha os punhos cerrados. O vento carregava suas vozes para a frente 
do ptio, e parecia que eles estavam brigando.
        Os nervos de Spencer se inflamaram. Ela girou em torno e olhou pela sua rua. O carro de Wilden tinha ido embora. Freneticamente, ela procurou seu telefone 
no bolso, mas se lembrou: Mona o tinha jogado pela janela.
        - Aqui - disse Hanna, sacando seu prprio BlackBerry e discando um nmero. Ela entregou o telefone a Spencer. Chamando WILDEN, dizia a tela.
        Spencer teve que segurar o telefone com as duas mos, seus dedos tremendo terrivelmente. Wilden respondeu depois de dois toques.
        - Hanna? - ele soou confuso. - O que foi?
        -  Spencer - choramingou ela. - Voc vai ter que voltar. Ian est aqui.
39
OS NOVSSIMOS MONTGOMERY
PERTURBADORES COMO SEMPRE
Na tarde seguinte, Aria se sentou no futon da sala de Meredith, distrada, brincando com o bonequinho cabeudo de William Shakespeare que Ezra havia lhe dado. Byron 
e Meredith estavam sentados prximos a ela, vendo televiso. Uma entrevista coletiva sobre a morte de Ali estava sendo exibida. Ian Thomas preso, dizia o letreiro 
na parte de baixo da tela.
        - O sr. Thomas deve se apresentar ao juiz nesta tera-feira - disse um reprter, na frente da escadaria de pedra do prdio do Tribunal do Condado de Rosewood. 
- Nenhum membro desta comunidade imaginaria que um rapaz to tmido e educado como Ian pudesse estar por trs disso.
        Aria encostou os joelhos no peito.
        Os policiais tinham ido at a casa dos Vanderwaal naquela manh e encontrado o dirio de Ali escondido debaixo da cama de Mona. Ela havia dito a verdade 
a Spencer sobre a ltima coisa que Ali escrevera no dirio - ela contava sobre como tinha dado um ultimato a Ian, dizendo que ou ele terminava o namoro com Melissa 
Hastings, ou ela iria contar a todo mundo sobre eles. A imagem de Ian algemado, sendo levado  delegacia, estava em todos os telejornais. Quando foi pedido que desse 
uma declarao, Ian respondera:
        - Sou inocente. Isso tudo  um engano.
        Byron bufou, sem acreditar. Ele alcanou a mo de Aria e a apertou. Depois, como era de se esperar, o telejornal passou para a histria seguinte - a morte 
de Mona. Na tela da televiso podia-se ver a faixa amarela da polcia em volta da pedreira do Homem Flutuante e em seguida uma tomada da casa dos Vanderwaal. O cone 
de um telefone Blackberry aleatrio aparecia no canto da tela
        - A srta. Vanderwaal esteve perseguindo quatro garotas do colgio Rosewood Day por mais de um ms, e as ameaas acabaram se tornando mortais - disse o reprter. 
- Noite passada, houve uma briga entre a srta. Vanderwaal e outra menor de idade na beira da pedreira. A srta. Vanderwaal acabou escorregando e quebrando o pescoo 
na queda. A polcia encontrou o Blackberry da srta. Vanderwaal em sua bolsa, no fundo da pedreira, mas ainda procura por um segundo celular, o que ela usava para 
mandar as mensagens perturbadoras para as meninas que perseguia.
        Aria deu mais um peteleco no boneco de Shakespeare. Parecia que sua prpria cabea ia explodir. Tinha acontecido muito coisa no dia anterior e ela no tinha 
conseguido processar tudo. E seus sentimentos estavam uma confuso. Ela estava pssima pela morte de Mona. E atnita, achando esquisitssimo e assustador que o acidente 
de Jenna na verdade no tivesse sido um acidente - e que Jenna e Ali houvessem combinado tudo juntas. E depois de todo esse tempo, o assassino era Ian... O reprter 
assumiu uma expresso solidria e aliviada e disse:
        - Finalmente, a comunidade de Rosewood pode considerar toda essa histria horrvel como guas passadas. - Isso era algo que estava sendo dito por todo mundo, 
durante toda a manh.
        Aria caiu no choro. Ela no sentia como se tudo j tivesse passado.
        Byron olhou para ela.
        - O que foi?
        Aria balanou a cabea, sem conseguir explicar. Ela segurou o brinquedo nas mos, e suas lgrimas pingaram no topo ' da cabea do Shakespeare de plstico.
        Byron deu um suspiro de frustrao.
        - Eu entendo que isso tudo  avassalador.Tinha algum perseguindo voc. Voc nunca nos contou nada a respeito. E voc deveria ter contado. Podemos falar 
sobre isso agora mesmo.
        - Desculpe... - Aria balanou a cabea. - Eu no posso.
        - Mas ns precisamos! - Byron se impacientou. -Voc precisa colocar isso tudo para fora.
        - Byron! - disse Meredith, sem acreditar no que ouvia. - Meu Deus do cu!
        - Que foi? - perguntou Byron, erguendo os braos, como quem se rende.
        Meredith se colocou entre Aria e seu pai.
        -Voc e suas discusses interminveis - disse Meredith. - Ser que Aria j no sofreu demais nessas ltimas semanas? D algum espao para ela!
        Byron deu de ombros, parecendo vencido. O queixo de Aria caiu. Seus olhos encontraram os de Meredith, que sorriu. Havia um brilho de entendimento nos olhos 
dela que parecia dizer; Eu entendi que voc passou. E eu sei que no  fcil. Aria olhou para a tatuagem de teia de aranha cor-de-rosa que Meredith tinha em seu 
pulso. Ela pensou em como estivera ansiosa para achar alguma coisa ruim para dizer sobre Meredith e aqui estava Meredith, cuidando dela.
        O telefone celular de Byron vibrou, se movendo pelo tampo da mesinha de centro. Ele olhou para a tela, franziu a testa e atendeu.
        - Ella? - sua voz soou estridente.
        Aria ficou tensa. As sobrancelhas de Byron estavam unidas.
        - Sim... ela est aqui. - Ele passou o telefone para Aria. - Sua me quer falar com voc.
        Meredith limpou a garganta meio sem jeito, levantou-se e foi ao banheiro. Aria olhou para o telefone como se fosse o pedao de carne podre de tubaro que 
certa vez algum na Islndia a desafiara a provar, j que isso era uma coisa que os vikings costumavam comer. Ela encostou o telefone no ouvido.
        - Ella?
        - Aria, voc est bem? - a voz de Ella estava chorosa do outro lado da linha.
        - Eu... Eu estou legal - disse Aria. - Eu no sei. Acho que sim. No estou machucada, nem nada.
        Houve um logo silncio. Aria puxou a antena do telefone do pai e empurrou-a de volta.
        - Eu sinto tanto, querida - disse Ella, emocionada. - Eu no fazia a menor ideia de que voc estava passando por tudo isso. Por que voc no nos contou que 
estava sendo ameaada?
        - Porque... - Aria perambulou por seu quartinho no apartamento de Meredith e pegou Pigtunia, sua porquinha de pelcia. Falar sobre A para Mike no tinha 
sido fcil. Mas agora que tudo tinha acabado e que Aria no tinha mais que se preocupar com alguma retaliao de A, ela percebeu que a verdadeira razo no importava. 
- Porque vocs todos estavam envolvidos em seus prprios problemas. - Ela se jogou em sua cama de solteiro encaroada e o colcho de molas deu uma espcie de gemido. 
- Mas... Eu sinto muito, Ella. Por tudo. Foi horrvel no te contar o que sabia sobre Byron durante todo esse tempo.
        Ella ficou em silncio. Aria ligou a pequena televiso que ficava sobre o peitoril da janela. As mesmas imagens da entrevista coletiva na tela.          
,
        - Eu entendi por que voc fez isso - disse Ella, por fim. - E eu deveria ter sido mais compreensiva. Eu fiquei muito, muito brava, foi tudo. - Ela suspirou. 
- Meu relacionamento com seu pai j no andava bom h muito tempo. A Islndia s adiou o inevitvel, ns dois sabamos que isso ia acontecer.
        - Tudo bem - disse Aria, com a voz suave, fazendo cafun no pelo cor-de-rosa de Pigtunia.
        Ella suspirou.
        - Desculpe, minha querida. Eu sinto sua falta.
        Aria sentiu um bolo enorme se formando em sua garganta. Ela olhou para as baratas que Meredith havia pintado no teto.
        - Eu sinto sua falta tambm.
        - Seu quarto est aqui, se voc quiser voltar - disse a me dela.
        Aria estreitou Pigtunia em seu peito.
        -  Obrigada - sussurrou, e fechou o telefone. H quanto tempo ela esperava por isso? Que alvio seria dormir em sua prpria cama de novo, com seu colcho 
normal e macio e seus travesseiros de penas. Estar de novo com seus apetrechos de tric, seus livros, seu irmo e Ella. Mas e Byron? Aria o ouviu tossir no outro 
cmodo.
        -Voc precisa de um Kleenex? - perguntou Meredith do banheiro, parecendo preocupada. Ela pensou sobre o carto que Meredith havia feito para Byron e deixado 
exposto na cozinha. Era um desenho com um elefante que dizia "Pisando de levinho para que voc tenha um dia maravilhoso!". Parecia o tipo de coisa que Byron, ou 
Aria faria.
        Talvez Aria tivesse exagerado. Talvez pudesse convencer Byron a comprar uma cama de casal confortvel para seu quarto. Talvez ela pudesse dormir aqui de 
vez em quando.
        Talvez.
        Aria deu mais uma olhada para a tela da TV A entrevista coletiva sobre Ian havia acabado e as pessoas se levantaram para sair. Quando a cmera oscilou, Aria 
viu uma garota loura, com um rosto bem familiar, em formato de corao. Ali? Aria sentou. Ela esfregou os olhos at que eles comeassem a doer. Ela obviamente estava 
tendo uma alucinao por estar h tanto tempo sem dormir.
        Ela foi at a sala de novo, ainda carregando Pigtunia. Byron abriu os braos e Aria foi para o colo dele. Seu pai deu um tapinha distrado na cabea de Pigtunia 
enquanto eles se ajeitavam, assistindo aos comentrios que se seguiram  entrevista coletiva.
        Meredith voltou do banheiro, com o rosto meio esverdeado. Byron esticou o brao que estava em volta do ombro de Aria.
        -Voc ainda est enjoada?
        Meredith fez que sim.
        - Estou.
        Havia um olhar ansioso no rosto dela, como se ela tivesse um segredo e precisasse desabafar. Ela olhou para ambos, os cantos de sua boca tremendo.
        -  Mas no tem problema nenhum. Porque... eu estou grvida.
40
NEM TUDO O QUE BRILHA 
UM ORQUDEA DOURADA
Mais tarde, naquela noite, depois que a polcia havia concludo as buscas na manso Vanderwaal,Wilden chegou  casa dos Hastings para fazer umas ltimas perguntas 
a Melissa. Ela estava sentada no sof de couro da sala agora, e seus olhos estavam inchados e pareciam cansados. Para falar a verdade, todo mundo parecia cansado 
- menos a me de Spencer, que vestia um vestido curto e encrespado Marc Jacobs. Ela e o pai de Spencer estavam de p na parte mais afastada da sala, como se suas 
filhas estivessem cobertas de bactrias.
        A voz de Melissa soava montona.
        - Eu no disse a verdade sobre o que aconteceu naquela noite - admitiu ela - Ian e eu havamos bebido e eu ca no sono. Quando acordei, Ian no estava mais 
l. Da eu ca no sono de novo e quando acordei, ele estava ao meu lado.
        - Por que voc no falou sobre isso antes? - o pai de Spencer quis saber.
        Melissa sacudiu a cabea.
        - Eu fui para Praga na manh seguinte. quela altura, acho que ningum ainda sabia que Ali tinha desaparecido. Quando voltei, estavam todos fora de si... 
E eu... bem, eu nunca imaginei que Ian fosse capaz de fazer uma coisa dessas. - Ela mexeu na bainha do capuz de seu moletom amarelo Juicy. - Suspeitei que eles tinham 
se encontrado em segredo h muitos anos, mas no pensei que fosse to srio. No passou pela minha cabea que Ali tivesse dado um ultimato a ele. - Como todo mundo, 
Melissa agora sabia os motivos de Ian. - Quero dizer, ela era uma menina do stimo ano. - Melissa deu uma olhada para Wilden. - Quando voc comeou a fazer perguntas 
essa semana, quando quis saber onde Ian e eu estvamos, comecei, a me perguntar se eu no deveria ter dito alguma coisa anos atrs. Mas eu ainda no achava que fosse 
possvel. E no falei nada porque... Porque pensei que, de alguma forma, eu fosse me encrencar por ter escondido a verdade. E, quero dizer, eu no poderia enfrentar 
isso. O que as pessoas pensariam sobre mim?
        Ela fez uma careta. Spencer tentou no parecer to surpresa. Ela j havia visto sua irm chorar muitas vezes, mas geralmente de frustrao, raiva, dio ou 
para manipular os sentimentos alheios e conseguir o que queria. Nunca de medo ou de vergonha.
        Spencer esperou que seus pais fossem at Melissa para consol-la. Mas eles permaneceram onde estavam, com ar de reprovao no rosto. Ela se perguntou se 
ela e Melissa estiveram, durante todo esse tempo, lidando com os mesmos tipos de problemas. Melissa tinha feito a tarefa de impressionar seus pais parecer to simples 
e fcil que Spencer nunca se dera conta de que ela tambm se sentia agoniada com isso.
        Spencer se inclinou na direo da irm e passou seus braos em volta dos ombros dela.
        - Est tudo bem - sussurrou ela no ouvido da irm. Melissa ergueu a cabea por um segundo, olhou para Spencer com um ar confuso, depois deitou a cabea no 
ombro dela e soluou.
        Wilden estendeu um leno para Melissa, levantou-se e agradeceu a todos pela cooperao durante todo aquele perodo confuso. Quando ele estava saindo, o telefone 
da casa tocou. A sra. Hastings andou toda empertigada at o escritrio para atend-lo. Poucos segundos depois, ela colocou a cabea para fora.
        - Spencer? - ela falou baixinho, seu rosto ainda estava composto, mas seus olhos brilhavam de excitao. -  para voc.  o sr. Edwards.
        Spencer foi tomada por uma onda de calor e enjoo. O sr. Edwards era o presidente do comit do Prmio Orqudea Dourada. Um telefonema pessoal dele queria 
dizer uma coisa e apenas uma.
        Spencer umedeceu seus lbios e depois ficou em p. O outro lado da sala, onde sua me estivera em p, parecia a muitos quilmetros de distncia. Ela se perguntou 
sobre o que eram os telefonemas secretos de sua me, qual era o grande presente que havia comprado para Spencer por ter tanta certeza de que ela venceria o Orqudea 
Dourada. Ainda que fosse a coisa mais maravilhosa do mundo, Spencer no tinha certeza se poderia aproveitar bem o que iria ganhar.
        - Me? - Spencer se aproximou da me e se apoiou contra a escrivaninha Chippendale, uma antiguidade, que ficava perto do telefone.-Voc no acha errado eu 
ter trapaceado?
        A sra. Hastings cobriu rapidamente o bocal do telefone.
        - Ora, claro que sim. Mas ns j discutimos isso. - Ela enfiou o telefone na cara de Spencer. - Diga "al" - rosnou ela, baixinho.
        Spencer engoliu em seco.
        - Al? - disse ela, finalmente, com a voz rouca.
        -  Senhorita Hastings? - perguntou uma voz masculina. - Aqui quem fala  o sr. Edwards, o chefe do comit do prmio Orqudea Dourada. Eu sei que  tarde, 
mas tenho notcias muito animadoras para voc. Foi uma deciso muito estudada, j que tivemos duzentos inscritos este ano. Sendo assim, tenho o prazer de dizer que...
        Parecia que o sr. Edwards estava falando debaixo d'gua, Spencer mal conseguiu ouvir o resto. Ela deu uma olhada para sua irm, sentada sozinha no sof. 
Melissa precisara de muita coragem para admitir que havia mentido. Ela podia muito bem ter dito que no se lembrava de nada, e ningum teria sabido, mas, em vez 
disso, ela fizera a coisa certa. Spencer pensou, tambm, na oferta de Mona para ela - eu sei o quanto voc quer ser perfeita -, mas o fato  que ser perfeita no 
significava nada se no fosse verdade.
        Spencer colocou a boca de volta ao bocal do telefone. O sr. Edwards fez uma pausa, esperando a resposta de Spencer. Ela respirou fundo, procurando o jeito 
certo de dizer:
        - Sr. Edwards, tenho uma confisso a fazer.
        Era uma confisso que no iria agradar a ningum. Mas ela ia conseguir fazer isso. Ela com certeza ia.
41
APRESENTANDO, EM SEU RETORNO
A ROSEWOOD, HANNA MARIN
Quinta-feira de manh, Hanna sentou-se em sua cama, deu um tapinha amistoso no focinho de Dot e olhou-se no espelhinho compacto. Finalmente ela tinha achado a base 
certa para cobrir seus hematomas e pontos, e queria contar a novidade. Sua primeira reao,  claro, foi ligar para Mona.
        Ela viu no espelho quando seu lbio inferior tremeu. Isso ainda no era real.
        Ela achava que podia ligar para suas antigas amigas, as quais tinha visto bastante nos ltimos dias. Elas no tinham ido  escola no dia anterior e ficaram 
na hidromassagem de Spencer, lendo artigos da Us Weekly sobre Justin Timberlake, que tinha aparecido na festa de Hanna logo depois que ela saiu. Ele e seus amigos 
tinham ficado presos no trnsito gerado pelo pedgio por duas horas. Quando as meninas foram ler dicas de beleza e estilo, Hanna se lembrou de como Lucas havia lido 
para ela uma Teen Vogue inteira enquanto estava no hospital. Ela sentiu uma pontada de tristeza, imaginando se Lucas sabia o que tinha acontecido com ela nos ltimos 
dias. Ele no havia ligado. Talvez ele nunca mais quisesse falar com ela.
        Hanna abaixou o espelho. Subitamente, to fcil quanto lembrar um fato aleatrio, como o nome do advogado de Lindsay Lohan ou a ltima namorada de Zac Efron, 
Hanna de um minuto para outro viu algo a mais da noite de seu acidente. Depois que tinha rasgado seu vestido, Lucas tinha aparecido perto dela, entregando sua jaqueta 
para que ela se cobrisse. Ele a tinha levado at a Sala de Leitura da Faculdade de Hollis e a abraara enquanto ela chorava de soluar. Uma coisa levou a outra... 
e eles comearam a se beijar, to ardentemente quanto tinham se beijado esta semana.
        Hanna ficou sentada em sua cama por muito tempo, entorpecida. Depois disso, pegou o telefone e ligou para Lucas. Caiu direto na caixa postal.
        - Oi - disse ela depois do bipe. -  a Hanna. Eu queria ver se... se podamos conversar. Me liga.
        Quando desligou, Hanna acariciou as costas de Dot cobertas por seu suter de tecido escocs.
        - Talvez eu devesse esquec-lo - sussurrou ela. - Provavelmente h um menino mais legal por a esperando por mim, voc no acha? - Dot levantou a cabea 
sem entender, como se no acreditasse nela.
        - Hanna? - a voz da senhora Marin ecoou escada acima. - Voc pode descer?
        Hanna se levantou, ajeitou os ombros. Talvez fosse inapropriado usar um vestido trapzio brilhante de Erin Fetherston na audincia de Ian - como usar uma 
roupa colorida em um enterro -, mas Hanna precisava de uma corzinha para se animar. Ela colocou uma pulseira dourada, apanhou sua bolsa hobo Longchamp e jogou os 
cabelos para trs. Na cozinha, seu pai fazia as palavras cruzadas do Philadelphia Inquirer. Sua me estava sentada perto dele, olhando seus e-mails no laptop. Hanna 
engoliu em seco. Ela no os via sentados juntos desse jeito desde que eles eram casados.
        - Achei que a essa altura voc j teria voltado para Annapolis - balbuciou ela.
        O sr. Marin soltou sua caneta esferogrfica e a me de Hanna colocou o laptop de lado.
        -  Hanna, ns queramos conversar com voc sobre algo importante - seu pai falou.
        O corao de Hanna disparou. Eles esto se reconciliando. Kate e Isabel j eram.
        Sua me limpou a garganta.
        - Me ofereceram um outro emprego... E eu aceitei. - Ela tamborilou suas longas unhas vermelhas na mesa. - S que...  em Singapura.
        -  Singapura? - esganiou Hanna, despencando em uma cadeira.
        - Eu no espero que voc v comigo - sua me continuou. - Alm do mais, com a quantidade de viagens que terei que fazer, nem sei se voc deveria ir. Ento, 
aqui esto as opes:Voc poderia ir para um colgio interno. Algum prximo daqui, se preferir - ela ento estendeu a outra mo -, ou voc pode ir morar com seu 
paI.
        O sr. Marin estava brincando de um jeito nervoso com sua caneta.
        -Ver voc no hospital... Fez com que eu me desse conta de algumas coisas - disse ele, baixinho. - Eu quero estar mais prximo de voc, Hanna. Eu preciso 
ser uma parte maior de sua vida.
        - Eu no vou me mudar para Annapolis - soltou Hanna.
        -Voc no tem que se mudar - disse seu pai, delicadamente. - Eu posso pedir transferncia para o escritrio daqui. Sua me me ofereceu esta casa para morar.
        Hanna ficou sem ao. Isso parecia um reality show que deu errado.
        - Kate e Isabel vo ficar em Annapolis, certo? 
        Seu pai balanou a cabea em negativa.
        -  muita coisa para pensar. Ns vamos dar um tempo para voc decidir. Eu s quero pedir transferncia para c se voc for morar aqui. Tudo bem?
        Hanna olhou sua cozinha moderna e cintilante, tentando imaginar seu pai e Isabel em frente  bancada fazendo o jantar. Seu pai se sentaria em sua velha cadeira 
 mesa de jantar, Isabel na de sua me. Kate podia ficar com aquela que eles normalmente enchiam de revistas e propagandas.
        Hanna ia sentir falta de sua me, mas ela no era to presente de qualquer forma. E Hanna queria muito que seu pai voltasse - s que ela no tinha certeza 
se queira que fosse desse jeito. Se ela permitisse que Kate se mudasse tambm, seria uma guerra. Kate era loira, magra e bonita. Kate ia entrar em Rosewood e tomar 
conta.
        Mas Kate seria a menina nova. E Hanna... Hanna seria a garota popular.
        -  Hum, muito bem. Eu vou pensar a respeito. - Hanna levantou, pegou sua bolsa e foi para o banheiro do andar de baixo. Sinceramente, ela sentiu-se meio... 
revigorada. Talvez isso fosse maravilhoso. Ela estava em vantagem. Pelas prximas semanas, ela teria que se assegurar de que seria a menina mais popular da escola. 
Sem Mona, seria fcil.
        Hanna enfiou a mo no bolso interno de sua bolsa forrada de seda. Dentro, dois BlackBerries estavam guardados lado a lado - o seu e o de Mona. Ela sabia 
que os policiais estavam procurando pelo segundo celular de Mona, mas no podia entreg-lo ainda. Ela tinha uma coisa a fazer antes.
        Ela respirou fundo, pegou o telefone de capa de camura marrom e apertou o boto LIGAR. O aparelho voltou  vida. No havia saudao, nem papel de parede 
personalizado. Mona usava esse telefone apenas para negcios.
        Mona havia salvado todas as mensagens que havia mandado a elas, cada mensagem com uma letra A ntida e singular. Hanna passou por cada uma de suas mensagens, 
mastigando o lbio com nervosismo. L estava a primeira que recebera, quando estava na delegacia de polcia por ter roubado a pulseira e o colar da Tiffany
        Ei, Hanna, como a comida da cadeia engorda, voc sabe 
        o que o Sean vai dizer para voc? Ele vai dizer "isso 
        no"!
        E havia tambm a ltima mensagem que Mona havia mandado desse telefone, que inclua essas frases de arrepiar:
        E Mona? Ela tambm no  sua amiga. Ento, fica 
        esperta.
        A nica mensagem para Hanna que no tinha sido mandada desse telefone era a que dizia:
        No acredite em tudo que ouve!
        Mona acidentalmente mandou de seu prprio telefone. Hanna estremeceu. Ela tinha acabado de comprar um telefone novo naquela noite e ainda no tinha inserido 
os nmeros de todo mundo. Mona tinha se confundido e Hanna reconheceu o nmero dela. Se isso no tivesse acontecido, quem sabe por quanto tempo mais aquilo teria 
continuado?
        Hanna apertou o BlackBerry de Mona, querendo esmag-lo. Por qu?, ela queria gritar. Ela sabia que devia desprezar Mona agora - os policiais tinham achado 
o SUV que Mona usara para atropelar Hanna, que estava escondido na garagem lateral dos Vanderwalls. O carro estava coberto com uma lona, mas o para-choque da frente 
estava batido e havia sangue - sangue de Hanna - espalhado nos faris.
        Mas Hanna no conseguia odi-la. Ela simplesmente no conseguia. Se ela fosse capaz de apagar todas as boas lembranas que tinha de Mona - seus mpetos de 
fazer compras, seus planos de popularidade triunfantes, seus Amiganiversrios. Quem ela iria consultar em uma crise de guarda-roupa? Com quem ia fazer compras? Quem 
iria se fingir de amiga por ela?
        Ela colocou o sabonete de menta para visitas perto do nariz, tentando no chorar para no borrar toda a maquiagem to cuidadosamente aplicada. Depois de 
ter cheirado o sabonete algumas vezes para acalmar-se, Hanna olhou para o arquivo de mensagens enviadas de Mona de novo. Ela selecionou cada uma das mensagens que 
Mona havia mandado como A, e apertou EXCLUIR TODAS. Voc tem certeza que deseja excluir? uma tela perguntou. Hanna apertou SIM. A tampa de uma lata de lixo abriu 
e depois fechou. Se ela no podia esquecer a amizade, pelo menos podia apagar seus segredos.
*   *   *
Wilden estava esperando na entrada - ele tinha se oferecido para levar Hanna para a audincia. Hanna percebeu que os olhos dele estavam pesados e os cantos de sua 
boca virados pra baixo. Ela se perguntou se ele estaria exausto por causa da atividade do final de semana, ou se sua me tinha acabado de contar a ele sobre o emprego 
em Singapura.
        - Pronta? - perguntou ele a Hanna, baixinho. 
        Hanna fez que sim.
        - Mas antes... - Ela enfiou a mo na bolsa e estendeu o BlackBerry de Mona. - Presente para voc.
        Wilden pegou o telefone, confuso. Hanna no se incomodou em explicar. Ele era policial. Ele ia entender rapidinho.
        Wilden abriu a porta do passageiro do carro de polcia e Hanna entrou. Antes de sarem, Hanna ajeitou os ombros, respirou fundo e verificou seu reflexo no 
retrovisor. Seus olhos escuros brilhavam, seu cabelo castanho-avermelhado estava encorpado e a base cremosa ainda cobria todos os seus hematomas. Seu rosto era fino, 
seus dentes alinhados e ela no tinha uma nica espinha. A Hanna gorducha do stimo ano que havia assombrado seu reflexo por semanas estava banida para sempre.
        Comeando agora.
        Ela era Hanna Marin, afinal de contas.
        E ela era fabulosa.
42
SONHOS - E PESADELOS -
TORNAM-SE REALIDADE
Na tera-feira pela manh, Emily coou as costas por cima do vestido de bolinhas e manguinhas cavadas que pegara emprestado com Hanna, desejando que pudesse simplesmente 
vestir calas. Ao lado dela, Hanna estava toda embonecada, usando um vestido vermelho retr acinturado e Spencer usava um tailleur sbrio e escuro. Aria vestia uma 
de suas combinaes em camadas: vestido preto balon de manga curta por cima de uma camiseta de mangas compridas, meias grossas de tric com botas de cano curto 
muito chiques que ela dissera ter trazido da Espanha. Elas respiravam o ar frio da manh perto do tribunal, mas bem afastadas do frenesi de reprteres e cmeras 
nos degraus do prdio.
        - Todas prontas? - perguntou Spencer, olhando para cada uma delas.
        - Prontas - disse Emily, em coro com as outras. Devagar, Spencer abriu um enorme saco de lixo Hefty, e as garotas colocaram algumas coisas l: Aria colocou 
uma boneca da Rainha M da Branca de Neve com X sobre seus olhos. Hanna colocou um pedao de papel amassado que dizia Sintam pena de mim. Spencer jogou uma foto 
de Ali e Ian dentro do saco de lixo. Elas se revezavam jogando l dentro todos os objetos que A havia mandado para elas. O primeiro instinto das meninas havia sido 
queimar tudo, mas Wilden precisava dessas coisas como provas.
        Quando enfim chegou a vez de Emily, ela olhou para o que havia em suas mos. Era a carta que ela havia escrito para Ali no muito tempo depois que a beijara 
na casa da rvore, pouco antes de Ali morrer. Nessa carta, Emily tinha confessado seu grande amor por ela, esvaindo qualquer possibilidade de sentimentos represados 
dentro de si. A havia escrito na carta:
        Pensei que voc poderia querer isso de volta.
        - Eu acho que quero guardar isto - disse Emily, com calma, dobrando a carta. As outras concordaram. Emily no tinha certeza se elas sabiam o que era, mas 
sabia que elas pelo menos faziam uma ideia. Ela soltou um longo e sofrido suspiro. Todo esse tempo, houvera uma luzinha brilhando em seu peito. Ela tivera esperana 
que, de alguma forma, A fosse Ali, e assim, Ali no estaria morta. Ela sabia que no estava sendo racional, sabia que o corpo de Ali havia sido encontrado no quintal 
dos DiLaurentis, com seu anel exclusivo da Tiffany no dedo. Emily sabia que tinha que deixar Ali partir... mas enquanto ela apertava suas mos em torno da carta 
de amor, desejou no ter que fazer isso.
        - Ns devemos entrar agora. - Spencer jogou o saco dentro de seu Mercedes, e Emily a seguiu junto com as outras na direo das portas do tribunal. Quando 
elas entraram no salo abobodado e com paredes de madeira do tribunal, o estmago de Emily se contraiu. Todo mundo de Rosewood estava l: seus colegas, seus professores, 
sua tcnica de natao, Jenna Cavanaugh e seus pais, todas as meninas do time de hquei de Ali. E todos as encaravam. A nica pessoa que Emily no viu imediatamente 
foi Maya. Na verdade, ela no ouvia uma palavra de Maya desde a festa de Hanna na sexta-feira  noite.
        Emily parou de procurar quando Wilden se materializou no meio de um grupo de policiais e as levou at um banco vazio. O ar estava saturado pela tenso e 
pelos odores de diferentes perfumes e colnias caros. Depois de mais alguns minutos, as portas bateram. Em seguida, a sala ficou no mais absoluto silncio, enquanto 
os carcereiros traziam Ian at a ala central. Emily agarrou a mo de Aria. Hanna passou o brao em volta de Spencer. Ian vestia o uniforme de presidirio, um macaco 
laranja. O cabelo dele estava despenteado e havia olheiras roxas abaixo de seus olhos.
        Ian andou at o banco. O juiz, um homem rgido e careca que usava um enorme anel de formatura de Direito olhou fixamente para Ian.
        - Sr. Thomas, como o senhor deseja se declarar?
        - Inocente - disse Ian, bem baixinho.
        Um murmrio varreu a sala. Emily mordeu o lado interno de sua boca. Quando fechou os olhos, viu aquelas imagens horrorosas de novo - s que desta vez, estreladas 
por um novo assassino, um assassino que fazia todo o sentido: Ian. Emily se lembrava de ter visto Ian naquele vero quando foi ao Country Clube de Rosewood como 
convidada de Spencer, onde Ian costumava trabalhar como salva-vidas. Ele se sentava no topo da plataforma de salva-vidas, apitando feito um louco, como se fosse 
a coisa mais importante do mundo.
        O juiz se inclinou sobre sua bancada alta e encarou Ian.
        - Por causa da seriedade deste crime, e porque acreditamos que existia um grande risco de fuga, o senhor dever permanecer preso at sua audincia de pr-julgamento, 
sr. Thomas. - Ele bateu seu martelo e depois enlaou as mos. Ian baixou a cabea, e seu advogado lhe deu um tapinha de consolo no ombro. Em poucos segundos, ele 
estava sendo levado para fora de novo, algemado. E isso foi tudo.
        Os cidados de Rosewood se levantaram e saram. Ento, Emily reparou em uma famlia que ela ainda no havia visto. Os guardas e as cmeras haviam bloqueado 
sua viso. Ela reconheceu o penteado chique da sra. DiLaurentis e o charme de homem mais velho do sr. DiLaurentis. Jason DiLaurentis estava ao lado deles, vestindo 
um terno preto de tecido enrugado e uma gravata xadrez escura. Enquanto se abraava, a famlia parecia muito, muito aliviada... e talvez tambm um pouco penitente. 
Emily pensou sobre o que Jason dissera na televiso:
        -  Eu no falo muito com minha famlia. Eles so muito problemticos.
        Talvez todos eles se sentissem culpados por passarem tanto tempo sem falar uns com os outros. Ou talvez Emily estivesse s imaginando coisas.
        As pessoas deixaram o tribunal. O tempo no lembrava nem remotamente o belo dia de outono sem nuvens no cu do Memorial de Ali, algumas semanas antes. Agora, 
havia muitas nuvens pesadas e escuras, que faziam tudo parecer embotado e cheio de sombras. Emily sentiu que algum colocava a mo em seu brao. Spencer passou seus 
braos em volta dos ombros de Emily.
        - Acabou - sussurrou Spencer.
        - Eu sei - disse Emily, abraando a amiga.
        As outras meninas se juntaram ao abrao. Pelo canto do olho, Emily viu o claro de um flash. Ela j podia at imaginar a manchete do jornal: As amigas de 
Alison, abaladas, mas em paz.
        Naquele momento, um Lincoln preto estacionado perto da calada chamou sua ateno. Um chofer, no assento de passageiro, aguardava. A janela de vidro escuro 
estava levemente abaixada e Emily viu um par de olhos fixos nela. O queixo de Emily caiu. Ela s vira um par de olhos como aquele uma vez em sua vida.
        - Meninas - sussurrou ela, apertando o brao de Spencer com fora.
        As outras saram do abrao.
        - O que foi? - perguntou Spencer, aflita.
        Emily apontou para o sed. A janela agora estava fechada, e o chofer engrenando a marcha.
        - Eu juro por Deus que acabo de ver... - balbuciou ela, mas depois parou de falar. As amigas pensariam que ela estava louca: fantasiar que Ali estava viva 
era s outra forma lidar com sua morte. Emily engoliu em seco, se endireitando. - Esqueam. No era nada - disse ela.
        As meninas se separaram, voltando para suas famlias, prometendo ligar umas para as outras. Mas Emily permaneceu onde estava, o corao disparado enquanto 
o sedan se afastava da calada. Ela viu quando ele desceu a rua, virou  direita no semforo e desapareceu. O sangue congelou em suas veias. No poderia ser ela, 
disse a si mesma.
        Poderia?
AGRADECIMENTOS
Primeiro, e acima de tudo, quero agradecer a todos que mencionei na dedicatria, s pessoas que encorajaram Spencer a beijar o namorado de sua irm, Aria a beijar 
seu professor de ingls, Emily a beijar uma garota (ou duas) e Hanna a beijar o esquisito da escola. s pessoas que ajudaram e at mesmo encorajaram o assassinato
de Alison, lembrando-me da frase "Quem no pode com o balde, no pega na rodilha" e que ficaram animadas com esse projeto desde o comeo. Estou falando, claro, de
meus amigos na Alloy: Lanie Davis, Josh Bank, Les Morgenstein e Sara Shandles. O caminho de um escritor profissional  cheio de obstculos e eu sou Imensamente grata
por tudo que vocs fizeram por mim. Tenho muita sorte em trabalhar com vocs e duvido muitssimo que esses livros seriam a metade do que so sem suas maravilhosas
mentes criativas... e seu humor... e, claro, os docinhos. Um brinde a mais surpresas incrveis e finais mirabolantes no futuro!
        Sou grata tambm a todos aqueles na Harper que lutaram por esses livros: Farrin Jacobs, que fez uma leitura cuidadosa dos originais; Kristin Marang, por
sua dedicao, ateno e amizade. E sou muito grata a Jennifer Rudoloph Walsh, da William Morris, que acreditou muito no futuro da srie. Voc  mgica.
        Amor para o punhado de pessoas que eu menciono em todos os livros: para Joel, meu marido, por sua habilidade em prever o futuro... estranhamente, o futuro
para ele sempre envolve ccegas. Para meu pai, Shep, porque voc gosta de imitar agentes de viagens franceses, porque ns achamos que voc tinha se perdido no deserto
em dezembro e porque certa vez voc ameaou abandonar um restaurante que no tinha vinho tinto. Para minha irm, Ali, por criar o melhor time de todos os tempos
(Time da Alison) e por tirar fotos de Squee, a ovelhinha de pelcia com um cigarro pendurado na boca. E para minha me, Mindy: espero que voc nunca tome a vacina
contra bobeira. Obrigada por sempre ter apoiado tudo o que escrevi.
        Tambm quero agradecer a todos os leitores da srie Pretty Little Liars que esto por a. Eu adoro saber sobre vocs, e estou muito feliz que gostem tanto
das personagens quanto eu. Continuem mandando essas cartas incrveis!
        E finalmente, muito amor para minha av, Gloria Shepard. Estou comovida que voc tenha lido a srie Pretty Little Liars, e estou muito feliz que voc ache
os livros divertidos.Vou tentar incluir mais piadas sobre pelos nasais no futuro.
O QUE ACONTECE DEPOIS...
Agora que Mona foi embora deste mundo e que lan foi mandado para a cadeia, nossas Pretty Little Liars finalmente podiam viver em paz. Emily encontrou o amor verdadeiro
no Smith College; Hanna virou a abelha rainha de Rosewood Day e se casou com um milionrio; Spencer se formou como primeira da classe na Faculdade de Jornalismo
da Columbia e foi subindo na carreira at virar a editora-chefe do New York Times; Aria se formou na Rhode Island School of Design e se mudou para a Europa com Ezra.
Estamos falando de ver o pr do sol, bebs gorduchinhos e alegrias avassaladoras. Legal, n? Ah, e nenhuma delas jamais mentiu de novo.
        Ei, voc est de sacanagem? Acorda, Alice! No existe felicidade eterna em Rosewood Day.
        Quero dizer, voc no aprendeu nada? Uma vez uma Pretty Little Liar, sempre uma Pretty Little Liar.  o que Emily, Hanna, Spencer e Aria so e no conseguem
evitar.  isso que eu mais amo nelas. Ento, quem sou eu? Bem, vamos dizer que h uma nova A no pedao, e que nossas garotas no vo escapar to fcil.
        Vejo voc em breve. E, at l, tente no ser muito boazinha.
        A vida  sempre mais divertida quando temos alguns segredinhos.
        Mwah! - A
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232
